O Extra é um Gênio!?

Capítulo 399

O Extra é um Gênio!?

O ar ficou imóvel por meio segundo — então, a voz de Mirelle rasgou o silêncio como um chicote.

"Então era você, sua ratazinha?" ela sibilou, apontando uma mão trêmula para Noir. "A que tem rastejado pelas sombras, espionando-me como uma fera imunda?"

O pelo de Noir arrepiou-se, mas seus olhos permaneciam afiados, imóveis. Ela deu um passo à frente, sua cauda balançando lentamente atrás de si.

'Você está só com raiva porque o papai me salvou antes que seus amigos pudessem terminar o trabalho,' ela disse com firmeza, o tom carregado de uma quieta afronta.

Mirelle parou por um momento — então riu, um som seco e quebrado. "Papai? Então você até já ensinou sua besta a falar agora?"

Noel não vacilou. "Ela é mais honesta do que a maioria dos humanos que conheci," ele disse com frieza.

Isso foi suficiente. A fachada que ela carregava há anos — a máscara calma e graciosa da esposa perfeita — quebrou-se e despedaçou-se como vidro.

"Você acha que isso é honestidade?" Mirelle gritou. Sua mana irrompeu para fora, ardendo em vermelho ao seu redor. "Você tem coragem de me julgar depois de tudo o que fiz por essa família?! Por você, Albrecht?!"

Os olhos de Albrecht se arregalaram. "Mirelle — basta!"

Mas ela não terminou. Ela voltou sua fúria para Noir, cuspindo cada palavra como veneno. "Se aquela besta não tivesse interferido, nada disso teria desmoronado! Tudo — anos de trabalho, jogados fora!"

Noir deixou escapar um rosnado baixo, sombras ondulando sob suas patas, mas Noel levantou a mão para pará-la. Seus olhos nunca desviaram de Mirelle.

'Então essa é a verdadeira você,' ele pensou.

As respirações de Mirelle ficaram aceleradas, seu peito arfando enquanto mana cintilava descontroladamente ao seu redor.

E, pela primeira vez, Albrecht olhou para ela não como sua esposa —

— mas como uma inimiga.

"Você destruiu tudo!" O grito de Mirelle cortou a noite como uma lâmina, sua voz crua e tremulando de raiva.

Seus olhos queimavam enquanto ela fixava o olhar em Albrecht, depois em Noel. "Por que ela, Albrecht? Por que aquela garota e não um dos meus filhos?! Eles deveriam herdar a Casa Thorne!"

A mana explodiu violentamente ao redor de seus braços, o brilho vermelho pintando seu rosto pálido de fúria.

O tom de Albrecht foi duro, mas controlado. "Mirelle, acalme-se."

"Acalmar-me?" Ela soltou uma risada estrangulada, descontrolada e vazia. "Você tirou Kael e Damon de seus direitos! Você os humilhou — me humilhou!"

Sua mão estendeu-se para ele, tremendo. "Tudo por causa daquele idiota incidente na caçada?"

Noel ficou imóvel ao lado de Noir, sem dizer nada, seu olhar frio e incolor. 'Isso não é tristeza,' ele pensou. 'É obsessão.'

"Eles eram crianças!" Mirelle gritou. "Você poderia protegê-los — ajudá-los a consertar o erro — mas não! Você entregou a herança à filha daquela mulher!"

A voz de Albrecht caiu, firme e cortante. "Sylvette conquistou isso. Ela foi a única que mostrou moderação, e seus filhos quase causaram uma guerra. Você sabe disso."

Ela franziu os lábios e uma risada baixa e quebrada escapou. "Conquistou? Por favor… Você acha que alguém acredita nisso? Você fez isso só para me envenenar. Para me punir."

As palavras pesaram mais do que ela imaginava.

Por um breve momento, os olhos de Albrecht suavizaram — então voltaram a ser de aço. "Você mudou, Mirelle," ele disse em voz baixa. "Nem reconheço mais a mulher que está diante de mim."

