
Capítulo 156
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
"É um vestido antigo, mas com alguns ajustes ainda deve dar para usar."
“Uau....”
“Meu Deus....”
Leonia e Varia suspiraram uma após a outra.
Tra sorriu calorosamente enquanto observava as duas admirando os vestidos que acabara de tirar do armário.
“O Mestre disse que esses pertenciam à senhora da geração anterior à nossa.”
“A geração anterior...?”
Leonia franziu o cenho.
“Ou seja, a avó do Mestre.”
“Ah, o relógio da sala de estar!”
Só depois de ouvir a explicação de Tra Leonia percebeu exatamente quem era a dona do vestido.
Havia um grande relógio no patrimônio do norte que não funcionava porque faltava um mecanismo de mola.
Aquele relógio tinha sido um presente para o antigo duque — da geração anterior à nossa — o bisavô de Leonia.
O que significava que aquele vestido havia pertencido à esposa excêntrica daquele bisavô, sua bisavó.
Ao menos, o vestido tinha cerca de sessenta ou setenta anos. Mesmo somando as idades de Leonia, Varia e Tra, o vestido ainda seria mais velho.
No entanto, os vestidos estavam tão bem conservados que os anos mal deixaram marcas.
Você poderia caminhar com um deles na praça agora mesmo e ninguém teria o que rir.
“Na verdade...”
Leonia fixou o olhar intensamente em um vestido em particular.
“Estes são melhores que as roupas que as pessoas usam hoje em dia.”
Um vestido chamou especialmente sua atenção — parecia que alguém tinha cortado o céu estrelado à noite e costurado em um vestido.
Ele mostrava a silhueta do corpo sem parecer vulgar, e embora cobrissem do pescoço aos braços, não parecia abafado de jeito nenhum.
Porém, o destaque mesmo era a saia.
'Seria feito no Oriente?'
Do lado direito da saia, havia uma fenda ousada até a coxa.
Ferio tinha alertado categoricamente Leonia uma vez que, se ela usasse um vestido com fenda dessas do Oriente, não haveria fala de herança — ele a expulsaria na hora.
'Quem sabe eu use um dia.'
Ela era uma menina travessa que sempre queria fazer a coisa que seu pai dizia para não fazer.
“O Mestre deu esses vestidos para Varia.”
“Como assim?”
“Fala de novo?”
Leonia e Varia ficaram ambas chocadas com as palavras de Tra.
Não foi emprestado — foi presente.
A pequena criatura e a governanta ficaram tão surpresas que não conseguiam falar.
Mesmo sendo antigos, esses vestidos valiam muito mais que qualquer coisa na moda atual.
E, no entanto, a mensagem de Ferio, transmitida por Tra, não terminou aí.
“Ele também pediu desculpas por não ter conseguido preparar roupas novas.”
“M-Mas isso é...!”
Varia balançou a cabeça, nervosa.
“Isso é demais para alguém como eu.”
Ela se sentia completamente sobrecarregada. Uma simples tutora indo a um baile com um vestido que já pertenceu à ex-dona Voreoti?
Só de imaginar aquilo, um calafrio percorreu sua espinha. Os rumores ★ 𝐍𝐨𝐯𝐞𝐥𝐢𝐠𝐡𝐭 ★ se espalhariam como fogo — sem dúvida alguma.
Mais do que causar escândalo, seria melhor simplesmente comprar algo pronto.
Além disso, ela não acreditava que algo tão bonito combinaria com ela, de qualquer jeito.
“Vou aceitar a gentileza. Já tenho alguns acessórios.”
“De jeito nenhum...”
“Foi o que ela disse, né?”
“Não — ela precisa usar.”
Porém, os pensamentos de Leonia eram bem diferentes.
“Maninha, usa esse aqui!”
Leonia empurrou o vestido preto que segurava à sua frente.
“Eu tinha pensado em guardar para mim, mas vou te dar!”
A pequena traquina tinha pensado numa ideia brilhante.
***
Leonia imediatamente chamou o Barão Theon para a propriedade.
A garota colocou na mesa o vestido que trouxera do armazém.
Sob as luzes fortes, o vestido preto parecia ainda mais impressionante. Até Tra, que assistia ao lado, soltou um “Nossa”.
“Que obra-prima!”
Naturalmente, o barão Theon, que entendia de moda, quase desmaiou.
