
Capítulo 54
O Mais Fraco da Academia Virou um Matador de Demônios Limitado
༺ Prólogo (4) ༻
No mundo da eternidade, existia um obelisco que governava o tempo. De vez em quando, um melro azul voava até o obelisco e rozava seu bico contra ele. Ele escavava até ficar só um grão de areia.
Quando o obelisco se desgastava aos poucos, após um tempo quase infinito, e finalmente perdia sua forma original, dizia-se que um segundo de eternidade tinha passado.
Essa era uma história mítica de ❰Cavaleira Mágica de Märchen❱, e o feitiço de aceleração do tempo, [Obelisco da Eternidade], foi uma magia derivada daquele mito.
O [Obelisco da Eternidade] era o desejo da mentora, Alice Carroll, e, se ativado no terraço do Salão Bartos, poderia encurtar o tempo necessário para a ressurreição do Deus Maligno.
O único requisito era usar o Relógio Fantasmal como catalisador, e eu me lembrei da história do jogo em que Alice enviava seus lacaios para encontrá-lo.
No entanto, aparentemente, o Julgamento de Geada tinha lhe dado o Relógio Fantasmal.
Como resultado, a ativação de Alice do [Obelisco da Eternidade] acelerou o tempo por tempo suficiente para ressuscitar o Deus Maligno.
Provavelmente, o Relógio Fantasmal estava sendo usado como catalisador no terraço do Salão Bartos.
'A solução para o julgamento é bem simples.'
A solução era simples: virar os ponteiros do Relógio Fantasmal para trás. Era como um cronômetro, mas com um toque, ele se revertia.
Então, no local onde o [Obelisco da Eternidade] fosse ativado, o tempo reverteria seu curso na proporção do tempo acelerado. Eu presenciaria a cena absurda do Deus Maligno ressuscitando e sendo lançado de volta ao abismo. Parecia que precisaria de óculos 3D e pipoca.
Porém, havia um efeito colateral: tudo dentro do alcance também seria revertido e retornaria no tempo. Claro que, neste mundo, eu não precisava me preocupar com as consequências.
'Então, meu plano é…'
Infiltrar-me na defesa de Alice.
Subir ao terraço do Salão Bartos e pressionar o botão no Relógio Fantasmal.
E impedir a destruição do mundo.
Este julgamento será resolvido rapidinho. É bem fácil, não é?
'O problema é que a Dorothy é a única que pode fazer isso acontecer…'
Eu caminhava pelos fundos da academia, longe da cerimônia de férias na praça. Precisava encontrar a Dorothy.
Talvez o julgamento tivesse sido projetado de forma que só pudesse ser resolvido com a ajuda da Dorothy. Não havia outro jeito de lidar com Alice.
'Mas por que não consegui vê-la num dia como hoje?'
Onde você está, Dorothy?
Pensei se ela estaria descansando para apreciar a paisagem ou dormindo porque era seu dia de folga.
Enquanto refletia, uma forte sensação de inquietação me invadiu.
'Que estranho.'
A dúvida que emergia me parou em pleno caminho.
A Dorothy era uma personagem que aceitava corajosamente que estava destinada a morrer. Por essa razão, ela estava disposta a arriscar sua vida para proteger os estudantes da academia.
'É estranho ela não ter aparecido, mesmo o Deus Maligno tendo sido ressuscitado.'
Não fazia sentido, mesmo que seu inimigo fosse o Deus Maligno. Dorothy era do tipo que enfrentaria o Deus Maligno mesmo que isso a custasse a vida. Ela via sua própria vida como algo descartável.
Até a explicação ridícula de que o Deus Maligno apareceu enquanto Dorothy dormia, para ela não poder impedir, também não fazia sentido. A percepção de mana da Dorothy era incomparável. Ela teria acordado com a magnitude do mana do Deus Maligno.
'Será que há alguma razão para Dorothy ainda não ter aparecido…?'
Primeiramente, era óbvio que Dorothy estava na ilha. Não havia como ela ter saído dos terrenos da academia.
Então… o que aconteceu realmente?
"Sênior Dorothy!!! Onde você está?!!!"
Eu esperava que Dorothy atendesse ao meu chamado se estivesse por perto.
Mas, por mais que chamasse, ela nunca aparecia. Talvez estivesse no dormitório dela.
Corri até o dormitório da academia e dirigi-me ao Salão Charles, o alojamento dos melhores estudantes.
Estava muito silencioso nos dormitórios do Departamento de Magia.
Os primeiros anos estavam em uma cerimônia de férias atrasada, e o restante dos estudantes já estavam no meio das férias.
Não poderia haver momento melhor para invadir o Salão Charles.
"Eden!"
[Kyuu-!]
