
Capítulo 175
O Extra é um Gênio!?
A atmosfera no escritório de Nicolas era silenciosa—mas densa. Aquele tipo de silêncio que só existia antes de palavras sérias serem ditas.
Noel sentou-se do outro lado da mesa, com postura reta e olhar atento. Não estava exatamente tenso, mas sabia que aquela conversa não era casual.
Ambos sabiam disso.
Nicolas bateu levemente os dedos na mesa, depois cruzou as mãos.
"Primeiro," ele disse, com a voz calma, porém carregada de peso, "vou contar o que descobri por mim mesmo..."
Houve uma pausa.
"...e o que a reunião do rei Alveron revelou. Embora, como mencionei antes—a resposta dele foi realmente decepcionante."
Noel permaneceu em silêncio, ouvindo com atenção, olhos afiados. Já tinha uma ideia geral de como as coisas tinham se desenrolado, mas agora cada variável tinha importância. Cada detalhe negligenciado poderia ser perigoso.
Havia pessoas que ele queria proteger.
Elyra. Elena.
Os dois nomes mais importantes na sua vida neste momento.
Ele não podia se dar ao luxo de cometer outro erro como o de Erick.
Se tivesse pulado o casamento… ido direto à Capital Sagrada… talvez as coisas fossem diferentes. Mas que ligação ele ainda tinha com aquela família?
Nenhuma que fosse relevante.
Nicolas recostou-se um pouco na cadeira, com os dedos ainda entrelaçados.
"Graças ao Padre Orthran," começou, "consegui ter uma ideia clara do que aconteceu. A Capital Sagrada tinha vários infiltrados. A estratégia deles não era nova—é o mesmo padrão de sempre. Integração silenciosa. Disfarce. Manipulação de longo prazo."
Ele balançou a cabeça, irritado.
"Já é a terceira vez que usam esse método. Chega. Não vou mais correr riscos. No momento, não serão contratados novos professores. Vou fazer a equipe atual fazer hora extra, se for preciso. Eles já ganham bem."
Noel assentiu levemente. "Parece sensato. Um passo inicial sólido."
Nicolas deu um breve silêncio de aprovação, depois prosseguiu.
"Baseado nos incidentes recentes—aqui e na capital—posso afirmar com certeza: estamos lidando com demônios."
Noel o interrompeu sem hesitar. "Nem exatamente."
Nicolas levantou uma sobrancelha. "Como assim?"
"Aquela na Capital Sagrada… parecia uma elfa negra, sim. Mas, de acordo com Charlotte, ela não era. Ela era uma elfa normal. Foi a corrupção que a transformou—alterou sua aparência e seu mana completamente."
Ele se inclinou um pouco para frente, com tom firme. "Sei que você odeia demônios. Mas no papel, ela não era uma. Sua raça ainda é distinta."
Nicolas estreitou os olhos levemente, depois abriu a garganta para falar.
"Pois bem. Chame do que quiser. O que ela fosse, queria o mesmo resultado."
Nicolas apoiou ambos os cotovelos na mesa, com o tom de voz ficando mais frio.
"Agora eles atacaram dois dos locais mais importantes do império," disse ele. "A Academia Imperial de Valor… e a Capital Sagrada, mesmo sendo independentes."
Ele deu um leve toque na mesa.
"Escolhas bastante deliberadas. Querem nos enfraquecer na raiz—eliminar futuros líderes antes que cresçam, e acabar com a única figura que consegue mobilizar os fiéis."
Noel concordou. "Exatamente. O ataque à capital não foi aleatório. Foi planejado com antecedência. A purificação da Charlotte no norte… ela ficou vulnerável. Eles sabiam."
Nicolas exalou. "E mesmo assim, vocês conseguiram impedir. Todos vocês. Perceberam a tempo."
Os olhos de Noel baixaram-se ligeiramente. "Nem totalmente."
O ambiente ficou silencioso.
"...Vocês ainda são apenas estudantes," disse Nicolas finalmente. "Fizeram mais do que qualquer um poderia esperar. E vocês… mais do que todos eles."
Não havia orgulho na voz dele. Era apenas o reconhecimento do fato.
