O Extra é um Gênio!?

Capítulo 100

O Extra é um Gênio!?

O frio começava a diminuir.

Traços finos de neve derretida marcavam as bordas dos caminhos de pedra, desaparecendo sob o pálido sol da manhã. O inverno quase tinha acabado, e com ele vinha a lenta chegada da primavera—e também do seu aniversário. Mas isso não era o que pesava na cabeça de Noel.

Ele caminhava sozinho, com as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo, o olhar fixo na direção do enorme salão de conferências no centro do campus. Era ali que aconteceria a prova. Exame teórico final. Seu ponto fraco.

'Se eu vacilar, meu lugar na Classe S vai embora.'

E não era só questão de prestígio. A Classe S significava acesso—melhor equipamento, salas de treino privadas, orientação direta e o direito de se movimentar livremente além dos limites da academia.

'Sem isso, tudo fica mais difícil, e já é difícil o suficiente.'

Ao se aproximar da entrada, avistou uma figura familiar contornando a esquina à frente: Seraphina. Seu longo manto branco flutuava atrás dela, elegante como sempre, chamando atenção dos estudantes próximos.

Ele acelerou o passo.

"Ei, princesa."

Ela parou e virou-se para encará-lo, sobrancelha levantada.

"Por que você insiste em me chamar de princesa? Me chama de Seraphina. É assim que meus amigos todos me chamam."

Noel hesitou por meio segundo.

"...Pois é."

Ela inclinou um pouco a cabeça, esperando.

"Estava me perguntando... será que o conselho pode ajudar na prova teórica? Nem que seja um pouco?"

"Não."

"...Ah. Entendi. Então, valeu. Até mais."

Ela lhe deu um breve aceno de cabeça e foi embora sem dizer mais nada. Noel ficou ali um instante a mais, assistindo-a desaparecer na multidão.

'Acho que foi burrice perguntar. Mas valeu a tentativa.'

Entrou no prédio, o calor lá dentro envolveu-o ao fechar-se a porta. A batalha final tinha começado.

Noel ficou perto da entrada do salão de exames, com os braços cruzados, tentando recuperar cada linha do livro de teoria de magia que se forçara a ler na noite anterior. Nada grudava em sua cabeça.

Roberto surgiu ao seu lado, cantarolando alguma melodia besta, completamente tranquilo.

"Ei, Roberto. Como você tá se saindo?"

Roberto sorriu de canto. "Ótimo, ótimo. Mas pelo seu rosto... acho que não tô indo tão bem, né?"

Noel suspirou. "Nem perto. Acho que meu tempo na Classe S já deu o que tinha que dar."

"Sério? Ah, não acho que seja isso. Você sabe que mudaram a parte prática, né?"

Noel virou lentamente a cabeça. "Mudaram como?"

Roberto piscou. "Espera, você não leu o anúncio?"

"...Não?"

Ele riu. "Clássico. Agora só tem uma prova prática, não três. E ainda vai rolar um ranking geral para todo mundo."

Noel levantou uma sobrancelha. "Isso é novidade."

"E estão expandindo a Classe S. Antes eram vinte alunos, agora vai pra quarenta. Isso quer dizer que vinte novas vagas vão abrir."

Noel ficou em silêncio, processando a informação.

'Faz sentido. Como o incidente de Lereus nunca aconteceu na história, graças a mim, eles devem estar ajustando o sistema para preparar alunos mais promissores. Se uma guerra acontecer de novo, precisarão de toda força possível.'

Roberto deu um tapinha de leve no seu ombro. "Se você vacilar na parte escrita, ainda dá pra se recuperar na prática. É só impressionar."

Noel sorriu discretamente. "Finalmente. Alguma coisa útil saiu da sua boca."

O salão de conferências estava silencioso, do tipo que faz até o som da tinta no papel parecer alto. Fileiras e mais fileiras de estudantes sentados em longas mesas, com cabeças inclinadas, canetas riscando nervosamente. As luzes embutidas acima brilhavam de forma fraca, fria e clínica.

Noel se posicionou perto do centro, com as costas retas, olhos fixos na folha à sua frente.

O título no topo dizia: Controle Avançado de Mana – Prova Escrita

Sua pena pairava no ar.

'Droga. Não sei nada disso.'