Manas de cor avelã se congregaram no ar e tomaram a forma do pequeno golem familiar, Eden. Eu não sabia se esse cara era real ou falso, mas isso não importava agora.
Eu sabia onde era o quarto da Dorothy. Foi algo que aprendi jogando ❰Cavaleira Mágica de Märchen❱.
"Eden, crie uma escada para mim!"
[Kyuu!]
「Geração de Rochas (Elemento Pedra, ★1)」 「Geração de Gelo (Elemento Gelo, ★1)」
Eden criou uma escada de pedra rústica na parte externa do allegado da menina no Salão Charles.
Criei uma escada de gelo por cima dela. Meu [Eficiência Elemental] estava maior do que antes, deixando a escada mais sofisticada.
O quarto da Dorothy ficava no terceiro andar. Mesmo o terceiro andar era bem alto no Salão Charles, devido ao pé-direito alto de todos os pisos.
Não tinha tempo para sentir culpa por invadir o quarto dela. Corri pelo escadão rudimentar e depois subi na escada de gelo.
Um quarto no terceiro andar. Pela janela, vi por um instante o quarto da Dorothy.
Era cinza, sem nada além de mobília essencial e itens básicos. Parecia o tipo de espaço onde alguém muito quieto e sem graça moraria.
O quarto da Dorothy era sempre assim. A única coisa que ainda dava um toque de fofura era um ursinho de pelúcia preso dentro do guarda-roupa, com seu pelo desgrenhado espreitando enquanto esticava o braço.
No ❰Cavaleira Mágica de Märchen❱, os verdadeiros sentimentos da Dorothy nunca foram completamente revelados.
Porém, ficou claro que ela estava organizando coisas que poderiam fazê-la hesitar em jogar a própria vida fora.
Só descobri isso indiretamente, explorando o mapa e procurando vestígios dela.
'Ela não está aqui…'
De qualquer forma, Dorothy não estava no quarto. Desci rapidamente ao chão, cancelei o invocamento de Eden e comecei a correr novamente.
Procurei por todos os lugares onde ela poderia estar, mas nada.
No final, chegou o momento do apocalipse, e o Deus Maligno Nephid foi ressuscitado.
Esferas negras de fogo caíram ao chão.
E assim, o mundo chegou ao fim.
● ● ● ● ●
“Agora estamos realizando a cerimônia de férias de verão para os primeiros anos do Departamento de Magia.”
Encontrar Dorothy nos vastos terrenos da academia seria extremamente difícil.
Eu, por outro lado, tinha um limite de tempo. Assim que o frio cortante da Foice da Geada consumisse completamente meu corpo físico, eu morreria.
'O que devo fazer?’
O que eu precisava agora era de força-tarefa. Precisava de o maior número possível de pessoas para ajudar a encontrar a Dorothy.
No entanto, quando jogava ❰Cavaleira Mágica de Märchen❱, caminhos alternativos que desviavam das rotas pré-determinadas para resolver o julgamento geralmente eram uma armadilha.
Esse foi um dos motivos pelos quais Ian se sentiu sem esperança durante seu teste.
'Mas esse julgamento é diferente do que Ian enfrentou.'
Talvez uma das rotas para passar nesse teste fosse reunir um grupo de pessoas para procurar a Dorothy.
'Vou tentar essa abordagem.'
Indaferido, ergui o braço direito no ar e gritei:
“Kaya! Mateo! Luce! Amy! Venham comigo…!”
Momentos depois, engoli em seco.
Em um piscar de olhos, os rostos dos estudantes e do anfitrião da cerimônia de férias desapareceram.
Era como um fantasma de ovo; seus olhos, nariz e boca estavam completamente invisíveis. Restou uma espécie de marse pêssego.1- nota: Um fantasma de ovo é um espírito coreano que não tem membros nem traços faciais. Diz-se que quem vê um fantasma de ovo morre.
Todos fixaram seus olhares em mim. Sem se moverem, focavam apenas em mim.
“Droga…!”
Um calafrio percorreu minha espinha. Era uma visão estranha, como algo saído de um filme de horror.
Então.
Kiwooooooooh─!
As cabeças dos professores e estudantes foram partidas ao meio.
Pude ver um corte transversal de seus corpos vermelhos, repletos de dentes e línguas alongadas, erguidos como jiboias bem na minha frente.
Recuo cambaleando. Uma língua parecida com uma anaconda saiu de cada cabeça decepada.
Eu já estava correndo a toda velocidade quando ouvi a cadeira bater na minha perna, fazendo eu tombar para trás.
'Que droga! Não devia ter olhado…!’
Era exatamente como eu tinha visto em ❰Cavaleira Mágica de Märchen❱.