Seus olhos brilhavam com entusiasmo.
“Minha bisavó usou esse vestido.”
Leonia explicou brevemente a origem do vestido.
“Que preciosidade.”
“Acha que ainda dá para usar ele assim mesmo?”
“Com certeza! Está tão bem conservado que quase não precisa de reparos.”
Com um pequeno óculos apoiado no nariz, Barão Theon examinou cuidadosamente o vestido.
Para evitar contaminações, usou luvas e cobriu boca e nariz com um lenço.
Tratou o vestido como uma joia inestimável.
Que, de fato, era — realmente único no mundo.
“Isso claramente segue uma tendência antiga”, comentou o barão ao analisá-lo.
“Cerca de sessenta anos atrás, os vestidos ao estilo oriental estavam na moda. Era tendência que os vestidos fossem justos ao corpo e mostrassem uma perna.”
“Não tinha alguma para homens?”
“...Desculpa?”
“Brincadeira.”
Leonia deu uma pausa casual, fingindo que tinha feito um comentário sem querer.
Talvez, mais tarde, ela faria um vestido assim e tentaria convencer o pai ou algum dos cavaleiros a experimentá-lo.
“Mas se esse estilo é antigo assim...”
Varia, que observava nervosamente ao lado, interveio cautelosamente.
“Não ficaria estranho usar agora?”
“De jeito nenhum.”
Expressão séria do barão Theon mostrou sua opinião.
Varia apertou os olhos, nervosa.
“É uma peça clássica que foge de tendências.”
Normalmente, as pessoas evitavam fazer vestidos pretos.
Não só porque preto era símbolo de Voreoti, mas porque poucas eram as que tinham talento para segurá-lo.
Salvo na roupa de luto, usar vestido preto em um baile glamouroso era uma decisão ousada.
Porém, este vestido antigo superou todas as desvantagens do preto.
Seu tecido cintilante brilhava ainda mais sob as luzes.
Era feito de seda oriental especial, tratada para refletir luz. A costura que tocava a pele era macia e respirável.
Assim, mesmo cobrindo desde o pescoço até os pulsos, não tinha sensação de aperto. As mangas eram na medida certa, elegantes e refinadas.
“A parte de baixo é o verdadeiro destaque.”
O barão Theon elogiou a fenda na saia.
A longa peça que se desenhava como água era marca do estilo oriental.
“Você consegue ver esse padrão?”
O barão Theon levantou cuidadosamente a orla. Sob as luzes, algo se moveu na saia preta.
“...Um dragão?”
Leonia murmurou surpresa.
“Será que é um vestido de uma mulher bandida?”
“‘Bandida’?”
Varia inclinou a cabeça, sem entender o termo. Leonia rapidamente fez um gesto para esconder o deslize.
“Não é um dragão. É um padrão de onda,” esclareceu o barão Theon.
Ele balançou um pouco mais a saia. Então, o padrão oculto se revelou: uma onda prateada sutil embutida no tecido.
Não pôde deixar de elogiar a perfeição do trabalho artesanal.
“Você consegue fazer algo assim?”
Leonia perguntou.
“Eu não posso.”
O barão Theon admitiu sem rodeios.
“Duvido que alguém na capital consiga fazer algo assim hoje em dia.”
“Como esperado do legado Voreoti”, completou em admiração.
“Então, quem vai usar esse vestido?”
Ao questionamento, Leonia e Tra apontaram juntos para Varia.
“Eh, como eu chamo ela então?”
“Minha mãe.”
Leonia deu uma risadinha, abraçando a cintura de Varia.
“O duque se casou de novo?”
O óculos do barão Theon escorregou do nariz, surpreso.
“Não, não!”
Varia rapidamente fez sinal de negação com as mãos.
“Ele... me faça ser minha mamãe.”
Leonia tremeu o corpo, com uma voz quase de choro de brincadeira. Varia, pálida, estremeceu no lugar.
“Senhorita Leonia! Se continuar assim, o duque vai me matar!”
“Na cama?”
“Vou mesmo contar para o duque!”
Com o rosto corado de vergonha, Varia usou sua última carta: só então, Leonia fez uma cara emburrada e soltou-a.
Recuperando o fôlego, Varia olhou para o barão Theon, com um olhar de súplica.
“Por favor, deixe parecer... normal.”
“Normal? Que absurdo.”
Leonia entrou de repente.
