Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 344

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

O lugar era extremamente quente. Mas não só isso, era extremamente frio também, com trevas oscilantes que insistiam em permanecer, mesmo na presença das chamas brancas.

Acima, o Sol e a Lua estavam pendurados, mas era possível perceber rachaduras e fissuras em ambos. Ainda assim, para o Sol dourado, as rachaduras brilhavam com fogo branco, lentamente se reparando.

A Lua, no entanto, não teve a mesma sorte.

Naquele espaço escondido entre o mundo acordado e um lugar muito distante do qual nenhum mortal deveria avistar — por mais forte que fosse — a Imperatriz do Sol permanecia ereta e firme, seus vestes dourados rasgadas em vários pontos, com gelo e trevas envolvendo seu corpo, desesperados para não soltá-la.

A exaustão dançava em seus olhos, mas ela mordeu o interior da boca e, mais uma vez, conjurou o poder da Fênix Branca, fazendo a criatura mítica franzir o rosto em protesto. Ainda assim, ela agiu, cobrindo o corpo de sua mestre, cicatrizando todas as feridas como se elas nunca tivessem acontecido.

Porém, sua exaustão parecia aumentar.

Abaixo dela, aos seus pés descalços, jazia Sirius Nascido da Lua, espalhado pelo chão com queimaduras grotescas, o peito vazio de um coração pulsante, sangrando furiosamente.

Suas pupilas de lua azul estavam opacas, os lábios secos e rachados, como se toda a essência dentro dele tivesse sido queimada. Sua vida logo seguiria o mesmo destino.

O deus da morte sussurrava para ele, pensou, antes de abandonar essa hipótese. O deus da morte já não existia. Sua linhagem havia se despedaçado em fragmentos.

Algo que riria, pois mesmo aquele que tinha uma concepção de morte perfeita ainda assim morreu.

Quem era ele, então, para resistir à atração da morte? Riu, então tosseu sangue dourado profundo, idêntico ao de Asterion, mostrando o quão ligados eles estavam.

'Use-me, mestre!' Uma voz forte e desesperada ecoou pela mente exausta de Sirius,

'Podemos vencer se aceitar minha ajuda! Ainda há tempo! Engula-me, entregarei meu poder a você!'

A voz era angustiante aos ouvidos, pesada e carregada de um poder estranho. Mas não era a voz de um deus, e sim de uma criatura especial e única que ele havia encontrado numa terra proibida, marcada por um deus. Ou talvez não um deus, mas um monstro profundo e aterrorizante que não deveria existir.

Ele tomou essa besta e a alimentou.

Era um parasita. Um com um poder assustador. E ainda assim…

'Não eu.' Sirius sussurrou, sorrindo para Shamsi, que o observava com olhos gelados, incompatíveis com um Sol, 'Já vivi o suficiente, Rab. A próxima geração, amigo. A próxima geração te dará a honra que merece. Um hospedeiro digno. Mas não eu.'

'Mestre—!'

"Você quis assim." A criatura — Rab — teve sua voz cortada pelo tom frio de Shamsi.

Os lábios de Sirius se curvaram numa expressão fina, os lábios se rachando e sangrando, sentindo seu corpo, sem coração, lentamente se tornando frio. Não um frio gélido de gelo, mas o frio imparcial da morte.

"O-Que quis dizer?" ele repetiu, ainda sorrindo, decidindo encarar o fim com um sorriso estampado no rosto.

Os olhos da Imperatriz do Sol ficavam cada vez mais frios, mas também ardentes, ao lembrar da batalha que acabara de travar. Durante toda a luta com Sirius, ela percebeu algo anormal.

Sirius não usara sequer uma vez seu conceito. Apenas utilizara seu aspecto, e mesmo assim, isso mal tinha efeito contra ela em seu máximo poder.

E agora ele sorria, seu coração queimado em cinzas pelo fogo dela, mostrando claramente que, desde o início… ele nunca planejava sair vivo dessa batalha.

Mas…

"Por quê?" ela bufou, frustração e raiva queimando dentro de si como lava derretida.

