O Extra é um Gênio!?

Capítulo 401

O Extra é um Gênio!?

A porta pesada se fechou com um som surdo atrás de Noel. O aroma de papel antigo e uma leve impressão de incenso preenchiam o escritório, e a única luz vinha de uma lâmpada de óleo quase no final de seu brilho, sobre a mesa de Albrecht. Sombras se alongavam pelas paredes, devorando os móveis dourados em silêncio sombrio.

Albrecht estava sentado ali, com postura rígida, mas os olhos vagando sem foco — um homem feito de ferro, porémrazando nas pontas.

“Sente-se,” ele finally disse, com um tom desprovido do comando habitual.

Noel obedeceu, puxou uma cadeira e se sentou do lado oposto. O silêncio que se seguiu não era tenso — era cansado, como se duas pessoas estivessem à beira de algo que ambas sabiam que iria doer.

Após uma longa pausa, a voz de Albrecht quebrou o silêncio. “Imagino que você já saiba por que te chamei aqui.”

Os olhos verdes de Noel cruzaram com os de seu pai. “Sobre minha mãe.”

Albrecht deu uma pausa lenta, concordando com a cabeça.

Noel disse simplesmente, com tom plano: “Pela sua expressão, não é a primeira vez que pensa nela esta noite.”

O canto da boca de Albrecht se contraiu em algo parecido com um sorriso, embora não iluminasse seus olhos. “Não. Ela nunca sai de mim de verdade.”

Ele olhou para a lâmpada oscilante por um momento, como se estivesse juntando as palavras certas — algo com que Noel nunca o tinha visto lutar antes. “Sua mãe era… diferente. Não só das mulheres com quem me casei depois, mas de todas as pessoas que já conheci.”

Noel se recostou um pouco, sem falar nada, esperando.

O olhar de Albrecht suavizou-se, sua voz ficou mais calma. “Ela não nasceu nobre. Não tinha um nome que importasse, nem um brasão a carregar. Mas, de alguma forma, tinha mais graça do que qualquer pessoa nesta maldita casa já teve.”

A chama entre eles vacilou.

Pela primeira vez na vida, Noel viu não o patriarca da Casa Thorne — mas um homem lembrando de alguém que nunca realmente conseguiu deixar para trás.

Albrecht recostou-se na cadeira, os olhos fixos em uma memória que só ele podia ver. “Ela trabalhava nos jardins externos na época,” começou, numa voz mais baixa do que Noel jamais tinha ouvido. “Uma mulher simples, que sorria mesmo quando as mãos sangravam de podar hera de espinhos. Uma vez, me repreendeu por pisar nos canteiros de flores.”

Noel levantou uma sobrancelha levemente. “Você deixou alguém te repreender?”

Um sorriso sutil brilhou nos lábios de Albrecht. “Sim. E então me casei com duas mulheres que nunca ousaram fazer o mesmo.”

O breve traço de humor desapareceu tão rápido quanto apareceu. “Me apaixonei por ela antes mesmo de entender o que era dever. Antes de ser forçado a me tornar o que esta casa exigia.” Ele fez um gesto vago em direção aos sigilos esculpidos nas paredes — o peso do legado. “Os Estermont, os Iskandar, até a Coroa esperava que um Thorne se casasse dentro do círculo. Alguém… adequado.”

“Então você não se casou,” Noel disse em voz baixa.

“Eu não pude,” corrigiu Albrecht. “Não abertamente.” Ele expirou pelo nariz, com um som amargo. “Mantenho ela perto. Dei a ela tudo o que pude—sem quebrar a corrente que me prende aqui. Quando Mirelle e Serina vieram, ela ficou — não por desespero, mas porque dizia que o amor não precisava de título.”

Noel ouviu em silêncio. Não sabia qual era mais estranho — ouvir seu pai falar de amor, ou perceber como soava sincero.

“Ela era o coração deste lugar,” continuou Albrecht. “Quando ela estava aqui, o ar parecia mais leve. Os criados riam. Até Mirelle sorria naquela época. Quase parecia que esta casa tinha alma.”

Ele ficou parado por um momento, a expressão distante. “Mas ela começou a adoecer. Uma doença rara que os curandeiros não conseguiam nomear. Mesmo assim, ela sorria. Dizia que não queria pena, apenas tempo.”

Albrecht abaixou ainda mais a voz, quase um sussurro. “E quando eu olhava para ela, jurei trocar toda a força que tinha para parar aquele relógio.”

Ele olhou para Noel, os olhos se encontrando. “Mas não fiz — e foi aí que me tornei o homem que você conhece.”

