
Capítulo 87
O Extra é um Gênio!?
O céu sobre Valor estava nublado, e o vento carregava uma pontada que indicava a chegada de neve.
Noel caminhava pelos corredores da academia como se nada tivesse mudado. Nenhum sinal da noite anterior persistia em seus olhos, nenhuma tensão em seus ombros. Apenas mais um dia normal.
Ele bateu duas vezes na porta do escritório de Lereus.
"Entre", veio a voz familiar, suave.
Noel entrou.
Como sempre, o escritório estava impecavelmente organizado. Livros dispostos em fileiras perfeitas. Pergaminhos alinhados por cor. Incenso queimando suavemente no canto.
Lereus estava perto da escrivaninha, arrumando algo em uma bandeja de madeira. Sua aparência, como de costume, era impecável.
Cabelo penteado de forma cuidadosa. Manto perfeitamente passado. Nenhum brasão visível na roupa. E aqueles olhos—azuis glaciais, calmos, precisos. Observando tudo.
"Ah, Noel. Boa hora", disse Lereus sem se virar. "Trouxe café hoje. Achei que poderia gostar."
Noel manteve a expressão neutra, apenas assentindo levemente. "Adoraria uma xícara."
Lereus apontou para uma chaleira de prata fumegante e despejou duas xícaras com elegância treinada.
Noel pegou sua xícara sem hesitar, mas sua outra mão moveu-se discretamente para dentro de seu manto. Do bolso interno, ele puxou uma pequena ampola verde—apenas algumas gotas permaneciam lá dentro.
Ele destampou com o polegar e acrescentou lentamente um pouco ao líquido escuro.
Lereus inclinou a cabeça.
"O que é isso?"
"Um suco que comprei outro dia. Combinou estranho, mas funciona surpreendentemente bem com café", respondeu Noel casualmente, girando a xícara uma vez antes de tomar um gole.
Lereus soltou uma risada suave e sentou-se do outro lado da mesa. "Vocês estudantes e seus hábitos estranhos."
Noel deu outro gole, com os olhos calmos, postura relaxada.
'Sorria aí, seu idiota. Hehehe.'
As horas passaram ao ritmo silencioso da rotina.
Noel movia-se como um relógio—organizando pergaminhos, alinhando diagramas escritos, empilhando papéis secos por categoria elementar. Na superfície, era só mais um dia comum. Sua postura permanecia casual, sua voz tranquila ao falar, sem jamais revelar a tensão que borbulhava por baixo.
Em determinado momento, Lereus despejou-se uma xícara de café fresco e recostou-se um pouco na cadeira, observando Noel por mais tempo do que o habitual.
"Você gosta do café?" perguntou, com uma voz leve, quase agradável.
Noel virou-se, com a xícara na mão, e assentiu. "Sim. Está delicioso, professor. Onde comprou?"
"De um pequeno vendedor perto do mercado do sul", respondeu Lereus, com tom suave e despreocupado. "Ele torra tudo no local. Sem encantamentos sofisticados. Só fogo e sincronismo."
"À moda antiga", disse Noel, com um sorriso discreto. "Gostei disso."
Lereus concordou, bebendo lentamente.
E então, o silêncio voltou a se estabelecer.
Mas Noel podia sentir—algo estava errado.
Começou como um calor sutil no peito dele, não do líquido, mas de algum lugar mais profundo. Seu batimento acelerou lentamente, tornando-se pesado. Cada respiração parecia um pouco desviada, como se o ar não estivesse alimentando seus pulmões como deveria.
Depois veio a pressão. Uma sensação de rastejar em seu sangue. Não aguda—não. Era paciente. Espalhando-se.
Seus dedos se apertaram levemente sobre um feixe de pergaminhos.
'Ok... agora o sangue dele está dentro de mim. Droga, que nojento.'
O sangue de Lereus fluía agora por suas veias. Noel podia sentir isso.
Não doendo. Não em fogo.
Na pressão. No peso.
No que não é certo.
Lereus passou por ele, calmo e sereno, ajustando uma estante como se nada estivesse fora do lugar no mundo.
Noel viu seu próprio reflexo na janela—postura firme, rosto indecifrável.
Ele não disse nada.
Nem Lereus.
"A cada segundo que estou perto dele, isso se espalha."
O último sino soou. Estudantes saíram correndo das salas, risadas e conversas mornas enchendo os corredores da academia.
Noel voltou ao seu dormitório rapidamente, pegou apenas seu manto—o mesmo de ontem à noite. Puxou o capuz sobre a cabeça enquanto entrava no pátio.
Foi então que tudo começou.
No começo, achou que fosse cansaço. Uma estranha fraqueza nos membros. Mas, em segundos, ficou claro.
Seus pernas se moveram.
Não sob seu comando.
Um passo. Depois outro. E mais rápido.
O arretou. Sua respiração ficou presa. Tentou parar, resistir, fincar os calcanhares.
Não conseguiu.
Seu corpo empurrou-se para frente, como um fantoche seguindo fios invisíveis. Sua mão até ajustou o manto para cobrir melhor o rosto—não era ele quem fazia isso.
'Ok... isso é ruim.'
Ele atravessou a porta do portão externo, com o coração acelerado. Os guardas nem tentaram pará-lo—nem sequer olharam duas vezes.
Claro que não.
Ele era apenas um estudante indo embora. Mais uma caminhada à noite.
Mas ele não estava caminhando.
Estava sendo levado.
Por ruas secundárias. Passou pela última fila de barracas. Entrou na periferia das favelas.
E lá—esperando exatamente onde tinha estado na noite anterior—estava Lereus.
Cabelos perfeitos. Manto impecável. Mãos cruzadas atrás das costas. E aquele sorriso constante ali, como uma máscara esculpida.