Ele revisou as perguntas novamente. A primeira perguntava sobre a proporção de resistência ao fluxo entre mana bruta e canalizada. A segunda exigia que ele diagramasse um ciclo de circulação interna intermediária. A terceira—

Ele suspirou e baixou a cabeça um pouco.

'Controle de mana, hein? Ironia, considerando que fui o primeiro nessas matérias na parte prática.'

Olhou ao redor. A maioria dos estudantes já escrevia. Alguns estavam na metade. Clara tinha a pena em ritmo acelerado. Garron parecia tentando traduzir o papel com os punhos fechados. Roberto parecia sossegado. Como sempre, claro.

Passos ressoaram.

Professor Daemar caminhava lentamente entre as filas, com as mãos nas costas, olhos violeta afiados e precisos. Parou por um instante, então seguiu até chegar a Noel.

Ele parou, olhando para baixo.

A página de Noel estava quase vazia.

Caneta do professor franzia um pouco as sobrancelhas.

'Esse garoto... não estudou? Não, impossível. Veio me procurar na última vez. Tenho certeza que se esforçou também desta vez.'

O professor não falou. Virou-se e avançou até a mesa à frente da de Noel, inclinando-se um pouco para explicar uma questão a um estudante.

Enquanto fazia isso, suas mãos—agora atrás das costas—mudaram de posição bem sutilmente.

Entre seus dedos apareceu uma segunda folha. Pequena. Dobrada. Mas inconfundivelmente preenchida com respostas.

Os olhos de Noel travaram nela instantaneamente.

'Velho malandro.'

Ele inclinou a cabeça, memorizando o conteúdo linha por linha na velocidade que seus olhos conseguiam acompanhar.

'Obrigado, Professor Daemar. Te devo uma. Prometo que vou te pagar quando puder.'

E, assim, sua pena começou a se mover...

Quando eles saíram do salão, o sol já tinha subido mais alto. A brisa lá fora era suave, carregando aroma de terra descongelada e os primeiros sinais de primavera.

Já tinha formado um grupo perto da entrada: Marcus, Clara, Roberto, Laziel, Garron—e Sophie, que encostada confortavelmente ao lado de Garron.

Noel saiu por último, com o rosto inescrutável.

Marcus levantou a mão. "E aí, foi bem?"

Clara foi a primeira a responder, com os braços cruzados bem apertados. "Péssimo, acho. Só vou esperar o resultado e torcer pra ter passado."

Noel olhou de relance para ela pelo canto do olho.

'Ela é dessas. Diz que foi mal, mas consegue uma nota nove ou dez. Odeio isso.'

Roberto esticou os braços atrás da cabeça. "A segunda folha foi com certeza mais difícil. Ainda mais as duas últimas perguntas."

Noel parou de andar.

'Segunda folha? Que segunda folha?'

Virou lentamente para Roberto. O rosto dele ficou pálido.

'Tinha uma segunda folha?'

Roberto piscou. "Ei, tá tudo bem? Você parece que viu um fantasma."

A voz de Noel foi plana. "Perfeitamente bem. Vamos lá, terminar as outras provas."

Ele continuou caminhando.

'Ótimo. Bilhei metade das respostas de uma prova que nem terminei direito. Agora estou mesmo fudido.'

O restante do dia passou num borrão.

Mais quatro provas, uma após a outra. Teoria dos encantamentos. História mágica. Teoria de feitiços defensivos. Ética do poder. Cada uma drenava sua energia, consumindo a pouca concentração que ainda tinha. Na última prova, ele só preenchia o que podia e seguia em frente.

Quando a ligação final tocou, Noel não esperou. Saiu do salão sem dizer uma palavra e foi direto para o dormitório, ignorando os grupos que se formavam ao redor, as conversas, as risadas, até os gemidos de desespero compartilhado.

O quarto estava quieto quando chegou. Fechou a porta, jogou o sobretudo na cadeira e mergulhou de bruços na cama.

Noir, enrolado no travesseiro, piscou preguiçosamente antes de bocejar e descansar novamente a cabeça.

'Amanhã é a parte prática. Só mais um dia.'

Deitou ali, imóvel, olhando para o teto.

'Mais uma pressão. E acaba logo.'

Noir deu uma leve se chiar contra o braço de Noel.

Ele fechou os olhos.

'Por favor... que a parte prática seja melhor do que isso.'

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