"Me contem tudo," pediu. "Quero comparar a versão de vocês com o que Orthran me enviou. Vocês estavam lá—de primeira mão."
Noel assentiu lentamente. "Certo. Vou começar do começo."
Ele recostou-se um pouco na cadeira, com os braços relaxados, mas com a mente afiada.
"Enfrentei Marcus na embarcação a caminho de Teralis. Tinha que ir ao casamento da minha irmã… mas Marcus mencionou que eles estavam planejando visitar um orfanato. Queria dar uma força às crianças—inspirá-las a despertar seus núcleos e, quem sabe, ingressar na academia um dia."
Ele fez uma pausa rápida.
"Não é exatamente verdade… mas chega perto."
Nicolas não interrompeu.
"Cheguei à Capital Sagrada um dia ou dois depois. Um velho papa me recepcionou na entrada—parecia inofensivo. Até gentil. Depois, descobrimos que ele era um dos infiltrados."
Ele olhou de lado.
"Charlotte me disse que ele tinha servido à igreja fielmente por décadas. Foram eles quem corromperam ele. O twistedaram."
A voz de Noel ficou mais baixa.
"Desde o começo, senti um pressentimento ruim. Não conseguia explicar. Só…algo estranho."
Ele olhou de volta para Nicolas.
"Passei duas semanas completas investigando. Nada apareceu. No final, Marcus e Charlotte se juntaram a mim. Nós três trabalhamos juntos—mas mesmo assim… sem pistas. Era como correr atrás de uma sombra."
"Não conseguimos achar nada concreto," continuou Noel, "mas algo não me parecia certo na forma como o orfanato anunciava adoções. Era uma boa notícia. Essas crianças mereciam um futuro. Uma casa."
Ele estreitou os olhos ligeiramente.
"Mas não parecia bem. Os números eram altos demais."
Nicolas assentiu lentamente, ouvindo sem interromper.
"Um dia, decidimos seguir uma das meninas. Uma criança silenciosa chamada Mira. Ela foi adotada por um casal. Parecia uma família normal, feliz. Nada fora do comum."
Noel fez uma pausa.
"E então… Noir reagiu."
Como se estivesse ensaiando, uma sombra suave se espalhou sob a cadeira dele. De lá, Noir surgiu silenciosamente, assumindo seu pequeno formato de cachorrinha e pulando na borda da mesa, com o pelo levemente violetado refletindo a luz do sol.
Nicolas levantou uma sobrancelha, embora seu tom permanecesse neutro.
"Então, ela finalmente mostrou a ela."
"Você sabia que ela tava lá?" perguntou Noel.
" acha que alguém como eu não consegue detectar uma criatura escondida na sua sombra? Por favor."
Noel sorriu de relance. "Justo."
Ele descansou uma mão suavemente na cabeça de Noir.
"Graças a ela, fiquei para trás e observei de longe. No começo, tudo parecia normal. Os pais deram à Mira uma bebida—provavelmente um entorpecente. Ela desmaiou pouco depois."
Ele olhou para Nicolas.
"E aí o velho padre apareceu. Levou ela mesmo."
"Eles não a levaram pela estrada principal," disse Noel, com tom firme. "Ao contrário, seguiram pelo lado oeste da capital sagrada, além das muralhas externas."
Ele se inclinou um pouco para frente, os olhos estreitando conforme a memória se aguçava.
"Havia uma barreira ali—uma ilusão. Cobria uma área de ruínas antigas. Totalmente escondida por dentro. Você nunca a encontraria se estivesse procurando de fora… ou se algo como Noir não tivesse lhe guiado."
Noir soltou um suspiro silencioso do escritório, mantendo-se em silêncio.
"Segui-os por dentro disso. Foi assim que descobri o local."
Ele não entrou em todos os detalhes.
Mas o peso de suas palavras pairava na sala.
Nicolas ficou calado por um momento. Depois, com uma respiração lenta, recostou-se na cadeira.
"Entendi."
Noel não acrescentou mais nada. Sabia que o diretor já tinha recebido a maior parte da versão oficial.
Mas agora, ele tinha ouvido de alguém que viveu aquilo. De alguém que viu a podridão de perto.