Ela balançou a cabeça com força, a respiração desequilibrada. "Não, quem mudou foi você, Albrecht. No momento em que virou as costas para nossa família…"

A tensão aumentou, mais densa do que antes. O eco da explosão de Mirelle ainda persistia, mas agora havia algo mais frio no ar — descrença, e uma tênue placa de negação.

Albrecht passou a mão pela barba, tentando se recompor. "Mirelle," ele falou mais baixo, "Eu entendo sua raiva. De verdade. Mas chegar a esse ponto… desferir esse golpe —"

"Você não entende nada!" ela interrompeu abruptamente, a voz trincando. "Você jogou fora décadas de nossa vida juntos, por quê? Pelo seu orgulho?"

Suas palavras cortaram fundo, mas o tom de Albrecht manteve-se tranquilo, embora seus punhos estivessem embaciados de branco ao lado do corpo. "Fala como se eu tivesse gostado dessa escolha. Você acha que foi fácil tirar Kael e Damon de suas chances? Você sabe o que eles fizeram, Mirelle."

"Eles foram engodados!" ela gritou de volta. "Cometeram um erro — um erro — e você os sepultou por isso. Você nos sepultou!"

Noel permaneceu em silêncio entre eles, com a mandíbula apertada. Cada palavra parecia uma ferida que se reabria, uma que queimava há anos.

'Então, é assim que cai uma casa,' ele pensou amargamente. 'Não são os monstros lá fora — são os que estão dentro.'

Finalmente, Albrecht virou-se e afastou-se, com a expressão fria. "Se você tivesse conversado comigo, se tivesse confiado em mim—"

"Confiado em você?" Mirelle soltou uma risada vazia. "Você deixou de ser marido no dia em que ela morreu. Tudo depois disso... era só farsa."

Isso o congelou.

Até Noel sentiu a mudança — um silêncio pesado engolindo o pátio inteiro.

Por um longo momento, Albrecht nada disse. Então, quase suavemente, respondeu: "Talvez você esteja certa. Mas fingir foi a única maneira de essa família continuar de pé."

A respiração de Mirelle desacelerou, mas sua raiva não desapareceu — transformando-se em algo mais profundo, mais doloroso. Sua voz tremeu ao falar de novo, mais suave, mas cortante a cada palavra.

"Você sequer percebe o que se tornou após a morte dela?" ela perguntou, encarando Albrecht com olhos brilhantes. "Você fala de família, de dever — mas deixou de estar vivo no instante em que ela se foi."

Albrecht apertou a mandíbula, mas não respondeu. Seus olhos piscaram, distantes, como se revivesse aqueles anos diante de si.

Mirelle deu um passo à frente, cada palavra saindo como uma confissão e uma maldição ao mesmo tempo. "Você se trancou no seu escritório por meses. Ignoreu a gente — ambos. A Serina e eu tentamos, meu Deus, tentamos te trazer de volta, te ajudar a seguir em frente. Mas você não deixou ninguém entrar."

Ela soltou uma risada amarga, trêmula e desigual. "Você chamou isso de luto. Eu chamei de covardia."

A expressão de Noel escureceu um pouco, mas ele não interrompeu. Nunca tinha ouvido ninguém falar daquele tempo antes — os anos após a morte da mãe dele sempre foram um vazio silencioso na história da família.

Mirelle voltou-se repentinamente para ele, com tom afiado. "E por causa desse vazio, você pagou o preço, Noel. Você era a lembrança que ele não podia suportar ver. A sombra da mulher que ele perdeu."

Noel gelou, as palavras dela cortando mais fundo do que ele imaginava.

"Você acha que nos odiava só por causa de quem sua mãe foi?" ela continuou, a voz subindo outra vez. "Não — era porque toda vez que olhávamos para você, víamos o que ele ainda amava e o que nunca poderíamos substituir."

O pátio voltou ao silêncio. Até Noir, escondido nas sombras, não se moveu.

As mãos de Albrecht cerraram-se atrás das costas, a voz áspera quando finalmente falou.

"Chega, Mirelle."

Mas ela não parou. Seus olhos suavizaram por um breve instante, carregados de anos de frustração e dor. "Era mais fácil odiar você do que admitir que éramos os deixados para trás… assistindo ele desaparecer pouco a pouco."

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