
Capítulo 254
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
A família Voreoti, ao atravessar o Portão, parecia completamente destruída.
De cabeça aos pés, estavam cobertos de neve, as roupas encharcadas de gelo derretido, lama e até sangue.
Os Cavaleiros Gladiago rapidamente tiraram seus mantos e os envolveram ao redor da família do Duque.
“Varia, você está bem?”
“-Apenas um pouco com frio...”
“Com frio?! Claro que está! Suas roupas estão encharcadas!”
Mal tinham voltado das Montanhas do Norte e Varia já começava a tremer de frio.
Lá em cima, uma força estranha a havia impedido de sentir o frio, mas agora, as roupas molhadas e o cansaço emocional de lidar com Remus a atingiram de uma só vez.
Ferio e Leonia cada um tirou seu próprio manto e o envolveram com cuidado ao redor de Varia.
Mas isso ainda não foi suficiente—Ferio foi além e abraçou-a, compartilhando seu calor corporal para aquecê-la.
“Vamos procurar umas pedras!”
Leonia aqueceu as pequenas rochas que os cavaleiros trouxeram usando as Presas da Fera, envolvê-las em mantos para criar aquecedores improvisados para as mãos.
“Mamãe, segura isso!”
No instante em que o calor chegou ao rosto de Varia, ela relaxou visivelmente.
‘Espere... Usei as Presas?’
Leonia percebeu a mudança tarde demais. Ferio também usava suas próprias Presas fracas para aquecer o corpo de Varia.
“Duque Voreoti!”
De repente, alguém gritou.
“Alguém está chamando por você, pai.”
“Na verdade, agora você é o Duque, não acha?”
Ferio fez um gesto com o queixo na direção do emblema pregado na jaqueta de Leonia. Agora úmido de neve derretida, o brasão brilhava fracamente.
“...Ah, é mesmo.”
Leonia gemeu ao se levantar, tendo esquecido completamente.
‘Deveria devolver?’
Ser oficialmente Duque acabou sendo muito mais complicado do que ela imaginava.
Começava a desconfiar que Ferio havia passado o título para ela só para poder relaxar e se divertir.
“Nossa!”
Antes que pudesse reagir, de repente, dois braços a envolveram, fazendo-a soltar um pequeno grito.
“...Majestade a Princesa!”
Os olhos de Leonia se arregalaram ao ver o cavaleiro de cabelos prateados que a havia abraçado tão apertadamente.
“Você me assustou de verdade.”
Com as mãos ainda pairando sem jeito no ar, Leonia ficou imóvel, chocada de verdade.
“O que está acontecendo? E o que você está fazendo aqui?”
“Eu te avisei que estaria aqui para te cumprimentar.”
A princesa murmurou baixinho, com um tom de reproche suave—como se estivesse perguntando, ‘Você esqueceu?’
“Você realmente esperou todo esse tempo?”
Leonia de repente se sentiu culpada. A princesa não respondeu, apenas deu uma leve cabeça em sinal de concordância silenciosa.
“Que cavaleira tola...”
O sol quase se tinha ido completamente e o céu escurecia cada vez mais.
Leonia sentiu-se ao mesmo tempo preocupada e tocada por saber que a princesa tinha esperado tanto tempo—tudo por aquela promessa. Isso fez seu coração doer e acelerar ao mesmo tempo.
“E se eu tivesse simplesmente voltado direto para o Norte para descansar?”
Essa alma bondosa...
Leonia, de maneira desajeitada, descansou os braços nas costas da princesa e a acariciou suavemente.
“Coitadinha, cavaleira tão inocente!”
Assim que a mão de Leonia tocou suas costas, os músculos da corpo da princesa ficaram tensos, mas ela lentamente relaxou e se inclinou no abraço.
“Eu não sou tão inocente assim.”
“Então por que esperar aqui como um cachorrinho?”
“Você disse que voltaria. Então eu acreditei que sim.”
“A Sua Majestade a Imperatriz já lhe ensinou o quão perigoso o mundo é?”
Leonia recuou um pouco, franzindo a testa.
A Imperatriz tinha sido tão obcecada pelo trabalho que provavelmente deixou de passar ao seu adorável e ingênuo filho alguma lição adequada de sobrevivência.
Tudo o que ele dizia era adoravelmente fofo—fazia ela se perguntar como ele se sairia no mundo dessa forma.
‘Acho que vou ter que protegê-lo.’
Apesar do pensamento, Leonia não conseguiu evitar um sorriso feliz se formando nos lábios.