"Por que escolher a morte? E por que me usou nisso, Sirius?"

Naquele momento, os olhos de Sirius turvaram, o mundo ao seu redor dissolvendo-se lentamente em névoa. Ele já não tinha força para abrir a boca, muito menos forçar palavras através dela, mas, de alguma forma, conseguiu, e proferiu suas últimas palavras, com o rosto se abrindo num sorriso feliz,

"P-Por que estou escolhendo a morte?" ele repetiu a pergunta dela, então, com uma risada baixa, acompanhada pelo grito de Rab ecoando na sua mente, cada vez mais distante,

"Por que eu deveria escolher viver?"

Ele disse, enfim, antes de dar seu último sopro, seus olhos perdendo a última centelha de vida.

Porém, sem que ninguém soubesse, às vésperas da morte, a ilusão do mundo acordado se desfez como um véu, permitindo que Sirius visse o mundo e tudo o que nele existia… a verdadeira essência do mundo.

E ali, ele viu alguém.

Um jovem, cabelo dourado, pupilas em forma de lua, e na orelha esquerda um brinco na forma de lua.

Seus olhos eram sempre divertidos, preenchidos com arrogância sem limites, mas também uma fome profunda e indescritível por força e pelo destino que lhe era devido.

Sirius sorriu mais profundamente, então,

'Rab… é ele… é meu—!'

Sua alma foi arrancada pela Árvore.

Ele morreu oficialmente.

Enquanto isso, Shamsi ficou em silêncio por um tempo, sua mente revivendo repetidamente as últimas palavras de Sirius.

Seus punhos estavam cerrados com força, as knuckles enegrecendo com faíscas de fogo. Então, ela rangeu os dentes até que se ouvisse um ranger.

Ela levantou a mão e estalou os dedos alto, fazendo surgir uma maré de fogo que se espalhou por todo o corpo de Sirius, transformando-o em cinzas.

Ela observou as cinzas douradas, então levantou a cabeça para ver a Lua se partindo em bilhões de pedaços fragmentados, acompanhada por um lamento triste.

Instantaneamente, Shamsi pareceu ouvir uma voz irritada reverberando dentro de sua cabeça. A voz de um deus, do seu deus. A Celeste.

Ela o ignorou, sabendo bem que sua influência naquele momento era demasiado fraca para que Ele a punisse.

Em vez disso, virou a cabeça para fora da realidade oculta, seu olhar atravessando quilômetros até se fixar na Cidade Prateada, com os olhos apoiados em Aurora e Kaden.

Ela as observou intensamente, então, lentamente, seu corpo e seu coração começaram a pulsar com fogo branco, seus olhos agora girando em círculos de chamas douradas-brancas que rodopiavam.

"Por que escolher viver?" ela repetiu as palavras de Sirius com desdém, sua voz como um trovão, "Porque há algo pelo qual vale a pena lutar. Porque você não é um covarde que foge das dificuldades."

Pausa, então, ela completou,

"E eu tenho alguém para proteger. Um império para reconstruir das cinzas. Eu não posso morrer."

Com essas palavras, a realidade se consumiu em cinzas enquanto Shamsi Appolonia Asterion, a Imperatriz do Sol, deu um passo flamejante que quebrou a distância e apareceu bem acima da Cidade Prateada.

A cidade inteira derreteu instantaneamente só com sua presença, sobrando apenas Kaden e Aurora, quase ilesos.

Seus olhos dourados e brancos repousaram nos olhos escarlates estrelados de Kaden e Aurora.

A dupla suava frio.

"Aurora…" Kaden comentou, com raiva de si mesmo por ter enfrentado aquela fera de fogo por causa de uma mulher.

Aurora sorriu com esforço, "Sim… eu sei."

Juntos, ficaram ali, seus corpos cobertos por suas próprias intenções, ajudando-se a suportar o fogo de Shamsi.

A própria chama de Kaden, que ardia dentro do seu coração, estava inquieta, ansiosa e faminta pelo fogo que a Imperatriz do Sol emitia.

Ele compreendia por quê.