A chama na lâmpada de óleo vacilou, lançando raios dourados sobre o rosto de Albrecht. Pela primeira vez, o peso de suas palavras pareceu menos uma ordem — e mais uma confissão.

“Ela ficou doente por anos,” disse suavemente. “Na maior parte do tempo, mal conseguia ficar de pé. E mesmo assim, quando me disse que queria um filho…” Ele fez uma pausa, passando a mão pelos cabelos loiros — do mesmo tom de Noel. “Fiquei furioso. Assustado. Eu sabia o que aquilo custaria a ela.”

Os olhos de Noel se estreitaram. “Mas ela fez mesmo assim.”

Albrecht assentiu lentamente. “Disse que queria algo dela vivendo, mesmo que não pudesse.” Sua garganta apertou enquanto ele continuava. “Debati, gritei. Ela riu. Dizia que eu fazia mais barulho do que sentido.”

Um sorriso leve cruzou seu rosto, passageiro, mas verdadeiro. “Essa era ela. Sempre sorrindo. Mesmo enquanto morria.”

As palavras pesaram no ar, pressionando os dois.

“Quando você nasceu,” prosseguiu Albrecht, “você não chorou. Apenas olhou para ela — com aqueles mesmos olhos.” Ele levantou o olhar para os olhos de Noel. “Por um momento, ela sorriu como se tivesse vencido uma batalha secreta. Então…”

Ele não terminou a frase.

Noel apertou as mãos contra o braço da cadeira. “Ela morreu logo depois.”

Albrecht apenas assentiu. “Ela me pediu para protegê-lo antes da luz se apagar nos olhos dela.” Sua voz tremeu levemente — a primeira rachadura que Noel tinha ouvido nela. “E eu nem consegui fazer isso direito.”

Noel respirou fundo, o maxilar travado. “Então é por isso que você não conseguia olhar para mim.”

“Sim,” admitiu Albrecht. “Sempre que te via, era como ver o fantasma dela. Os mesmos olhos. A mesma risada quando você era pequeno. Eu odiava… porque sentia muita falta dela.”

Ele se recostou, exausto com sua própria sinceridade. “Foi isso que quebrou esta família, Noel. Não política, não ganância. Apenas a dor que ficou para apodrecer.”

O silêncio voltou, espesso — quase sagrado. Só o sussurro suave da lâmpada de óleo preenchia o ambiente.

Noel inclinou-se para frente, com os cotovelos nos joelhos, o olhar encoberto pela luz tênue. “Sabe… eu costumava me perguntar por que todo mundo me tratava como lixo. Mirelle, Serina, até os criados. Acho que eu era a lembrança viva do que vocês não conseguiam esquecer.”

Albrecht demorou a responder. Seu olhar fixou-se na mesa, marcada por pequenas marcas — fantasmas de outro tempo. “Eles também a amavam, cada um à sua maneira,” disse calmamente. “Mas te culpavam porque eu não consegui homenageá-la direito. Enterrei-me nesta casa, no trabalho, no silêncio… e deixei que esse silêncio envenenasse todos ao meu redor.”

Noel exalou pelo nariz, devagar. “Então era verdade, foi por ela.”

“Sim,” respondeu Albrecht simples. “Você tem os olhos dela, o sorriso… até o jeito de se impor quando todos dizem que não deve. É irritante.”

Isso arrancou um sorriso amargo de Noel. “Acho que estou fazendo algo certo, então.”

Por um instante, pai e filho compartilharam uma calma rara — não calor, mas algo parecido. Compreensão, quem sabe.

Albrecht levantou-se da cadeira, o peso dos anos visível em seus movimentos. “Ela teria se orgulho de você,” disse, com a voz baixa, mas firme. “Mesmo que eu não tenha dito isso antes, digo agora — você sobreviveu ao que esta família jogou em você. Isso é mais do que a maioria consegue.”

Noel também se levantou, ajustando o manto. “Orgulho não vai impedir o que vem,” disse em voz baixa. “Mas… obrigado.”

Albrecht deu uma ligeira cabeça, quase um aceno. “Vamos conversar de novo em breve. A horda está chegando. Descanse enquanto pode.”

Noel virou-se para sair. Antes de passar pela porta, parou — olhando para trás por cima do ombro. “Ela teria gostado que você finalmente falasse dela, sabia.”

Os lábios de Albrecht se contraíram em algo próximo de um sorriso. “Talvez. Mas duvido que ela perdoasse o tempo que levou para eu falar.”

Comentários