
Capítulo 265
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
……Então ele realmente gosta dela.
O Príncipe Chrisetos murmurou enquanto colocava sua xícara de chá na mesa.
— Quem, hein?
— A filha do Duque de Voreoti.
— Você gosta da filha do Duque?
A Imperatriz Tigria prendeu a respiração e deixou cair o biscoito que tinha na mão.
Para ela, que finalmente estava desfrutando de um momento de paz tomando chá sozinha com seu filho mais velho, aquilo foi como um relâmpago vindo do céu.
— Está querendo se ferrar ao se meter com o Duque de Voreoti?
— Não eu! Eu também tenho meus gostos!
O príncipe Chrisetos rapidamente protestou, acrescentando que ele não gostava de mulheres que basicamente gritavam: “Sou um pervertido!”
— Estou falando da Skan.
— Skan? Seu irmão?
— Sim, o segundo filho do Seu Majestade.
— Nossa...
A Imperatriz soltou um suspiro de compreensão.
— Recentemente, o Duque de Voreoti disse que só precisa da semente dele quando se trata da filha…
O rosto de Ferio ao ouvir aquilo era mais assustador do que uma foice vindo buscar alguém.
Se uma personificação da morte tivesse visto aquela expressão, teria deixado a foice cair na hora.
— E essa mãe não tinha ideia de nada?
A Imperatriz estreitou os olhos, como se estivesse culpando eles por manterem segredos. O príncipe rapidamente negou.
— Você sabe que o Skan nunca revela o que pensa.
Ele admitiu que só tinha percebido recentemente.
A constatação de que seu irmão mais novo tinha sentimentos pela Leonia foi um choque bem grande.
Mesmo assim, havia pistas.
— Você conhece aquele relógio que ele sempre usa?
— Agora que você fala nisso…
Apesar de não gostar de acessórios, a princesa sempre usou o relógio no pulso há bastante tempo.
— Mãe, aquele relógio foi um presente da filha do Duque.
— Sério? Que coisa doida…
— Pois é! Que coisa doida?
A mãe e o filho discutiram como se fosse o maior escândalo do mundo.
A Imperatriz estava tão surpresa que continuou tomando seu chá sem parar.
— Agora que penso nisso, a família do Duque iria usar a Porta do Palácio hoje.
A Imperatriz olhou para a janela. A essa altura, o carruaje de Voreoti já deveria ter entrado no palácio e estar se dirigindo para a porta.
— Skan pode ir até lá se despedir.
— Ele realmente gosta da filha do Duque?
— Parece que a filha do Duque também gosta bastante do Skan.
— Bem que ela deveria.
A Imperatriz afirmou com orgulho que seu segundo filho era o mais bonito de todos, graças a ter herdado sua aparência.
— Ainda assim, isso virou uma confusão.
— Ah, é por causa da proibição imperial de casamentos com a família Voreoti?
— O Skan não está sujeito a isso.
Como a Princesa Scandia não tinha sangue imperial, um casamento com a família Voreoti era possível.
O que preocupava a Imperatriz era que seu segundo filho talvez não pudesse se tornar mais o próximo Marquês de Hesperi.
— Depois de tudo que investi para ensiná-lo…
Era frustrante pensar que todos seus esforços seriam em vão.
A ideia de mandar seu filho bem criado para o Norte deixava um gosto amargo na boca.
— Tudo isso para que outra pessoa se aproveite.
— Então, você aprova o amor do Skan?
— Aprovar ou não…
A Imperatriz não tinha interesse em interferir no romance do filho.
Ela, que sofreu com tamanha interferência por tanto tempo, tinha ainda menos vontade de se meter.
Além disso, ela não achava que poderia vencer os Voreoti.
— Para ser honesta, acho a filha do Duque mais assustadora do que o próprio Duque.
Ela ainda se lembrava das coisas chocantes que Leonia tinha dito.
— Seu irmão disse que a conheceu quando ambos eram pequenos, e, só pela estrutura óssea dela, achava que ela era um menino.
— Quando foi isso?
— O Skan tinha nove anos na época.
— …Então tenho que tratar de assuntos nacionais com uma aberração dessas.
O príncipe segurou a testa, e a Imperatriz sorriu meio de lado.
— Princesa, nunca mostre esse coração honesto na frente dos outros nobres.
