
Capítulo 228
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Quanto tempo ela havia suportado até aquele momento?
Leonia tinha imaginado várias vezes morder a garganta daqueles dois e acabar com suas vidas—milhares, dezenas de milhares de vezes.
Mas agora, essa fantasia finalmente se tornara possível.
‘Será que é por isso que histórias de inimigos que se tornam amantes são tão populares?’
Leonia sentia como se estivesse prestes a desenvolver um gosto que nunca poderia aceitar na vida anterior.
Claro, só abriria a porta para esse novo mundo depois de caçar minuciosamente aquelas criaturas malditas.
Leonia direcionou seus pensamentos às últimas peças restantes.
“A nomeação do príncipe herdeiro, a confiscação do título de Olor, o julgamento do pai e do filho Olor...”
Ela virou a águia de ouro no tabuleiro de xadrez e substituiu por uma nova.
Desta vez, uma peça encomendada especialmente, com uma expressão muito mais imponente e feroz.
Depois, moveu algumas peças em direção ao cisne vermelho.
Estas eram as casas nobres que haviam movido ações judiciais contra Olor.
A família Bosgruni, onde pertencia Ardea—a vítima do ataque. Urmariti, que aguardava ansiosamente por esse dia, rangia os dentes. Ortio, que não tinha recebido pagamento pelo ingrediente mágico que fora solicitado a criar por Olor.
Depois, a Academia Imperial, cujo prédio fora danificado durante o ataque, representada pela peça coruja.
“E o movimento final...”
Leonia colocou a última peça.
“Voreoti.”
O leão preto ficou de frente para o cisne vermelho.
Tudo o que sobrara de Olor, que vendou até mesmo sua guilda para pagar reparações, foi o título vazio, a vergonha acumulada ao longo dos anos—além de sua conexão já manchada com a consorte Usia.
E, mesmo ela, Usia, havia virado as costas para ele há muito tempo.
“Tudo o que lhe resta agora deve ser desespero e inferno.”
Leonia mostrou o tabuleiro completo para Ferio.
“O que acha?”
“Ainda não está perfeito.”
“O quê? Eu mandei muito bem!”
A criança fez bico. Ferio, que observava, levantou-se do assento e se aproximou dela.
Ele apontou para as duas peças de baleia—uma de jade, outra laranja—que estavam atrás do cisne vermelho.
“O que pretende fazer com essas?”
“Ah, essas duas? Não valem meu tempo.”
Leonia girou as baleias com preguiça com o dedo.
“São só peças de xadrez, no máximo.”
Sorrindo como uma pequena fera, ela empurrou as baleias de volta por trás do cisne vermelho.
“Deixe-as tentarem rebelar-se se quiserem.”
“Vai deixá-las em paz, já que estão sob vigilância?”
Ferio sorriu levemente ao fazer a pergunta.
“Deixe-as tentar. Quem se importa?”
Leonia não ligava mais para o que Aust fizesse.
“Esses idiotas já estão—”
Ela estava prestes a mover uma peça quando—
BANG. A porta se abriu de repente, e Tra entrou, varrendo a sala com o olhar em busca do pai e filha bestiais, com a expressão séria de quem vinha em missão urgente.
Ferio e Leonia avançaram rapidamente, alarmados com o rosto severo do mordomo.
“Senhor! Jovem Senhora!”
“A senhora desmaiou!”
***
“Eu não desmaiei.”
Varia, reclinada na cama, deu um sorriso constrangido.
“Só tropecei um pouco ao pegar um livro.”
Ela tinha subido numa cadeira para alcançar um livro na prateleira superior, perdeu o equilíbrio e aterrissou de forma segura usando a técnica de amortecimento de queda que aprendeu com Leonia.
Infelizmente, Tra testemunhara toda a cena.
O que mais a envergonhava não era o tropeço, mas a aterrissagem espetaculosa.
Ela só estava na cama agora porque Tra fez uma cena e não queria deixá-la em paz.
“Olhem. Não tenho ferimentos, nem arranhões na roupa. O Tra superexagerou.”
