
Capítulo 338
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
A Cidade foi completamente destruída.
Se fosse possível vê-la de cima, tudo o que se veria seriam nuvens de fumaça que davam a misericórdia de poupar seus olhos da visão aterradora escondida atrás daquela densa neblina cinza e vermelha.
A Cidade Prateada agora era apenas destroços e rochas quebradas, somados ao sangue dos caídos, servindo como a tinta para a pintura do cenário. O cheiro era forte, impregnado com o aroma de ferro, mas também de desespero e ódio.
Dentro e ao redor dela, debaixo de rochas ou ao lado dos corpos de mortos, ou até mesmo de criaturas errantes… podia-se ouvir os lamentos dos feridos e a agonia dos que ainda estavam vivos.
No alto do céu, Lorde Prateado flutuava, embora pudesse-se perceber que ele cambaleava ocasionalmente, tendo dificuldades para manter-se firme. Suas asas prateadas estavam rasgadas e ensanguentadas, com a carne visível por baixo.
Suas roupas estavam rasgadas em múltiplos lugares, revelando um corpo marcado por cicatrizes de espada, e partes de sua pele estavam cinzentas e enegrecidas, exibindo sinais de corrupção.
Seu rosto ainda jorrava sangue vermelho escuro, seus olhos pesados, querendo se fechar de exaustão, mais profunda que a física. Ainda assim, Prateado não fechou os olhos, seu olhar era frio.
Na sua mão direita, estava sua rapieira, que agora tinha apenas a empunhadura, o restante da espada parecia ter sido consumido pelo queixo de uma besta insana.
Mas não era uma besta.
Era Devastada.
'Este era o objetivo deles.' pensou Lorde Prateado consigo mesmo, apertando a mão ao redor da empunhadura da espada, finalmente entendendo por que tinha sido atacado.
Ele foi atacado somente para ser enfraquecido. Desde o começo, foi provocado a lutar contra eles, com as palavras daquela mulher sobre doundous[1].
Quanto à forma como eles souberam daquele segredo de seus ancestrais, isso era algo que ele gostaria de saber. Ainda assim, ele sabia. Aquela mulher… aquela de cabelos azuis, com olhos como constelações brilhantes…
'Uma intérprete de profecias.' Franziu a testa com desdém.
Ele nunca tinha encontrado uma vidente em seus quase mil anos de vida, então sabia o quão escassas eram, e isso o deixava incapaz de saber como lutar contra uma. Mas temia que, mesmo se soubesse, não mudaria nada.
Não há nada mais angustiante do que lutar contra alguém que pode ver o futuro.
Prateado rangeu os dentes com força — o rangido ressoando por toda parte — sentindo a ferida perto do coração que se recusava a cicatrizar, e sua visão piorar por causa daquela vidente.
Ele varreu seu olhar turvo ao redor de sua cidade e soube…
"Não podemos mais contribuir no jogo do trono pelo Lorde Sirius."
Ao pensar nisso, Prateado imediatamente se questionou… talvez fosse por isso que tinham atacado.
Talvez.
"Preciso alertar o Lorde Sirius."
…
Enquanto isso, bem longe de Prata City, no meio de uma floresta de árvores e rochas, dois duos corriam com velocidade vertiginosa, suas formas se tornando um borrão carmesim entre as árvores.
Era ninguém menos que Devastada e Vaela, voltando ao castelo de volta ao covil.
Devastada estava envolta em uma luz prateada condizente com o Senhor Prateado. Dentro da luz, havia um brilho de estrelas geladas, algo que ela aprendeu a usar graças à devoração de sua rapieira prateada.
Ela sorriu satisfeita.
"Contenta?" perguntou Vaela, sua voz dançando com uma nota de risada clara. Ela estava gravemente ferida, partes de seu manto carmesim totalmente rasgadas. Mesmo sua máscara estava quebrada de um lado, revelando seu rosto belo, com sangue escorrendo.
Devastada lançou um olhar rápido enquanto trocavam de direção em sua corrida, "Muito feliz," ela respondeu com um grunhido de reconhecimento, depois, "Por quê?" perguntou.
"Por quê o quê?" Vaela respondeu, desviando de uma árvore, pulando para escapar de uma rocha, e girando o corpo no ar para ir à esquerda e evitar outra árvore.
Seu corpo inteiro estava ferido, doendo bastante, e seus olhos estavam ainda mais embaçados, impossibilitando-a de ver qualquer coisa além de uma névoa turva, por mais que esforçasse os olhos. Ainda assim, Vaela sentia uma estranha sensação de paz, usando a percepção que recebia ao sussurro da luz das estrelas.
