
Capítulo 122
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
O conselho de Lupe era sincero.
“Assim como no último surto, é honestamente um milagre ninguém ter morrido.”
As Presas da Fera não eram um fenômeno inofensivo — podiam matar. E Leonia já tinha causado dois incidentes com elas.
“Se realmente tivesse havido vítimas fatais...”
O pensamento por si só era aterrorizante.
Lupe, que brevemente elevou a voz, acabou por silenciar-se no final.
Ele também não queria que a jovem sofresse mais do que já havia sofrido.
E não era só Lupe — a maioria de quem servia na Casa Voreoti compartilhava essa sensação.
A pequena cria de besta que trouxe calor de volta a essa terra dura no norte era preciosa para todos vocês.
“...Peço desculpas.”
Lupe abaixou a cabeça por ter reagido de forma tão forte.
“......”
Ferio não disse nada e olhou pela janela.
Ele tinha os mesmos pensamentos.
Expressão refletida no vidro escuro, profundamente solene. Ao vê-la, Lupe não se atreveu a falar mais.
“Como está a jovem senhorita?”
“Ela está dormindo.”
Leonia estava no quarto de Ferio. Com os funcionários feridos ou inconscientes, ele a trouxe para seu próprio quarto e a colocou na cama pessoalmente.
Para garantir que ela não acordasse assustada, colocou na mesa de cabeceira o pote de balas que ela vinha guardando e o chapéu que ela recebeu de presente.
No sono, ela segurava firmemente o peluche de leão.
“A propósito, esse poder...”
Incomodado com o clima pesado, Lupe massageou o rosto e mudou de assunto.
“Você também sentiu o mesmo, Sua Graça?”
“O que quer dizer?”
“Quero dizer, as Presas da Fera.”
Segundo o que sabem, esta foi a primeira vez que Leonia manifestou completamente as quatro presas.
Ela nunca tinha conseguido evocar nem uma antes, mas após uma explosão emocional, congelou toda a entrada da residência principal.
Agora, com as quatro presas manifestadas, o dano se espalhou por toda a propriedade — não apenas pelo anexo.
“Eu não cometo erros.”
Ferio respondeu imediatamente.
“Nunca tive.”
O único momento em que duvidou de si mesmo, se é que pode chamar assim, foi ao questionar se seus métodos de treinamento de Leonia eram realmente corretos.
“Ah, certo...”
De surpresa pela resposta séria de Ferio, Lupe ficou sem argumentos.
A atmosfera, felizmente, se aliviou um pouco.
Afinal, Ferio nunca havia cometido erro algum ou falhado em algo.
Ele tinha evocado suas presas pela primeira vez em uma idade ainda mais jovem que Leonia. E nunca, jamais, perdeu o controle.
“O poder dela é mais fraco que o meu.”
Ferio, reconhecido como o duque mais forte da história Voreoti, analisou com frieza ★ 𝐍𝐨𝐯𝐞𝐥𝐢𝐠𝐡𝐭 ★.
“Mas ainda assim, é poderoso o suficiente.”
Em termos de força bruta, ela superava Regina —e até o pai de Ferio, o antigo duque.
Considerando sua pouca idade, quando a força das presas geralmente era mais fraca, Leonia era inegavelmente poderosa.
O problema era que ela não conseguia controlá-lo.
Justamente como Lupe dissera antes, este já era seu segundo grande incidente.
Preciso mudar seus métodos de treinamento.
Até agora, o treinamento dela focava em provocar a saída das presas e fortalecer a força.
Mas, a partir de agora, o foco deve ser dominar esse poder — usá-lo à vontade.
Os sentimentos de Ferio eram complicados.
Ele se orgulhava de Leonia ter completado suas Presas da Fera.
Por outro lado, odiava que tudo tivesse acontecido por causa daquela mulher — e que a criança tivesse decidido matar alguém com elas.
Ela tinha a intenção de matar.
Nesse momento, ele viu isso com clareza.
Leonia tinha pretendido matar Saura com suas presas.
Estritamente falando, os danos causados aos funcionários da propriedade não foram por causa das presas em si.
Foi pela intenção de matar transbordando delas.
A profundidade da ferida deixada pela traição da pessoa em quem mais confiava — “Connie” — foi tão grande que ficou impossível ignorar.
Ferio sentiu uma dor ao perceber que alguém tão jovem pudesse já ter uma determinação dessas.
Como duque Voreoti, é uma força da qual deve se orgulhar...
Mas, como pai, isso machuca.