“O que você estava fazendo querendo pegar um livro, em primeiro lugar?”
“Não leia livros! O mundo vai acabar se você parar de ler por um dia?”
Ver a esposa na cama fez o coração de Ferio e Leonia bater mais forte—e eles partiram para uma conversa séria, sem dar chance de ela se defender.
“... Acho que agora sou eu que vou ficar doente.”
“Onde dói? Deve ser uma reação retardada. Tra, vá chamar o médico!”
“Será que é nas costas? Uma lesão nas costas seria grave!”
“Não, nos ouvidos.”
Com um marido e uma filha tão zelosos, Varia parecia que seus ouvidos poderiam começar a sangrar.
“Já chega, de verdade.”
Seu tom firme finalmente acalmou os feras que a cercavam.
No entanto, os dois persistiam, segurando seus dedos e preocupados.
“Da próxima vez, peça pra alguém pegar seus livros. Vou aumentar o salário do pessoal, então, que eles façam o serviço direito.”
“Você vai aumentar o salário só pra eles trazerem livros pra você?”
“Quer que eu leia pra você em vez disso? Mãe, qual livro você estava tentando pegar?”
“Então, a Leonia vai ler livros de etiqueta agora?”
“Quem sabe, talvez seja melhor contratar um leitor profissional pra estimular a economia.”
A preocupação deles não cessava. Varia resignou-se a simplesmente escutar.
No fundo, era ela quem tinha causado toda essa preocupação.
“Senhora.”
Tra, que observava silencioso toda essa cena dramática, falou.
“Não tem acontecido com mais frequência ultimamente?”
Ele se preocupava com o aumento de pequenos enganos de Varia.
“Você está dizendo que está mais cansada, e tropeça pelo menos uma vez por dia agora.”
“Tra, você tem estado me acompanhando?”
Varia arregalou os olhos.
“... Isso é sério.”
O semblante de Ferio se fechou numa expressão de preocupação profunda, a mais séria que ela tinha visto há muito tempo.
Ela olhou para ele fazendo uma cara de ‘Você deve estar brincando’, mas desta vez, Ferio não recuaria.
“Acho que deveríamos chamar um médico e diminuir suas tarefas.”
“Às vezes, tropeçar enquanto caminha é normal.”
Ela insistia que estava perfeitamente saudável, reforçando seu argumento.
“Eu nunca tropeço.”
“Eu também não!”
Infelizmente para o pai e filha mais resistentes do mundo, tropeçar ao caminhar era considerado uma fraqueza imperdoável.
“Bem, eu tropeçava algumas vezes quando era pequena.”
Leonia lembrou-se de sua versão magricela, de sete anos. Isso fez Varia sorrir radiantemente.
Mas Ferio logo a derrubou.
“Naquela época, Leonia era uma menininha magricela. Você, Varia, já é uma adulta completa.”
Os lábios de Varia despencaram.
“Pai, você acabou de me chamar de magricela?”
E Leonia, agora reduzida a uma ‘magricela’, ficou pasma.
“De qualquer modo, é melhor fazer um check-up no médico.”
“Ferio, eu realmente—”
“Caso contrário, vou amarrar você na cama.”
O aviso firme de Ferio ficou no ar. Ele deu uma pausa, refletindo sobre o que acabara de dizer.
“...Será que estou louco?”
Leonia gritou.
“Você realmente vai dizer isso na frente da sua filha?!”
“Eu não quis dizer nada de errado.”
“Esse pai realmente subestima o senso de perversidade da filha dele! Eu vi—pai, com certeza, imaginou a mãe presa na cama!”
Varia gritou e puxou o cobertor até o pescoço.
“Bom, o que você vê depende do que está na sua cabeça.”
Ferio abaixou suavemente o cobertor, evitando fazer contato visual com Leonia.
“De qualquer forma, você tem passado por bastante coisa recentemente. Seria bom fazer um exame de saúde.”
Ferio não desistia, até mesmo sugerindo que ela tomasse suplementos de saúde.
“Desista, mãe.”