Ela não sabia como era possível. Mas sentia, bem no fundo, que algo estava despertando.
Algo que esteve dentro dela o tempo todo.
"Por que atacamos Prateado?" a voz de Devastada trouxe Vaela de volta à realidade.
Ela sorriu de leve ao perguntar, percebendo que ainda não tinha contado a ninguém por quê fez aquilo. Mesmo assim, todos seguiam suas ordens sem reclamar ou duvidar dela.
Será que eles acreditavam tanto na sua capacidade? Ou na julgamento de Kaden, que lhe dera as rédeas?
Ou ambos?
"Por quê, hein?" ela riu suavemente, "Tinha aquela questão dos doundous que eu tinha curioso. Não consegui ver muito deles, estavam bloqueados por algum poder, mas parecia algo bem importante."
"Mas minha principal razão para atacá-lo é simples..."
Ela sorriu de forma quase insana,
"Por algum motivo, que não faço ideia, eu os odeio. E, por algum motivo também, sei que minha querida os odeia também."
Ela deu de ombros,
"Então, eu ataquei."
Devastada ficou silenciosa. Ela lançou um olhar desconfiado para ela, depois virou o rosto para longe, "Louca demente."
Vaela riu.
…
Enquanto Prata City foi destruída, Cidade Verde ainda permanecia pacífica, e Kenan FireBorn já estava a caminho de casa, tendo recebido a resposta da Lady Green.
Seu rosto carregava uma expressão de confusão e perplexidade, embora Lady Green tivesse aceitado.
Mas essa não foi a razão que deixou a expressão de Kenan perdida e confusa. Não, sua surpresa vinha do motivo pelo qual Lady Green aceitou.
"De algum modo, sinto-me próxima de você, FireBorn," ela dissera, com seus olhos cor-de-rosa franzidos em forma de lua crescente, "uma proximidade que só senti com alguém que lutei."
Seu cabelo verde balançava de forma errática com seus gestos animados, "Mas você é jovem demais, não é? Ou talvez tenhamos lutado juntos numa de nossas vidas passadas? Você acredita nisso? Hahaha, não importa! Diga àquela menininha que ela agora tem meu apoio."
Lembrando do evento recente, Kenan balançou a cabeça levemente, "Cinzas…" sussurrou, tentando controlar suas emoções inquietas.
Não que estivesse completamente desinformado, pois ele também sentia-se de alguma forma próximo dela.
E isso não era a única coisa estranha acontecendo com ele nos últimos dias. Porque, ultimamente, só tinha sonhado com fogo negro.
Seu fogo era laranja, então por que estava sonhando com aquilo?
Quem havia usado fogo negro em sua família foi seu primeiro ancestral. O criador de sua linhagem,
"Estelle Prometheus FireBorn." Kenan murmurou o nome dela, e de repente levantou uma sobrancelha como se estivesse percebendo algo.
Agora que se lembrava, não era estranho?
Como Lady Green e os que a sucederam tinham o nome do meio Prometheus, essa tradição começou com um ancestral especial deles.
Um que teria sobrevivido e prosperado durante a Era das Trevas do Império Celestial.
Kenan franziu a testa.
"Prometheus?"
Por que…
Por que só agora fez essa conexão?
…
"Isso é uma piada?" Sirius perguntou, sentado no cadáver de Morningstar, congelado até a morte. Atrás dele, uma mulher envolta em trevas completas parecia fundida à própria escuridão, numa condição que poucos poderiam alcançar.
Ela era uma Elderling, e a responsável por matar Morningstar.
Nunca foi tolo ao lutar contra Morningstar sozinho. Não era que ele não pudesse vencer, mas a luta prolongaria demais, arriscando ser visto por entidades que não queria alertar.
Por isso, após iniciar a batalha, imediatamente usou essa membro da família Moonborn, dada por sua mãe, para matar Morningstar.
Mas agora que fez…
"Prata City foi destruída e Prata está gravemente ferida por alguns homens de roupa carmesim?" Sirius releu o relatório que acabara de receber, ainda chocado, "e na Cidade Verde aquela mulher aceitou ajudar minha irmã? E sem perguntar nada?"
Cada palavra sua vinha acompanhada de um rosnado feroz vindo do fundo do seu ser. No seu ouvido, seu brinco brilhava intensamente, mergulhando a sala numa atmosfera de idade do gelo.
