
Capítulo 153
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
No começo, Varia só começou a estudar os músculos porque queria ficar mais perto de Leônia.
Mas, em algum momento, ela se apaixonou de cabeça pelos desenhos dos músculos de Ferio no guia de anatomia, e antes que percebesse, andava sussurrando nomes de músculos para si mesma enquanto passava as mãos pelo próprio corpo.
Ela ainda não conseguia esquecer a emoção que sentiu quando, cochichando “bíceps,” conseguiu localizar o seu próprio.
Fazia tanto tempo desde que ela tinha sentido aquele tipo de adrenalina.
Para alguém como Varia, cuja vida sempre girou em torno de estudos e treinos físicos, aquilo era o nascimento de um hobby completamente novo.
E esse era o problema.
Ela deveria estar elaborando estratégias contra a família Imperial, as casas Olor e Erbanu. Precisava reunir informações, fazer uma proposta formal para Ferio. E ainda tinha que preparar as sessões de tutoria privada da Leônia.
Ela estava atolada—tão atolada que parecia que nem dois corpos bastariam.
‘Agora entendo. Entendo de verdade como a jovem senhorita se sente.’
Varia lentamente passou o dedo pela ilustração da coxa de Ferio no dicionário.
‘Tão bonito.’
Os músculos eram como flores que desabrochavam com esforço, fertilizados pelo trabalho árduo.
Quanto mais cuidadoso o cuidado, quanto mais dedicação investida, mais esplendidos os músculos ficariam.
E Varia respeitava o esforço.
Ela desprezava esforço desperdiçado em sonhos impossíveis—mas os músculos nunca traíam aquele esforço.
Então, naturalmente, ela se apaixonaria por eles. Era inevitável.
‘O corpo do duque realmente é algo especial.’
Agora que ela tinha se viciado de verdade, Varia se viu diante de um dilema bem sério.
Como alguém viciada em alguma coisa que começou tarde na vida, ela agora comparava todos que conhecia com o corpo de Ferio, sem nem pensar duas vezes.
Sempre que pensava em Ferio, sua mente vagava para sua estrutura firme.
‘...Meu Deus, eu realmente perdi o juízo.’
Consumida pela autodepreciação, Varia enterrou o rosto nas mãos.
‘O duque me ajudou!’
Foi ele quem estendeu a mão para alguém que apareceu do nada, exigindo um acordo.
Ela deveria estar retribuindo a gentileza dele, e, ainda assim, lá estava ela, fazendo coisas vergonhosas e mesquinhas às escondidas.
Varia se sentia completamente patética.
Ela nem merecia olhar nos olhos de Ferio.
‘Tanto faz “separar trabalho de assuntos pessoais”.’
Ela queria bater em si mesma por ter dito aquilo antes. Não havia separação nenhuma agora. Estava sendo uma vergonha para o homem que havia lhe mostrado tanta bondade.
De repente, ela se lembrou do olhar nos olhos negros de Ferio, enquanto ele a encarava como se ela fosse uma criatura estranha.
Pelo menos, não havia desprezo ou decepção ali.
Ferio era mais compreensivo do que ela imaginava.
Mas, se ele visse ela assim agora, provavelmente pensaria que ela era patética.
E, se ele olhasse para ela com verdadeiro nojo... isso doeria.
‘Não...’
Não, não seria só triste.
Seria insuportável. Solitário.
“Haaah...”
Varia deu um suspiro pesado.
“Odeio isso...”
“O que, exatamente?”
“Eek!”
Assustada com a voz inesperada perto do ouvido, Varia deu um pulo quase que involuntariamente.
“Hehe, eu te assustei?”
Leônia deu um passo para trás rapidamente, sorrindo como uma criança travessa que aprontou uma brincadeira.
“Huh?”
Depois, seus olhos captaram algo familiar.
Varia tentou esconder aquilo às pressas, mas Leônia pulou por cima do sofá e pegou antes dela.
“Isso...!”
Os olhos de Leônia se arregalaram.
Era o dicionário de músculos que ela tinha desenhado quando tinha nove anos.
Inspirada pelo caderno de desenhos musculares que Lupe lhe dera de presente, ela tinha criado sua própria “primeira história em quadrinhos” nesse mundo.
Ela tinha dado de presente a Ferio como um presente de aniversário.
Leônia ainda se lembrava da expressão no rosto do pai ao ver aquilo.
Aquela expressão de desamparo—querendo repreendê-la, mas incapaz de ignorar o quão bem-desenhados eram os músculos.
“É, é só...!”
Tirando ela de seus pensamentos nostálgicos, Leônia olhou para Varia.