A Imperatriz se preocupava profundamente com seu filho mais velho, que tinha uma personalidade meio humana demais.
Ela temia que um dia ele fosse levado a setas, sem poder fazer nada, só por medo da Leonia.
— Mas o que acha que o pai dirá?
Agora, mais recuperado, o príncipe Chrisetos ficou curioso com o que Ibecks tinha a dizer.
— Quem sabe…
A Imperatriz deu de ombros, dizendo que também não tinha certeza.
No entanto, considerando como Ibecks e sua filha eram parecidos na personalidade, ela tinha certeza de que ele apoiaria sinceramente o amor do seu segundo filho.
Afinal, ele também era uma vítima, assim como ela.
— Mas, se for a filha do Duque, não é ruim.
Objetivamente, a família Voreoti tinha um status muito maior.
Uma das duas únicas casas ducais do império, que nunca caiu em decadência na história.
‘Talvez essa seja uma boa oportunidade para ligar o Oeste ao Norte.’
De uma perspectiva estratégica, era uma chance enorme para o Oeste. Quanto mais perto do Norte, melhor.
‘Quem sabe o próximo Marquês de Hesperi seja sangue Voreoti…’
A Imperatriz Tigria, que quase foi marquês de Hesperi ela mesma, ocupou sua mente com pensamentos de benefício político.
Mas logo caiu na mesma armadilha de desespero, se perguntando para que servia tudo aquilo.
Estavam esquecendo algo realmente importante.
— Todo esse papo fiado, no final, não serve de nada.
— Então, o que é importante?
O príncipe perguntou, e a Imperatriz respondeu com uma ponta de amargura.
— Que o Skan sobreviva ao Duque.
O Duque de Voreoti, que amava tanto a filha a ponto de dizer que só precisava da semente dela, e não de um homem, era o maior obstáculo.
— Ah...
O príncipe soltou um suspiro profundo.
Mãe e filho estremeceram ao lembrarem da expressão apaixonada e assustadora do Duque de Voreoti.
***
O carruagem com o símbolo do animal negro do clã Voreoti partiu em direção ao Palácio Imperial.
— Até logo!
Leonia se inclinou para fora da janela, acenando com entusiasmo.
Os criados, incluindo Tra, que tinha vindo se despedir, permaneceram parados até a carruagem desaparecer de vista.
Leonia só parou de acenar quando a propriedade e os criados já tinham sumido completamente do campo de visão.
— Ah... Agora vamos de volta para o Norte…
No seu assento, a pequena besta fez uma caras de irritada.
— Você ficou reclamando tanto para voltar pro Norte.
Ferio bufou, afastando as sobrancelhas com a mão.
— Eu não reclamei.
— Você reclamou sim.
— Você com certeza reclamou, sim, — concordou Varia, assentindo.
A boca da criança fez uma cara de protesto, mas logo voltou ao normal.
— Ei, Leo...
Varia virou-se para Leonia com uma pergunta.
— Você encontrou com Sua Alteza, a Princesa?
A palavra “Princesa” fez um lampejo de frieza passar pelos olhos de Ferio. Seus ouvidos se levantaram perceptivelmente.
— Graças à mãe, consegui encontrá-la sem problemas.
— Que bom. Fico feliz que Sua Alteza veio te cumprimentar, tão gentil—
— Leonia.
Ferio chamou a filha pelo nome, claramente aborrecido.
— Aquela merda de travesti, o que é que ele —
— Ferio.
Varia o interrompeu e colocou uma mão sobre a barriga.
— Os músculos podem te ouvir.
— É, meu irmãozinho pode ouvir tudo!
Leonia colocou delicadamente a mão na barriga da mãe e lançou um sorriso malicioso para o pai. Nada lhe deixava mais feliz do que vê-lo sendo repreendido.
— ...Aquela ongeira que se veste de mulher.
Ferio se corrigiu com uma carranca na direção de Leonia.
— O que ele fez contigo?
— Nada de mais?
— Se depender, é ela quem deveria dar um chega pra lá…
— Mãe, você me conhece bem!
Leonia sorriu brilhando.
Mesmo assim, percebendo que o pai estava ficando sensível demais, ela foi em frente e contou o que tinha acontecido com a princesa.
— Ela só desejou uma boa viagem e perguntou se poderia me escrever, e eu disse que tudo bem.
— Cartas...