Luna suspirou, seu hálito congelando-se em gelo no ar.
"Sim, meu senhor," ela disse, imune ao frio graças ao controle de Sirius, sentindo pena do amante.
A expressão de Sirius se aprofundou ainda mais.
Algo estava acontecendo. Ele não sabia por quê, mas podia sentir os diferentes sabores do mundo. Notou isso também em como seus sonhos recentes não eram mais ele e Luna aproveitando momentos, mas algum velho tentando lhe dizer algo.
Era estranho. Muito estranho.
Era como se o passado estivesse tentando alcançá-lo de alguma forma. E tudo isso estava ferrando seu plano de se tornar o Imperador.
Seu olhar se estreitou,
"As coisas estão ficando complicadas," ele sussurrou, "mas primeiro, traga-me a filha desse cafajeste."
"A Casa Morningstar infelizmente perdeu seu Patriarca, e, portanto, a herdeira assumirá a casa."
Seus olhos ficaram frios.
"Com minha marca de escravo nela."
…
Enquanto isso, Sora se encontrava novamente dormindo dentro de seu quarto real. Era algo que ela vinha fazendo com frequência ultimamente, e toda vez que acordava, sentia-se diferente.
Aquele dia, o sussurro era mais intenso e mais claro. Ela conseguia distinguir algumas palavras que dizia, e nem só havia palavras, mas imagens de uma… o quê… uma senhora idosa?
O que tinha com os dentes dela? Quebrados?
Uma maldição? Moeda de ouro? Quem?
Bonito? Cavaleiro?
Mas quem? Ka—!
Ela acordou.
Na mesma hora, dentro do castelo Asterion, em um reino escondido, Luminary enfrentava Mahina, uma tensão estranha se instaurava entre eles.
Eles estavam em um lugar estranho. Atrás de Mahina, havia uma cúpula azul e dourada que envolvia uma área vasta. Em condições normais, estar perto dessa cúpula já teria sido suficiente para qualquer um sentir a Loucura do Imperador Sol… mas naquele dia, nada disso aconteceu.
Sentiram nada, como se tudo tivesse sido engolido e desaparecido.
Mahina estava curiosa, sua mente ansiosa para ver o que acontecia, mas ela tinha decidido confiar no fragmento de estelaridade.
Porém, Luminary não pensava da mesma forma.
"Já fazem duas semanas," ele disse, seu olhar dourado girando fixo nos olhos em forma de lua de Mahina, "semanas em que miraculosamente não consegui encontrar Dain, mesmo com o sangue daquele jovem. E agora, que vim aqui, encontrei essa situação estranha no Manicômio."
Ele inclinou a cabeça, seu cabelo em chamas criando faíscas de fogo, "E você me impede de saber por quê?"
Mahina sorriu de leve, "Confie na sua esposa, Luminary."
"Confio em você," ele respondeu, "mas confiar não impede de controlar."
"Agora, faça sua parte e se afaste."
Mahina não se moveu.
Sabendo bem de seu marido e vendo seus olhos, ela sabia que naquele dia precisaria fazer mais do que apenas falar.
Ela sorriu com esforço, seu corpo lentamente envolvido por uma luz azul, "Faz tempo, não é?"
O ambiente foi instantaneamente mergulhado na escuridão, uma geada começou a se espalhar por todo lugar antes de, súbita e rapidamente, se lançar em direção a Mahina e se fundir profundamente em seu corpo.
Seu pele tornou-se branca e translúcida, seus olhos e cabelos da mesma cor pálida. Duas foices de gelo, com uma luz de sombras, surgiram em suas mãos.
Ela respirou fundo. E o mundo ficou preso no gelo.
Luminary observava silencioso, "Atacar seu próprio marido agora?"
"Você vai confiar em mim e recuar?" Cada uma de suas palavras era suficiente para congelar um grande mestre do interior para fora.
Com suas palavras, Luminary balançou a cabeça, "Receio que não posso. Você ficou longe demais por tempo demais, Mahina."
Mahina assumiu sua posição.
Luminary suspirou. Mahina atacou com suas duas foices, o som de espaço se rasgando antes de vidro sendo quebrado ecoou alto por todo o ambiente.
Luminary viu ataques vindo em sua direção. Ele os encarou com olhos planos e calmos e mais uma vez…
…suspirou.
Não era a brisa de vapor branco-prateada, mas seu olhar era dourado. E no momento em que tocou o ar ao seu redor, foi como se gás encontrasse fogo.
Tudo ficou ardente e dourado.