Varia gaguejou, implorando para que ela não interpretasse mal.
“Quer dizer, eu só quis estudar músculos, então o duque deixou eu pegar emprestado por um pouco, só um pouco! Sério, só um pouquinho!”
Ela apressadamente acrescentou que pretendia devolver, mesmo que no fundo estivesse tão absorvida que esqueceu disso totalmente.
“Seu pai...?”
Leônia piscou, olhando alternadamente para o dicionário e para Varia.
Quanto mais ela via, mais culpada Varia ficava.
“...Estou maluca.”
Leônia exalou pelo nariz, quase que em uma irritação silenciosa. A maneira como ela puxou a franja com uma mão foi um sinal da sua frustração.
Varia imediatamente se arrependeu de tudo.
‘Não devia ter pegado emprestado.’
Ferio e Leônia eram pessoas tão gentis, generosas.
Elas tinham a acolhido, mesmo ela tendo aparecido do nada. Por causa delas, ela tinha criado uma confiança profunda nelas.
Mas, por mais próximas que tivessem ficado, existiam limites que ela não deveria atravessar.
E agora, Varia percebeu que pegar emprestado o dicionário tinha sido exatamente esse limite.
Leônia tinha desenhado aquilo como um presente valioso para Ferio. Uma estranha como ela não deveria estar segurando aquilo.
Era totalmente justificável ficar irritada.
“Isso foi feito há três anos!”
Leônia retrucou, visivelmente irritada.
“O que ★ 𝐍𝐨𝐯𝐞𝐥𝐢𝐠𝐡𝐭 ★ vou fazer com essa bagunça porca agora?!”
“...Huh?”
Atordoada pela direção inesperada da sua raiva, Varia pisca lentamente, meio boquiaberta.
“Varia-chan, eu desenhei isso quando ainda era criança, então fica super bagunçado.”
“N-não, é incrível!”
Varia balançou a cabeça fortemente, insistindo.
Nunca tinha visto desenhos tão bem feitos assim. Os músculos pareciam que poderiam saltar da página a qualquer momento.
“Não, não é.”
Leônia parecia mortificada.
“Eu tinha nove anos, e isso é uma bagunça. As curvas dos músculos e a flexibilidade estão completamente ausentes.”
“...”
“Agora que olho de novo, está péssimo.”
Ela não acreditava que tinha deixado alguém ver aquilo.
“Meu pai é sério irritante.”
A irritação de Leônia se voltou para Ferio.
“Fica aí.”
Ela pegou o dicionário de volta e saiu de fininho, indo para algum lugar.
Deixada sozinha, Varia ficou boquiaberta, meio zonza. Ainda não entendia direito o que tinha acabado de acontecer.
Porém, uma coisa ela tinha certeza: Leônia na verdade não estava brava com ela.
Varia finalmente respirou fundo, aliviada.
“Vou te emprestar esse aqui.”
Leônia voltou, entregando um livro diferente.
“Esse aqui é muito bom.”
Ela sussurrou, como alguém vendendo algo proibido numa rua escura, com um sorriso malicioso no rosto.
Naquele momento, Varia se perguntou sinceramente se a estabilidade mental daquela criança adorável não era mais importante que o futuro do Império.
“O que é?”
Mesmo assim, ela não conseguiu deixar de olhar para o livro. Sua voz saiu cautelosa ao perguntar.
Como alguém que tinha acabado de descobrir o que há de mais belo nos músculos, ela tinha uma sensação.
Pelas conversas até ali, aquilo ia ser algo gigantesco.
“É a versão mais recente.”
“A nova...”
Varia engoliu seco. Não precisava perguntar que tipo de novidade era aquela.
Suas mãos pálidas seguraram o livro com reverência. De jeito nenhum ela pegaria aquilo de qualquer maneira, com uma só mão.
Para ela, aquele encadernado vermelho parecia algum livro antigo e de valor inestimável.
“Você não vai dormir mais à noite, unnie.”
Leônia sussurrou como uma vendedora de rua obscura oferecendo produtos proibidos.
Heheheh—sua risada silenciosa só aumentou a expectativa de Varia.
"Eu especialmente recomendo essa parte."
De repente, Leônia soltou o tom formal e abriu a página marcada com um marcador.
Os olhos verdes de Varia se arregalaram, quase saltando das órbitas.
“G-Graças a Deus...!”
A ilustração na página aberta da nova edição nem se comparava ao que Leônia tinha desenhado aos nove anos de idade.
“Incrível, né?”
“A senhorita, você vai pro inferno...”
Varia comentou, com preocupação genuína, mas seus olhos nunca saíram do livro.