Leonia observou enquanto enfiava as mãos nos bolsos.
“O pai demonstra amor reclamando. Eu só gostaria que ele demonstrasse com dinheiro mesmo.”
“Leonia, você também deveria fazer um exame.”
“Então vai me dar suplementos também?”
“Infelizmente, não há remédio que crie consciência...”
“Honestamente, acho que vou dethronar o pai e ficar com o título.”
Como sua vitamina diária, a pequena fera terminou sua rotina de discussão com o pai e saiu do cômodo.
A condessa Erbanu, que provavelmente era a causa da fadiga de Varia, voltou ao casarão.
“Hoje, eu me responsabilizo por expulsá-la.”
“Não exagere.”
“As pessoas vão pensar que estou aqui comendo gente.”
Bem... pelo menos, não do jeito que estavam pensando.
Com esse sonho audacioso declarado, Leonia saiu, e Ferio apertou a mão de Varia um pouco mais forte do que antes.
Tra discretamente se despediu.
Seus dedos entrelaçados, se acariciando suavemente.
“Minha reclamação está sendo irritante?”
Ferio perguntou de modo mais suave agora. Varia levemente apoiou a testa contra a dele.
“Não é isso. É só que todo mundo está superexagerando por uma coisa tão pequena.”
“Como posso dizer? Isso só mostra o quanto você é preciosa.”
Como um animal que demonstra afeto, Ferio se inclinou um pouco mais para ela, com um pouco de pressão.
Seu nariz angular roçou o canto do olho dela, e uma risada suave escapou em resposta.
“Ainda não estou acostumada com isso.”
“Com o quê?”
“Você falar comigo tão gentilmente.”
Cada vez que Ferio sussurrava palavras doces com aquele rosto intimidante, Varia sentia como se estivesse sonhando o sonho mais feliz.
E às vezes, isso a assustava.
“... E se eu acordar e tudo tiver desaparecido?”
Voltando ao momento em que Remus a matou.
Voltando ao momento em que sua família virou as costas para ela na hora da morte.
“Pelo menos, posso te mostrar o céu.”
“Meu Deus, sério?! Já é meio-dia!”
“Não é só às—”
“Fala palavrão!”
Varia, com o rosto ruborizado, deu um tapinha leve nos lábios de Ferio.
Ele deixou, sorrindo, sabendo que merecia, por ter sido atrevido.
“Você não tem mais direito de repreender a Leonia.”
“Aprendi com ela.”
“Pelo que vejo, é mais como ela aprendeu com você.”
Suspirando diante da intensidade do sangue comum deles, Varia balançou a cabeça.
Depois de toda aquela confusão, Ferio finalmente se afastou dela.
“Que tal descansar um pouco agora?”
“Bem...”
Embora não estivesse particularmente cansada, Varia se deitou.
Ela não tinha sono antes—mas assim que bateu na cama, uma sonolência a invadiu.
Ferio ficou ao lado dela até ela adormecer.
Um sorriso suave se espalhou no rosto dele enquanto a observava dormir.
Era um momento de paz ao meio-dia.
“......”
A paz nos olhos negros dele lentamente se apagou.
Ferio apertou e soltou a mão direita repetidamente, depois se levantou, olhando para Varia que dormia profundamente.
Ela já dormia, respirando de forma suave e constante.
Então, uma névoa vermelha começou a subir atrás dele.
Ela se espessou, escureceu, até formar quatro dentes afiados. Uma luz vermelha encheu os olhos negros de Ferio enquanto ele cruzava os braços.
Seus dedos começaram a tamborilar rapidamente seu braço.
Depois, o ranger parou.
Os dentes do monstro rugiram, apontando diretamente para Varia.
Mas antes que eles pudessem alcançá-la, dissolveram-se como névoa no ar.
A luz vermelha desapareceu dos olhos de Ferio.
Ele ajustou silenciosamente o cobertor dela e beijou sua testa.
“Aparentemente...”
E numa voz tão suave que nem Varia conseguiu ouvir—
“...outro monstro chegou.”