"Ah, meu querido assistente", disse, com voz carregada de zombaria. "Que surpresa agradável."
Noel ficou em silêncio. Seu corpo desacelerou, parando alguns passos atrás.
Lereus inclinou ligeiramente a cabeça, os olhos brilhando.
"Acho que descobri quem era aquela pequena barata."
Ele deu um passo à frente, sombras grudadas aos pés como se fossem névoa.
"Vamos aproveitar algumas atividades pós-escola, que acha?"
A cabana parecia exatamente como na noite anterior—madeira apodrecida, tábuas tortas presas com pregos nas janelas, o brilho tênue de lanternas encantadas vazando pelas frestas.
Lereus não bateu. Simplesmente fez um gesto com a mão, e a porta rangeu lentamente, com um gemido pesado.
Noel entrou, seus movimentos ainda guiados por aquela força invisível.
De imediato, o cheiro desagradável tomou conta—sangue, suor e madeira apodrecida. Estava pior do que antes. O ar era pesado, úmido com a decomposição e alguma outra coisa subterrânea.
E lá estavam eles.
Sete estudantes, agora.
Todos conscientes—mas mal.
Prendidos por correntes ao longo da parede distante, com as cabeças caídas para frente, olhos vazios ou inchados. Sangue manchando as roupas. Algemas de mana de contenção nos pulsos. A garota elfa—amiga de Elena—ainda ali, pendurada no mesmo lugar de ontem à noite.
Vivos.
Por pouco.
'Então era isso que ele queria dizer. Um por noite.'
Lereus entrou atrás dele, caminhando casualmente, com as mãos nas costas como um nobre exibindo sua galeria privada.
"Sabia que," começou, com voz sempre amável, "você é bastante interessante."
Virou-se, encarando Noel diretamente.
"Você também estava na minha lista. Por pouco. Apenas um nome. Apenas um extra."
Sorriu, dentes brancos e afiados demais.
"Mas você é mais do que isso agora. Não é?"
Ele se inclinou um pouco, como se compartilhasse um segredo.
"Você é inteligente. Esconde bem. E não grita como os outros."
Ele soltou uma risada baixa, divertida.
"Gosto mais de você do que do Laziel. Acho que logo vou pendurá-lo junto com os outros, lado a lado com seus amiguinhos. Hahahaha."
Lereus passou devagar pelo cômodo, os passos ecoando suavemente nas tábuas tortas. Passou por cada estudante acorrentado, examinando seus rostos como um açougueiro inspeccionando carnes.
Parou na frente da garota elfa.
Ela tremeu fracamente. Sangue seco grudado em seus pulsos e pescoço. Nem levantou a cabeça.
Lereus segurou o queixo dela com um dedo, levantando seu rosto delicadamente.
"Hmm... não, duas noites seguidas," murmurou.
Deixou-a cair e seguiu em frente.
Depois parou.
Na frente de um garoto humano—jovem, de cabelo castanho, sem ferimentos visíveis ainda. Olhos bem abertos, foco disperso, lábios tremendo de medo silencioso.
"Este aqui," disse Lereus, com tom leve e casual. "Sim. Acho que hoje... vamos com você."
Ele estendeu uma garra e passou a ponta pelo rosto do garoto.
O estudante gemeu, mas não conseguiu se mover.
Lereus sorriu.
"Tão mais fresco quando sabem o que vem."
Noel permaneceu imóvel, o coração batendo forte por baixo da pele.
'Parece que finalmente está chegando… exatamente na hora.'
A pressão que controlava seu corpo afrouxou—apenas um pouco, mas o suficiente.
Ele exalou lentamente, o som se perdendo sob o ranger da madeira e o zumbido amuse de Lereus.
Pegou a garra vermelha do bolso das calças, dedos fechando-se ao redor dela—quente, espessa, um pouco pegajosa ao toque. O líquido lá dentro mexia-se lentamente, como xarope infundido com algo mais escuro.
Devagar, puxou-a para fora, mantendo-a escondida sob a borda do manto.
Lereus tinha as costas voltadas, brincando com o medo do garoto humano.
Noel destrancou a tampa com o polegar.
O cheiro atingiu-o como ferro e cinza.
Ele não hesitou.
Beber.
O líquido queimou sua garganta como ácido misturado a relâmpagos. Seus pulmões se apertaram. Seu coração parou—e então voltou a bater com um estrondo ensurdecedor.
O mundo virou.
O ar ondulou.
E então veio a voz.
[Presas do Espírito—Habilidade Ativada]
Aumenta a clareza sob pressão de vida ou morte.
Evoca-se sob estresse extremo.
A visão de Noel se aguçou—as bordas ficaram mais nítidas, as sombras mais definidas. O tempo desacelerou, um pequeno instante.
Seus músculos reagiram instantaneamente ao seu comando.
'Tenho no máximo dois minutos.'
A garra tocou sua língua como metal derretido.
Noel permaneceu firme.
A queima espalhou-se instantaneamente—pela garganta, pelo peito, pelos membros—como fogo rastejando sob a pele. Sua visão pulsou, ficou mais nítida, fechou-se.
Todo som ficou mais forte.
Cada batida do coração—mais clara.
Lereus ainda falava, de costas.
Noel se moveu.
Presas do Espírito deslizaram para sua mão com um movimento suave, a lâmina como uma extensão de sua vontade.
Ele avançou, o manto ondulando atrás de si.
Sem hesitar.
Sem aviso.
Apenas precisão.
Apenas propósito.
A distância entre eles sumiu.
Ele levantou a lâmina—com a orientação para o pescoço, limpa, silenciosa, mortal.
Um golpe.
Tudo ou nada.
A ponta das Presas do Espírito parou—
A apenas centímetros da garganta de Lereus.