“Já estou lá. Há dois anos. Está tudo bem.”
Leônia bufou.
Ela já tinha sobrevivido ao inferno que era o orfanato por dois anos inteiros. Comparado a isso, esse nível de depravação era praticamente algo saudável.
Nenhum inferno poderia superar aquele lugar.
Leônia generosamente emprestou a nova edição a Varia, que a recebeu como se fosse um tesouro inestimável, ficando desajeitada, mexendo as mãos como se não soubesse bem o que fazer com elas.
“O duque vai ficar decepcionado comigo...”
Varia murmurou, miserável.
“Sou alguém que ele está ajudando. E, ainda assim, fico aqui, encarando os músculos dele com esses olhares pervertidos. Que horrível que eu sou.”
“Eu também sou filha dele, e faço a mesma coisa.”
Leônia declarou descaradamente, mandando ela jogar fora aquela coisa inútil que chamava de “conSCIÊN–CIA”.
“Só leia. Mergulhe comigo no mundo dos músculos.”
“O mundo... dos músculos...”
Varia engoliu em seco.
Leônia parecia radiante naquele momento—seus olhos brilhando com convicção enquanto agarrava a mão de Varia.
De alguma forma, só de olhar para ela, Varia conseguia imaginar Ferio.
Ela se lembrava vividamente daquele momento em que ele tinha rido e dito para ela não se apaixonar por ele.
Leônia sorriu orgulhosa e apertou mais ainda sua mão.
“Você tem potencial, unnie.”
“E-eu? Como assim?”
Varia hesitou.
“Desde a primeira vez que te vi, eu soube.”
Leônia apertou o antebraço algumas vezes, seu sorriso confiante ficando ainda maior.
Ela tinha percebido de imediato—lá quando Varia segurava o sorvete e ela pegou seu braço.
“Você faz treino, né?”
O braço dela parecia macio, mas estava cheio de músculo magro. Não era firmeza por fazer tarefas domésticas, era por treinamento dedicado.
“Muito bom.”
Pais que gostam de músculos, hein?
“Extremamente bom.”
E Varia começou a perceber Ferio.
“Perfeito de verdade!”
Leônia não conseguiu mais conter sua alegria e gritou de felicidade.
E, naquele momento, entendeu por que o romance original sempre foi chamado de “treinando na cama”.
Não era só porque “Os Varia da Fera Negra” era um livro para todas as idades.
Não—era por causa das preferências ocultas de Varia, que nunca entravam na história.
Era tudo sobre músculos!
Leônia teve uma revelação.
Era destino! Eu, uma viciada em músculos, me tornando filha de um pai musculoso! E Varia, descobrindo seu amor pelos músculos por minha causa!
Uma família unida pelos músculos.
Perfeito!
Leônia sentiu as lágrimas querendo surgir.
Uma família tão perfeita bem diante de seus olhos.
Ela renovou sua determinação.
Ela faria a Varia a sua mãe. Não importava o quê.
O dia em que seus pais começassem a “treinar juntos” na cama não estava distante.
***
...Ou talvez estivesse mais longe do que ela imaginava.
O mundo não se dobra facilmente à vontade nem mesmo do bebê mais feroz.
O plano de Leônia tinha encontrado um obstáculo.
“Então realmente é mais difícil para as mulheres ganharem músculos do que para os homens.”
Varia murmurou, refletindo profundamente sobre o dicionário que Leônia lhe emprestou.
Ela segurava o livro numa mão, com a outra suavemente massageando sua barriga lisa.
De seus lábios rosados saiu um sussurro suave, “Será uma diferença biológica...”
“Você ainda consegue, se tentar!”
A pequena e cor-de-rosa feraz não desistia.
Movida pela paixão incansável de Varia, Leônia acenou com a cabeça, mesmo que meio zonza.
“Aprendi muito com você, senhorita.”
Não devia ter ensinado ela...
“Acho que o que me chamou atenção nos músculos do duque foi a sinceridade do esforço dele.”
Não, unnie, você é idiota.
“O corpo dele reacendeu a chama da motivação que quase tinha se apagado em mim.”
Na verdade, mais que isso, acendeu a chama da vontade pervertida.
Leônia olhava com os olhos vazios, enquanto Varia ardia com uma determinação justa.
“Vou fazer o melhor nas tarefas que me deram—e, no pouco tempo que me resta, vou treinar meus músculos também!”
“Por favor, não...”
Leônia bateu a testa com a palma da mão.
Pela primeira vez, ela teve que admitir.
Seu evangelho dos músculos tinha falhado.
Ela não tinha criado uma discípula.
Ela tinha despertado um monstro.