Quando eu encontrasse Kaya após a cerimônia de férias, seu rosto provavelmente teria se dividido ao meio bem na minha frente, se não tivéssemos tido a mesma conversa.
Não poderia imaginar quão desesperado eu estaria sem meu conhecimento de jogos. Sério… aquelas armadilhas eram até piores na vida real.
Droga dessas provas. Que ridículo. Esquece. Eu vou encontrá-la sozinho, então.
Como eu já havia dito, o terreno da academia era ridiculamente vasto, então era fundamental raciocinar rápido e identificar os locais específicos onde Dorothy poderia estar.
“Onde será que ela está…! Me diga!!”
Comecei a revisitar cada conversa e história que tinha tido com Dorothy até então, tentando recordar cada pequeno detalhe.
Conversas sem sentido, piadas inúteis, qualquer coisa servia. Só precisava de uma pista.
Onde ela pode estar agora? Onde fica esse lugar?
Onde você está?
Onde?
─ Presidente, o que você está fazendo?
─ □□□□□, □□□’□□ □□□□. □□□□’□ □□□ □□□□□□ □□ □□ □□□□□□ □□□ □□□□?
─ Sua expressão está até demais relaxada para isso.
─ □□’□ □□□□□□□ □’□ □□□□□□□ □□ □□□, □□□□□.
─ Nihihi, exatamente como minha fã deve ser!
● ● ● ●
─ Você gosta que eu seja assim?
─ □□□. □’□ □ □□□ □□□ □□ □□□□□, □□□□□, □□ □□ □□□□□.
─ Hmm, você gosta de mim, presidente?
● ● ●
─ Nihihihi…! Ah, que reação foi essa? A presidente é até fofa.
─ □□□□ □□□ □□□ □□□□□ □□□□ □□□□ □□ □□□□□?
─ As estrelas estão tão bonitas essa noite, observando-as me lembrei de você, por isso vim te ver! Você ainda está treinando, hein!
● ●
- Nihihi, prazer em te conhecer.
- □’□ □□□□□ □□□□ □□□’□□ □□□□□. □□□□ □□ □□□□ □□□ □□□.
─ Olha só como você fala~ É tão fofo! Nyahaha!
●
─ Estava caindo do céu!
─ □□□□ □□□ □□□□ □□□ □□□□□□□ □□□□ □□□ □□□?
─ Estava assistindo as nuvens de chuva se formando. Gosto especialmente do momento em que as nuvens se formam. Posso chamar de esteticamente agradável? Então! Estava voando por aí admirando quando pensei: ‘Já chega’, e desci.
─ …
─ Nihihi.
Olhei para o céu. As nuvens de chuva, que antes achava fofinhas, now estavam flutuando suavemente. Aquelas nuvens certamente choveriam à tarde.
De oeste, as nuvens de chuva se deslocavam e se acumulavam na direção do Mar de Arkins.
Explorei essa área após várias mortes. Finalmente, cheguei a um penhasco que se projetava perto da costa.
Uma estudante com longos cabelos lavanda e chapéu de bruxa sentou-se no topo do penhasco, abraçando os joelhos. Seu olhar estava fixo nas nuvens negras que cobriam o céu acima do mar distante.
“Huff, agh...”
Corria com toda a força. Mal respirando, comecei a me aproximar de Dorothy Heartnova.
Ela pareceu surpresa com meu passo repentino, sua cabeça tremendo levemente.
“Sênior.”
“O que há, presidente? O que te traz aqui?”
Dorothy virou a cabeça na minha direção, mas seu rosto ainda estava escondido sob o chapéu de bruxa que ela sempre usava.
Depois de fungar uma vez, ela levantou o chapéu, revelando um sorriso encantador.
Ela vivia admirando o céu, até faltando às aulas por isso. Queria absorver o máximo possível da beleza do mundo em seu coração antes da morte inevitável.
Enquanto escondia seus verdadeiros sentimentos por trás de um sorriso falso, agia com amizade e sempre se esforçava para brilhar mais do que os outros.
Esse era o Dorothy que eu conhecia.
“Presidente…?”
Eu sentei ao lado de Dorothy.
O espetáculo das nuvens de chuva se formando… Eu devia ter percebido na primeira vez que ouvi aquilo.
‘O que há de tão bonito nisso?’
É só céu nublado e escuro, nada bonito nem um pouco.
Dorothy se vê ao olhar para essas nuvens de chuva escuras?
“Sênior.”
“Hã? Sim?”
O Dorothy aqui era destinado a desaparecer. Ela era uma mera cópia, observando as nuvens se formando no mar distante, durante a cerimônia de férias. Uma ferramenta simples para passar nesse julgamento, nada mais, nada menos.