Porém, a Imperatriz do Sol certamente não conseguia compreender a sensação que recebia da Fênix.

'Eu? Não… metade de mim. Mas como?' uma voz feminina forte sussurrou dentro de sua mente, olhando para o coração de Kaden, que via a chama.

Como ele poderia ter uma parte do fogo dela, sendo ela inteiramente? A Fênix Branca se perguntou. Mas, naquela reflexão, algo piscou em sua mente antiga.

Uma possibilidade. Algo raro, mas bem possível. E ela permaneceu em silêncio, decidida a observar.

Enquanto isso, Shamsi não pensava nisso. Porque, ao atravessar para fora daquela realidade oculta, ela sentiu algo.

Ela sentiu a morte. A morte de seu filho Solaris e também a morte de seu marido gigoló.

Ela ficou ali, olhando fixamente para as duas criaturas abaixo, percebendo, de forma vazia, que não sentia nada.

Ela não sentia nada com a morte do próprio sangue, como um humano não sentiria com a morte de um porco. Pelo contrário, ela se alegrou ao vê-los mortos, especialmente seu marido.

Ela só lamentou não ter sido ela quem o matou.

Naquele momento, ela não pôde deixar de pensar se todas as suas emoções haviam sido reduzidas a cinzas pelo fogo dela. Mas isso não era verdade, pois ela ainda sentia amor pelo filho escondido. E ainda amava o pai dessa criança.

…e ainda amava sua irmã gêmea.

Essa compreensão fez seu fogo queimar mais forte, e seu foco se aguçar ainda mais, pois tinha um império para reconstruir e passar ao seu filho.

E seus entes queridos para reunir.

Ela olhou para Aurora. "Vejo que você foi libertada," começou, "Você se renderia se eu dissesse que quem foi responsável pelo seu estado atual está morto?"

Ao ouvir suas palavras, Aurora deu um sorriso tênue,

"Seria uma boa notícia, um alívio para os ouvidos," ela disse, ficando mais perto de Kaden, "Mas vou recusar essa oferta."

Shamsi a encarou profundamente, e Aurora sentiu seu corpo esquentar ainda mais.

"Você causou tantos danos a este império, e ainda assim não está satisfeita, Aurora da Casa Estelofundida?" Shamsi bradou.

"Sou Grande-Mestre," Aurora rosnou, "mas tenho apenas dois anos de vida, apesar de ser jovem. Você acha que vou ficar satisfeita só com isso? Sem falar na morte dos meus pais, pelo mesmo motivo pelo qual estou morrendo agora. Por sua culpa, por sua ganância, por não nos ver como mais do que ferramentas para seus desejos retorcidos."

Seus olhos estrelados ficaram gélidos, "Então não, querida tia, não me renderei. E este império precisará de outro governante. Um que nós escolheremos!"

Ao seu lado, Kaden observou quieto a Imperatriz do Sol, exatamente a tempo de testemunhar fogo pálido surgindo por todo o corpo dela.

Shamsi não disse mais nada, pois não era de muitas palavras. Ela tinha dado uma chance. Ela a recusou.

Agora…

"Deixe-me então enviá-la para seus pais." Ela falou sem emoção.

Kaden sorriu levemente, sua própria chama vermelho-dourada envolvendo-o completamente,

"Tenho que discordar dessa vez, Imperatriz." Ele tomou sua posição, "Não posso permitir que minhas palavras falhem, entende? Espero que compreenda."

Shamsi lançou um olhar ardente para ele,

"Quem é você?" ela exigiu, e novamente o Sol apareceu acima dela, perigosamente perto do chão, flamejante como uma labareda celestial feita para pecadores.

Lá, Kaden sorriu para esconder seu medo e apreensão, Aurora ao seu lado envolta por seu próprio poder estrelado.

"Eu?" finalmente Kaden falou. Nesse instante, sua mente voltou a pensar na família que ainda aguardava por ele.

Um sorriso insano se espalhou pelo seu rosto, agora oculto pela sua chama.

"Prometeus, Imperatriz. Sou Prometeus. E vim tirar essa sua chama."

A batalha final havia começado.

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