A princesa, sem entender por que Leonia estava sorrindo, inclinou a cabeça confusa.
Enquanto isso—
“...!”
Os olhos de Ferio queimavam com uma vontade de matar praticamente contida enquanto observava.
Com cada músculo da testa tencionado, os cavaleiros lentamente se afastaram dele, como se fossem {N•o•v•e•l•i•g•h•t} — uma luz tênue de alerta.
“Nossa, que frio!”
Uh, que frio! Congelando!
Ao perceber os olhares desesperados dos cavaleiros, Varia fingiu, de forma constrangedora, tremer de frio.
Ferio saiu de seu transe e voltou a envolvê-la no abraço. Mas seus olhos nunca deixaram a princesa, que ainda se agarrava ao lado de Leonia.
Preocupada que Ferio pudesse realmente atacá-lo, Varia apertou seu abraço e prendeu os braços ao redor dele.
“Deixem-nos em paz.”
Varia sussurrou para seu marido.
“É uma cena doce. Pura, até.”
“Que parte disso é pura?”
“Ah, então não é pura?”
“Aquela lá tem a alma completamente sombria.”
Ferio rosnou, e Varia observou atentamente os dois—Leonia e a princesa, que sorrizavam docemente um para o outro.
“...Você quer dizer nossa Leonia?”
Infelizmente, o que Varia viu foi Leonia fingindo consolar a princesa enquanto, de forma sorrateira, verificava sinais de desenvolvimento muscular.
“Leonia é... bem, ela é Leonia.”
Ferio não negou.
“Mas os pestinhas têm que ser exterminados assim que aparecem.”
Deixar que avancem sem controle era exatamente como permitir que pessoas como Olor prosperassem.
“Não chamem ele de pestinha!”
Varia repreendeu.
“Por mais que ele seja, ela é a princesa...”
Ah.
Varia percebeu seu deslize tarde demais.
Ela fechou a boca rapidamente, mas o estrago já tinha sido feito—todos ao redor já haviam descoberto quem era, de verdade, o cavaleiro de cabelos prateados.
Na verdade, eles já haviam adivinhado—Leonia tinha revelado a identidade da princesa em voz alta antes.
“-Princesa?!”
“Aquele cavaleiro é a princesa?”
“Mas espere, a princesa é uma menina!”
“Então como você explica isso?”
“Eita—menina e menina?!”
“Isso não é o mais importante!”
“Você viu ela ou o quê!”
Paavo chutou a traseira de Probo.
“Aff, minha cabeça...”
Prince Chrisetos, observando de longe, cobriu o rosto e gemeu, passando as mãos pelo rosto em agonia.
“Ela só precisa da semente.”
Ferio rosnou furiosamente.
Surpresa, Varia deu um leve tapinha na própria bochecha.
‘Controle-se, mulher.’
Se ela não se recompor agora, Leonia poderia crescer e virar um tipo de vilã insensível, que pegasse a semente e jogasse o resto fora.
‘Certo, bebê?’
Varia perguntou ao bebê que carregava na barriga.
‘...Fique focada!’
Um calafrio percorreu sua espinha. Ela tinha um pressentimento terrível de que, assim que nascesse e pudesse falar, o bebê iria correr gritando “Semente! Semente!” o dia todo.
***
Como já era tarde, a família Voreoti ficou hospedada numa residência de hóspedes no palácio imperial.
Apesar da agenda ocupada, a Imperatriz Tigria enviou seu médico pessoal para cuidar de Varia.
“Você está grávida?”
O médico, visivelmente surpreso durante o exame, imediatamente ordenou que seu assistente buscasse diversos materiais.
Logo, o assistente retornou com instrumentos que Varia nunca tinha visto antes.
“O que está acontecendo?”
“A mamãe está realmente doente? Ela está?”
Preocupados com o tumulto, Ferio e Leonia entraram apressados pelo corredor.
Espantados com suas expressões intensas, o pobre assistente quase derrubou os aparelhos.
“Desculpe, por favor, esperem lá fora um momento.”
O médico afastou-os com firmeza.
Quando voltou ao lado de Varia, seu rosto estava pálido.
No entanto, ele se recomposed e examinou com mais cuidado tanto Varia quanto o bebê.
Com o consentimento de Varia, ele fez uma avaliação detalhada.
De olhos fechados, Varia rezava com todo o coração pela saúde do bebê.
“Como esperado de uma Voreoti.”
O médico sorriu.
