O Extra é um Gênio!?

Capítulo 498

O Extra é um Gênio!?

A manhã chegou silenciosa.

A luz filtrava-se pela ilha em tons pálidos, tocando tanto as rochas partidas quanto o solo recentemente consertado, revelando as consequências do que havia acontecido na noite anterior. Noel estava junto aos outros em uma área aberta da ilha que fora parcialmente restaurada, com os danos estabilizados o suficiente para torná-la segura. Ao redor deles, as pessoas se moviam lentamente, ainda rígidas pelo cansaço, mas acordadas. Todas elas.

Quase mil vidas, libertas e respirando sem correntes pela primeira vez em mais tempo do que a maioria desejava lembrar.

A atmosfera tinha um quê estranho de calmaria. Alívio pairava pesado no ar, mesclado à gratidão e ao cansaço, um suspiro coletivo que ainda não tinha totalmente se concluído. Algumas pessoas se aproximaram hesitantes, sem saber exatamente como expressar o que sentiam. Outras se curvaram profundamente, com cabeças abaixadas em sinal de respeito, enquanto alguns simplesmente falavam, com vozes ásperas e baixas, agradecendo porque era tudo o que lhes sobrava para dar.

Eventualmente, um homem deu um passo à frente, mais velho que a maioria, com postura curvada mais pela fadiga do que pela idade. Ele olhou para Noel e depois para o restante do grupo, os olhos fixos em cada rosto, como se tentasse decorá-los na memória.

"Não temos muito a oferecer," disse ele, com a voz firme apesar do tremor em suas mãos. "Mas agradecemos. A todos vocês. Se não tivessem vindo, esta ilha teria ficado assim para sempre."

Houve murmúrios de concordância atrás dele. Acenos. Vozes suaves ecoando o mesmo sentimento.

Outra voz levantou-se da multidão, mais jovem, mais aguda, carregando informação mais do que emoção.

"Esta era uma das ilhas menores," disse a mulher. "Não uma central. Existem lugares piores por aí."

As palavras caíram pesado.

Noel sentiu isso reverberar pelo grupo ao seu lado, a recalibração silenciosa que se seguiu. Elyra apertou levemente os olhos. Selene expirou pelo nariz. Elena desvia o olhar por um momento, com as mãos entrelaçadas.

Noel assentiu uma vez, aceitando a declaração sem reagir externamente. Quando falou, sua voz foi calma, quase controlada, sem traços de drama.

"Exatamente por isso não podemos parar aqui," disse ele. "Se essa ilha é pequena, as outras são ainda mais importantes."

Não havia bravata nisso.

Ele já pensava adiante, mapeando distâncias e tempos, ponderando quanto de pressão poderiam perder e onde a próxima linha de falha poderia surgir. Seu olhar se direcionou instintivamente ao horizonte, às ilhas ainda não alcançadas.

Foi quando o dispositivo ao seu lado ativou-se.

O som cortou limpo pelos murmúrios, agudo o suficiente para fazer as conversas morrerem no meio da frase. A mão de Noel já se movia quando o canal foi aberto, a voz de Theo vindo alguns milissegundos depois.

"Noel. Temos um problema."

O tom estava errado.

Houve uma breve pausa, tempo suficiente para que todos os olhos na área aberta se voltassem para Noel.

Então Theo prosseguiu.

"A Segunda Coluna se moveu."

A quietude que se seguiu foi mais pesada do que as próprias palavras.

Noel não falou imediatamente. Manteve os olhos fixos no dispositivo na mão, esperando. Theo entendeu e continuou sem ser solicitado.

"Perdi a clareza do sinal deles há algumas horas," disse Theo, com a voz tensa mas controlada. "Ainda os vejo pelo arranjo de faróis. Estão lá. Essa parte não mudou."

O rosto de Noel se afinou levemente.

"Então você sabe que eles estão na ilha," afirmou.

"Sim," respondeu Theo. "Posso confirmar a presença deles. Mas a imagem está instável. Embaçada. Como se estivesse vendo através de vidro distorcido."

O dispositivo emitiu um leve zumbido enquanto Theo prosseguia.