Eventualmente, Leonia precisaria acompanhá-lo em caçadas a monstros. Quando esse momento chegasse, quer ela goste ou não, ela teria que matar um monstro vivo com suas próprias mãos.
As obrigações de ser Duque Voreoti incluíam a necessidade de tirar vidas para proteger os outros.
“Haa.”
Sua cabeça latejava.
Tentando afastar os pensamentos confusos, encostou a testa suavemente na janela.
“...Está nevando.”
Flocos de neve brancos caíam em densas congregações.
“Final de outono,” disse Lupe, seguindo seu olhar.
A primeira neve do Norte sempre chega no final do outono.
E agora, faltavam apenas nove dias para o aniversário de Leonia.
___
No dia seguinte.
O sol já tinha nascido...
Leonia soltou um bocejo gigante, quase abrindo as bochechas.
Ela esfregou os olhos quase fechados e, com dificuldades, ergueu-se, parecendo um desastre.
Cabelos, completamente bagunçados, parecendo um ninho de pardal; olhos inchados e avermelhados, quase não conseguindo mantê-los abertos.
Seu corpo suava bastante, graças à sua temperatura naturalmente alta.
...O papai não está aqui.
A pequena mão dela buscou o espaço vazio ao seu lado.
Ah, é isso mesmo.
Leonia pisca lentamente.
Este é o quarto do papai.
Depois dos acontecimentos de ontem, Ferio a trouxe para seu quarto para dormir.
Ele até se certificou de trazer o peluche de leão para ela abraçar, o pote de balas de morango e o chapéu que ganhou de presente — todos colocados cuidadosamente na mesa de cabeceira.
Enquanto ela demorava seu olhar nesses itens, seu olhar vagava lentamente pelo cômodo.
O quarto de Ferio era vago.
Só tinha uma cama grande e uma mesinha com uma única cadeira perto da janela. Nada mais.
Estar sozinha naquele espaço parecia estranho para Leonia.
Era como assistir ao frio duque do Norte devorar sopa quente enquanto grita “Muito quente! Huff, assopra, bebe!” — estranho e estranho.
Haha, isso até que é engraçado.
Rindo internamente, Leonia encolheu-se e abraçou silenciosamente o peluche de leão.
“......”
Naquele silêncio repentino, lágrimas começaram a se formar nos cantos dos olhos dela.
“Não chore...!”
Ela esfregou o rosto furiosa e irritada.
Ela não queria chorar por algo assim.
Ser ludibriada — essa ela aguentava. Mas ser levada sem jeito pela traição? Isso ela recusava.
Mesmo assim...
Ela não sabia o que fazer com a dor vazia no peito.
Saura — não, “Connie” — tinha sido a primeira pessoa de quem ela tinha dependido neste mundo.
Leonia, que estava vivendo uma vida comum antes de cair no inferno de repente, tinha ficado aterrorizada e miserável.
Ela até pensou em acabar com a própria vida, incapaz de conciliar seu interior com o que tinha se tornado.
Para falar de forma brutal, ela quase perdeu a cabeça. Ficou completamente louca.
O que a ajudou a se segurar naquele inferno foi a bondade de Connie.
Porém, tudo — cada pedaço — tinha sido uma mentira.
Ela tinha assassinado a mãe biológica de Leonia. E, se isso não fosse suficiente, ela também a enganou.
Ela ainda havia alimentado e criado os outros com dinheiro obtido por tráfico de humanos.
Apenas pensar nisso dava ânsia novamente.
Toc, toc.
Leonia, prestes a ser engolida pela tristeza, foi trazida de volta por uma batida na porta.
“Leo.”
Ao som, Leonia fraca virou a cabeça.
“Você acordou?”
Encostado na porta semiaberta, Ferio bateu levemente na parede com o punho.
“Papaaa...”
Leonia murmurou.
“Você deve estar cansado.”
Ferio estendeu o braço, chamando-a. Leonia hesitou por um momento, depois se arrastou até lá com passos desajeitados.
“Você está machucada?”
Observando sua aproximação incerta, Ferio perguntou sério.
“Non... ”
“Então talvez seja febre.”
Sua mão grande repousou na testa dela.
Ele sentiu um leve calor, mas era difícil saber — Leonia sempre tinha mais calor que ele, e acabara de acordar.
“Diga se algo estiver doendo.”
Ferio disse enquanto colocava um manto de casa sobre os ombros dela.
“Quer comer?”
“Não estou com vontade.”
“Só um pouco, vai.”
“Mhm.”