Porém, quanto mais pensava nela, mais percebia quantas coisas eu realmente queria dizer. Não aguentaria se não dissesse agora.
Seria difícil dizer o que realmente queria para a Dorothy de verdade, então decidi aproveitar essa oportunidade para lhe falar.
Abri minha boca e decidi expressar tudo que vinha guardando há trechos.
“Sabe, sênior. Eu achei você muito legal lá atrás.”
“Hmm. Então é por isso que você é fã de mim?”
“Exatamente, sua tentativa de brilhar em qualquer situação, parecia tão incrível. Então pensei, ‘Puxa, não posso deixar de ser fã’.”
“Nihihi, é mesmo?”
“Mas você exagera, sênior.”
“…Hã?”
“Você força um sorriso, força a ver beleza onde ela não existe. É porque quer decorar sua vida de forma significativa e bonita, mesmo que seja só um pouco.”
Falei de forma direta.
“Honestamente, nada aqui é realmente bonito, né?”
“…”
Sorriso da Dorothy lentamente desapareceu.
Porém, como de costume, ela logo colocou uma expressão de máscara, rápida como sempre.
“Do que você está falando, presidente? Estou ficando um pouco entediada.”
O sorriso de Dorothy tinha um quê de desconfiança. Uma palavra mais errada e ela lançaria um feitiço em mim.
De qualquer modo, já morri bastante nesse julgamento. Na verdade, se fosse morrendo às mãos de Dorothy, isso facilmente poderia ser considerado a maior morte da minha vida. Não ficaria tão ruim se minha lápide dissesse: ‘Causa da Morte: Idiota Fã de Quadrinhos’.
Claro que, brincando com a ideia de morte, meu corpo estava em grande perigo.
Quando levantei minhas roupas para verificar meu abdômen, ele estava congelado. Só tinha algumas vezes que eu podia retroceder. Talvez… mais uma ou duas vezes.
Mesmo assim.
Havia algo que eu queria dizer à Dorothy, mesmo que isso significasse encarar a morte.
Enquanto refletia sobre o tempo que passei com ela, comecei a questionar se minha determinação de salvá-la era equivocada.
E se Dorothy deseja a morte? E se ela não quer que eu a salve de jeito nenhum?
Eu precisava ver a reação dela.
“Sênior, eu vou te salvar.”
Queria ouvir a resposta da Dorothy – se ela me permitiria salvá-la ou não.
“Então, pare de viver como se estivesse com o tempo contado, e comece a pensar em como quer viver após a formatura.”
Os olhos de Dorothy se arregalaram. Sua voz tremia.
“Por quê… você me diria isso?”
Quero que você seja feliz.
Mais do que tudo.
“Porque você é uma luz brilhante para mim, sênior.”
Foi por essa razão simples que eu mais amava a Dorothy.
“…Você é tão chata, presidente.”
Finalmente, Dorothy respondeu, virando a cabeça de volta para as nuvens de chuva.
Havia um sorriso de despedida em sua voz.
“Na verdade, prefiro ser salva à força. É mais divertido assim~”
As nuvens de chuva se reuniam, mas de forma feia, nada de bonito nelas. Não havia necessidade de prestar mais atenção do que o necessário.
Dorothy compreendia completamente o que acabei de dizer. Meu sentimento parecia que tinha chegado nela.
Ela queria ser salva. Isso era suficiente.
Abri novamente meus olhos e olhei para Dorothy. Era hora de agir.
“Sênior, tenho algo importante para lhe dizer.”
“Você vai sair daqui, né?”
“…?”
…Hã?
“Eu já sabia que este mundo era falso. Consigo perceber a essência de tudo, lembra?”
“Então, sênior, você soube a verdade o tempo todo…?”
“Na verdade, não. Não sei o que vai acontecer a seguir. Mas percebi que nem eu nem este mundo são reais, então o que acontecer não importa. Não senti necessidade de dar significado à minha existência.”
A Dorothy não tinha lutado contra o Deus Maligno porque sabia que este mundo e ela mesma eram falsos; simplesmente, não havia razão para ela fazer isso.
“Mas parece que esse não é o caso.”
Dorothy se levantou energicamente, riu de forma travessa, e estendeu a mão branca como a neve em minha direção.
“Nihihi. Deixe-me ajudá-lo, presidente! Vamos destruir este mundo juntos.”
Juro. O sorriso dela é tão brilhante e revigorante quanto uma fruta madura. É tão fofo. Não consigo deixar de rir.
“Sim.”
peguei a mão de Dorothy e me levantei.
É hora de quebrar esse julgamento.
Notas de rodapé:
- 1E/N: Um fantasma de ovo é um espectro coreano que não tem membros nem traços faciais. Dizem que quem vê um fantasma de ovo morre.