"A ilha deles já era a mais distante da sua posição atual," explicou. "A distância isoladamente dificultava o rastreamento. Mas, após a movimentação da Segunda Coluna, as leituras espaciais mudaram."

Noel levantou o olhar.

"Defina ‘mudou’."

"As coordenadas não batem mais certinho," respondeu Theo. "Consigo ver seus contornos, seus sinais de mana, mas não consigo focar neles. Sempre que tento travar a posição, escorregam."

Ele fez uma pausa por um momento.

"E o tempo está contra a gente."

Clara ficara parada desde o início da ligação, com postura rígida. Agora ela avançou, com os olhos fixos no dispositivo, a voz tensa.

"Você quer dizer que consegue ver o Marcus," disse ela. "Mas não sabe exatamente onde ele está."

Theo não hesitou.

"Sei que ele está na ilha," afirmou. "Só não consigo mais localizá-lo com precisão."

As mãos de Clara se fecharam em punhos, os nós das mãos ficando brancos enquanto ela respirava fundo com força.

"Então vamos," disse ela. "Agora."

As palavras soaram com força.

Noel sentiu a tensão se instalar sobre o grupo, mais pesada do que antes. Não era um avanço planejado. Não era mais uma desmontagem controlada de um sistema.

Ele deu um passo à frente antes que o silêncio se estendesse ainda mais.

"Se a Segunda Coluna agir primeiro," disse, com a voz firme e decidida, "esperar pode nos fazer perder tempo que não temos."

Algumas cabeças se voltaram imediatamente para ele. Ele não desviou o olhar.

"Posso chegar à ilha mais rápido sozinho," continuou Noel. "Não preciso desacelerar. Não preciso de preparação. Se o Marcus e o Roberto estão em perigo agora, cada minuto conta."

'Parece que me acomodei,' pensou consigo mesmo. 'Esqueci que eles não precisam esperar por nós. Trágico demais… não podia ser uma dessas histórias onde os vilões esperam educadamente o protagonista chegar?'

Elyra falou primeiro, com um tom afiado o suficiente para cortar o argumento antes que se consolidasse.

"Noel," disse ela, aproximando-se, com os olhos fixos nele. "É assim que as pessoas acabam sendo pegas."

Ela não elevou a voz. Não precisou.

"Dissemos que iríamos juntos."

Elena imediatamente concordou, as mãos entrelaçadas à frente, balançando a cabeça.

"Se a placa se moveu," afirmou ela, "então avançar sozinho é exatamente o que eles querem." Ela respirou fundo, forçando as palavras a saírem de forma equilibrada. "Por favor, não transformem isso numa jogada de risco."

Selene cruzou os braços, com expressão impassível, mas sua voz permaneceu calma quando falou.

"Você não está errado quanto ao risco," disse ela. "Algo mudou, e não está a nosso favor." Seu olhar endureceu um pouco. "Mas quebrar a formação agora significa perder a única vantagem que temos até aqui."

Noel sentiu o peso das palavras deles cair sobre si, pesado e inevitável.

Finalmente, Clara falou. Quando deu um passo à frente, a expressão dela era tensa, mas firme, como alguém se obrigando a pensar além do medo.

"Eu quero ir," disse ela. "Mais do que qualquer um aqui."

Suas mãos tremeram um pouco antes de cerrá-las e continuar.

"Ele é meu namorado. Eu o amo."

Ela respirou fundo, buscando manter a calma.

"Mas eu sei que ele vai ficar bem," acrescentou Clara, com voz mais firme. "E sei que isso pode ser uma armadilha. Uma distração. Algo feito para nos separar."

Seu olhar se cruzou com o de Noel.

"Não quero que apostemos tudo por causa disso." Ela assentiu decisivamente. "Dissemos que seguiríamos o plano. E é isso que vou fazer."

A atmosfera ficou pesada após isso. Ele olhou para o dispositivo, depois para o grupo, para o cansaço que todos carregavam, para a confiança que estavam depositando nele. Finalmente, seu olhar se perdeu no horizonte, em uma ilha que já não conseguia enxergar claramente.

'Seguir o plano,' pensou. '…ou agir antes que seja tarde demais.'

A decisão permanecia pendurada, sem resolução.

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