“O bebê está perfeitamente saudável.”
Nessas palavras, Varia finalmente relaxou. Toda a ansiedade e medo que guardara desde o incidente na montanha desapareceram como neve derretida.
Mesmo assim, o médico deu um aviso firme para ela tomar cuidado.
“Nos próximos dias, você deve descansar bastante. Assim o bebê ficará forte.”
“Muito obrigada.”
Varia acariciou gentilmente seu ventre, grata.
Deixando a recomendação de repouso, o médico saiu acompanhado de seu assistente.
“KYAAA!”
Momentos depois, um grito agudo ecoou de fora da sala. Alarmada, Varia já imaginava o que tinha acontecido.
“Está bem, mamãe? Está bem?”
“Mova-se, você está piorando!”
“Você assustou o médico antes!”
Claro. Seu marido e a filha atacaram o médico com perguntas assim que ele saiu. Agora, correram para o leito de Varia.
E bricaram, acusando-se mutuamente por atrapalhar.
“...Você ouviu o que o médico disse antes, né?”
Varia os acalmou a ambos.
“Está tudo bem.”
“E o bebê também?”
Leonia inclinou o corpo sobre a cama e perguntou.
“Claro, o bebê está saudável—”
Varia interrompeu no meio, com a boca entreaberta.
“Sua filha malandra.”
Ferio delicadamente fechou sua boca por ela.
“Já sabíamos disso.”
“Eheh!”
Leonia fez uma careta brincando.
“Por quê?”
Varia parecia desapontada.
“Eu queria te surpreender!”
“Bem, o papai está grudado na sua cintura e barriga o dia todo.”
Sem poder argumentar, Ferio apertou os lábios. Envergonhada, Varia mexia no cobertor nas mãos.
“Estou preocupada que o novo bebê aprenda toda essa besteira.”
Leonia balançou a cabeça.
“Acho que vou ter que criá-los eu mesma.”
“Não destrua o futuro do seu irmão.”
“Com licença!”
Hmph! Leonia respirou fundo como quem repreende uma criança e olhou feio para Ferio.
“Como ousa! Que insolência questionar a palavra do Duque do Norte!”
Incrédulo, Ferio observava o emblema ainda preso à roupa dela.
Depois, arrancou-o.
“Meu título!”
Leonia estendeu a mão, exigindo devolvê-lo, mas Ferio se levantou primeiro e desviou facilmente.
“Pai está cometendo traição!”
“Isso não é traição.”
Ferio bufou, levantando o queixo.
“Você nunca foi realmente Duquesa.”
“Eu fui a Duquesa!”
Leonia inchou o peito orgulhosamente. Liderou cavaleiros para reprimir uma rebelião e participou de um conselho nobre.
“Filha tola.”
O tom de Ferio era gentil, mas carregado de zombaria.
“O nome constando na carta de posse ainda é 'Ferio'.”
O brasão com o emblema do leão era só decoração. Era usado frequentemente em negócios oficiais em nome do Duque, mas às vezes ele esquecia de usá-lo.
O título legalmente reconhecido ficava guardado com segurança no cofre do património do Norte.
“......”
Leonia olhou ao redor de olhos desconfiados, virou-se lentamente e se escondeu, escondendo o rosto.
“...Sabia que era assim.”
Ferio e Varia trocaram olhares. Era óbvio que Leonia tinha se esquecido.
“Mas, mamãe, eu ainda achava você incrível.”
Varia sorriu, elogiando-a. “Você foi uma duquesa verdadeiramente maravilhosa.”
Leonia se virou de volta com um sorriso radiante.
“De qualquer forma, seu jeito dramático já te torna uma duquesa.”
Ferio reconheceu de forma indireta.
“Muito falso.”
Leonia cantarolou uma melodia, esfregou a cabeça contra a mão de Ferio enquanto ele a acariciava. Seus lábios se curvaram num sorriso suave.
“Bom, não faz diferença! Logo vou reassumir o título!”
“Ela realmente vai acabar sendo assassinada.”
“De qualquer forma, o que importa agora!”
Leonia sorriu para Varia.
Varia repentinamente segurou o cobertor com força, um calafrio percorrendo sua espinha.
“É hora da mamãe levar bronca.”
“Agora que você falou nisso...”
O sorriso de Ferio virou um sorriso malicioso também.
“Ó, meus deuses...”
Varia rezou desesperadamente.
Mas o que veio a ela não foi salvação divina.
Foi uma tempestade de reclamações do marido e da filha.