Ferio decidiu silenciosamente que, assim que retornassem ao Norte, mandaria Kara vigiar todas as cartas dirigidas a Leonia, passando primeiro por ele.
Este inverno, a lareira vai queimar mais forte do que nunca.
— Querida...
E Varia olhou para o marido com um pouco de pena.
Ele era perfeitamente racional — até o momento em que qualquer coisa relacionada ao amor da filha surgia, e aí os parafusos escapavam tudo.
Mesmo assim, Varia não desgostava dessa peculiaridade no marido.
O fato de que o homem que todos temiam fosse um marido e pai tão normal em casa a fazia realmente feliz.
O carruagem logo chegou ao Palácio Imperial.
Por ordem da Imperatriz, os criados do palácio conduziram o carruagem de Voreoti através do caminho adequado, direcionando-os gentilmente até a porta.
— ......
Leonia olhou fixamente pela janela.
— Procurando alguém?
Ferio estreitou os olhos, desconfiado.
— Não. Só estou passeando por aí.
— Senta direito. Você tá passando vergonha.
— Aquela velhacaria de novo…
— Você que é chato de ficar com as pernas cruzadas — mesma coisa.
— Que desculpas sem graça…
Reclamando, Leonia se endireitou na cadeira.
Varia riu um pouco da dificuldade entre pai e filha. Era um momento de paz verdadeiro.
— Ainda assim, achei que ela fosse vir nos despedir.
Observando a partir da janela, Varia tinha uma expressão um pouco triste. Leonia consolou a mãe, que parecia mais desapontada do que ela própria.
— Tudo bem. Já nos despedimos mais cedo. Petulância não é legal.
— Pessoas que se vestem de mulher não são legais.
— Ora, eu até gosto disso, então…
— Devia ter criado sua consciência em vez do seu lado infantil...
Ferio suspirou, mais uma vez derrotado pelos gostos devotados e leais de Leonia.
Ele lamentou não ter cultivado aquela pequena fresta de consciência que ela tinha, mesmo que fosse bem pouca, ao invés de sua inocência inexistente.
— Ooh! A Porta do Norte!
Mas a atenção de Leonia já tinha se voltado para a porta que se aproximava à frente do carruaje.
Ela quase pulava de alegria ao pensar que sua família seria a primeira a usar uma porta que não fora aberta desde a fundação do Império.
— A gente não vai chegar repentinamente nas Montanhas do Norte, né?
Varia estava um pouco nervosa com a travessia da Porta.
— A menos que a gente queira ir lá, isso não vai acontecer. Relaxe.
— Ferio…!
— Com a minha presença ao seu lado, o que há para se preocupar?
— Aff, sério…
Nojo.
Desgostosa do clima que sempre parecia prestes a virar uma cena de quarto toda hora, quando os pais se olhavam, Leonia apoiou o queixo na janela e virou o rosto para fora, afastando-se.
‘...Hmph.’
Porém, a reflexão da sua imagem no vidro tinha um sorriso malicioso.
— Ah, é mesmo.
Justo antes do carruagem passar pela porta—
— Mãe, pai.
Leonia chamou os pais com a sua voz sempre animada.
No breve momento em que desviou o olhar, eles já tinham trocado beijos três ou quatro vezes.
Normalmente, ela teria resmungado, perguntando o que diabos eles estavam fazendo e dizendo que, se fosse para fazer aquilo, pelo menos colocassem a língua para ajudar na sua evolução emocional.
Mas, agora, não tinha mais necessidade.
— Esqueci de falar algo antes.
Leonia finalmente contou o que não tinha mencionado antes.
— Eu beijei Sua Alteza, a Princesa!
O ambiente dentro do carruagem ficou frio. Eles acabaram de cruzar a fronteira do Norte, e a temperatura caiu drasticamente.
De agora em diante, o Norte já tinha passado o outono e se aproximava do inverno.
Mas Varia tinha certeza.
Que essa atmosfera dentro da carruagem não tinha nada a ver com o clima lá fora.
— Meu cavaleiro do puff-puff realmente roubou meu coração! Acho que estou gostando dela sem perceber. Então, dei um beijo bem grande nos lábios dela!
A confissão descarada da filha.
“......”
O silêncio de medo do pai.
— Agh...
A mãe, que só podia assistir em desespero.
Era mais um dia comum na família Voreoti.
[Fim]