Ferio, agora segurando a criança nos braços, a olhou com um olhar indecifrável e começou a caminhar.
Porém, não seguiram para a sala de jantar habitual.
“A cozinha?”
Sentada numa cadeira, Leonia olhou curiosa ao redor da cozinha.
A cadeira era aquela de refeição especial dela, trazida da sala de jantar. Ferio a preparou com antecedência.
A cozinha, que normalmente fervilhava com os cozinheiros, agora estava silenciosa, sem ninguém à vista.
“A equipe está de folga.”
Ferio disse, de costas, ocupado preparando algo com as mãos.
“Ah...”
Leonia gemeu suavemente, sensação de culpa surgindo.
Todos os funcionários estavam de licença médica por causa das Presas da Fera.
“Connie e Mia também?”
Ela perguntou, mexendo no seu peluche de leão.
“Sim.”
“E os cavaleiros?”
“Estão bem.”
Os Cavaleiros Gladiago desenvolveram resistência às Presas da Fera após inúmeras caçadas a monstros com Ferio.
Além disso, sua resistência superava a de pessoas comuns, então ninguém sofreu ferimentos graves.
Os cavaleiros em treinamento e escudeiros estavam treinando em outro lugar e não foram afetados.
Em breve, Ferio apresentou uma tigela de sopa rala.
“Não posso garantir que esteja gostosa.”
“Você fez isso?”
Leonia arregalou os olhos surpresa com a sopa à sua frente.
Ferio sentou-se ao lado dela após reservar uma porção para si.
As cadeiras da cozinha eram pequenas para um homem de seu tamanho, mas ele não demonstrou desconforto algum.
“Às vezes cozinho durante acampamentos em caçadas de monstros.”
Ele disse casualmente, como se fosse algo normal, explicando como às vezes preparava refeições para os cavaleiros.
Leonia olhou entre Ferio e a sopa, e depois colocou seu peluche na mesa, pegando cuidadosamente uma colher.
“...Está quentinho.”
Sinceramente, não tinha muito gosto.
Estava mal temperada. Ela olhou para Ferio, que também parecia descontentes, com as sobrancelhas franzidas.
Provavelmente, ele tinha colocado muita pouca água para amenizar o sabor para ela.
Mas isso só significava que tinha feito pensando nela.
Até os ingredientes estavam finamente picados — claramente feitos à mão, para facilitar na hora de comer.
“Está delicioso...”
Leonia fungou.
“Muito bom...!”
Ela elogiou a sopa alto e começou a comer vorazmente.
Só de imaginar Ferio preparando os ingredientes e cozinhando na cozinha antes de acordá-la, ela se sentiu profundamente grata — e culpada.
“Coma devagar.”
“Mhm.”
“Experimente também isto.”
Ferio rasgou uma roda de pão que tinha colocado na cesta e mergulhou na sopa para ela.
Leonia comeu tudo.
Com o ventre aquecido, ela se sentiu significativamente mais energizada.
Com todas as empregadas de folga, Ferio mesmo molhou um pano para limpar seu rosto e penteou seu cabelo.
“Você é realmente bom nisso...”
Leonia admirou seu reflexo no espelho.
Seus cabelos, retocados e presos com cuidado por Ferio, pareciam arrumados o suficiente para sair.
“Sou boa em tudo.”
“Exceto na humildade.”
“Você sempre tem que levar a última palavra.”
Ferio deu um sorriso de canto de boca.
E Leonia sorriu de volta no espelho.
“Papai, hoje você não está trabalhando?”
Leonia perguntou, saindo de trás do biombo após trocar de roupa.
Ela vestia um vestido marrom sob medida nova e meias pretas grossas.
“Hoje é feriado.”
Com todos, exceto o pai e filha Voreoti, de licença médica, eles eram as únicas pessoas funcionais na propriedade inteira.
Portanto, naturalmente, Ferio também tirou folga nesse dia.
“Ah...”
Leonia abaixou rapidamente o olhar novamente, lembrando-se do motivo de todos estarem doentes.
“Estava planejando passar o dia inteiro com você de qualquer jeito.”
Percebendo seu deslize, Ferio deu uma risadinha desajeitada, dando uma palmada no ombro dela.
A criança, que parecia completamente abatida, lentamente ergueu a cabeça.
“Você quer saber mais, não é?”
Ferio ofereceu-lhe o peluche de leão.
“...Você vai me contar?”
Leonia perguntou, pegando o peluche.
“Sim.”
Ferio respondeu com um sorriso amargo.
“Porque é sobre você também.”