“Deixe ela ser a estrela mais brilhante daquele baile.”
“Sem dúvida.”
O barão Theon assentiu solenemente, como um cavaleiro recebendo uma missão do seu senhor.
“Entendido!”
“Ah, minha querida Leonia...”
Varia se contorceu de preocupação.
“Não estou brincando.”
Leonia colocou as mãos nos quadris e falou com uma voz séria.
“Você vai para esse baile com meu pai.”
Ela não fazia isso para zombar ou envergonhar Varia.
“Você vai ficar na frente de todos os nobres e mostrar que decidiu ficar do nosso lado.”
Somente os nobres mais nobres recebiam convites para bailes imperiais.
E Varia iria com Ferio. Ela não podia usar um vestido pronto e sem acessórios.
Ela precisava estar perfeita.
Precisavam ver o quão deslumbrante Varia ficaria ao lado de um Voreoti.
“Você não queria retaliar sua família?”
“......”
“Então, mostre a eles. Mostre como sua vida é maravilhosa sem eles!”
A pequena criatura apontou com entusiasmo para o vestido.
“Pare de reclamar e use logo!”
O rosnado de Leonia fez Varia estremecer. A tensão, vindo de um corpo tão pequeno, era avassaladora.
Mas, ao invés de medo, Varia sentiu-se... apoiada.
“Voreoti está do seu lado!”
Cada palavra confiante da menina a fortalecia.
No final, Varia baixou a cabeça em sinal de respeito profundo. Suas mãos, quase entrelaçadas na frente, tremiam levemente enquanto lutava contra a onda de emoções.
Um silêncio pesado se instaurou.
“Senhorita Leonia.”
Varia se curvou ainda mais.
“Então... usarei bem.”
Ela finalmente agradeceu — de coração, sinceramente.
“Você ouviu, barão?”
Leonia sorriu de orelha a orelha.
“Vou pagar qualquer coisa! Certifique-se de que fique perfeito nessa moça deslumbrante!”
***
Após resolver a questão do vestido de Varia, tudo prosseguiu sem problemas.
Depois de medir Varia, o barão Theon saiu rapidamente para sua boutique.
Como se estivesse esperando por isso, Tra imediatamente começou a ordenar aos servos. Eles organizaram uma vasta gama de joias e acessórios sobre a mesa.
“O-Que é tudo isso?”
Varia franziu o cenho.
O brilho intenso de tantas joias à sua frente machucava seus olhos.
“São presentes do Mestre para você, Senhora Varia.”
“A-todas essas?”
“Ele achou melhor você não sair antes do baile, por isso comprou tudo nas joalherias do praça.”
Tra também a encorajou a escolher sem se sentir pressionada.
Porém, Varia sentia-se tensa demais. Suas mãos tremiam no ar, incapazes de tocar em uma única peça.
“Tra, o papai comprou alguma coisa pra mim?”
Leonia perguntou, fazendo biquinho. Tra a olhou com meio sorriso.
“O duque está pressurizando a oficina para acelerar a finalização do seu relógio.”
“Bah, que pai chato...”
Incomodada, Leonia chutou o chão, expressando sua frustração.
Porém, logo voltou ao normal, escolhendo cuidadosamente cada peça para combinar com Varia, decidindo o que mais a favoreceria.
“Como o vestido é preto, a joia deve ser sem cor — prata ou branco...”
Leonia escolheu alegres as joias e começou a cantar pra si mesma, sem perceber.
No fundo, ela sabia que era sempre mais divertido escolher algo para alguém do que para si própria.
Agora ela entendia por que as criadas sempre pareciam tão ansiosas para vestir ela.
Varia, por sua vez, ficava pálida toda vez que as joias se aproximavam da pele dela.
Mas ela não podia permitir que o nome Voreoti fosse manchado.
Não por ela — mas por aqueles Voreoti que a ajudaram — ela se forçava a suportar a culpa e a pressão.
“O que acontece com o resto depois que escolherem as joias?”
Varia perguntou a Tra, que as observava juntas.
“Vamos devolver, certo?”
“Não existe devolução na palavra do Voreoti.”
Tra respondeu firme.
“Exatamente — nada de devoluções!”
Leonia concordou orgulhosa.
“Mas se alguém tentar usar o nome Voreoti para enganar... bem, eles não precisarão mais da vida depois disso.”