
Capítulo 116
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
“E-Eu vou fazer o meu melhor!”
“Vou me esforçar ao máximo!”
Inseréa, com a face corada, saiu correndo do escritório como se estivesse fugindo.
Estava agarrada firmemente em seus braços os desenhos de Leonia e o livro que Lupe lhe entregara com um quieto “Boa sorte”.
“Ela realmente é dedicada”, disse Lupe com um sorriso satisfeito.
“Idiota”, murmurou Ferio, franzindo as sobrancelhas.
Ele tinha percebido o olhar nos olhos de Lupe — e aquilo o incomodava. Era ridículo. Ferio não tinha interesse nas emoções pessoais de sua subordinada.
“Há dois Invernos atrás.”
Ao ouvir essas palavras, Lupe gelou.
“Você não se lembra de ter jogado a carta de amor de Inseréa na lareira?”
“I-Isso foi...”
Um frio estranho começou a escorrer por sua testa.
“Eu me lembro claramente de ouvir diversas vezes que aquela lareira me manteve aquecido o inverno inteiro.”
E agora, fazer cafuné nela como se nada tivesse acontecido?
Ferio o olhou com olhos que imploravam por pena. Tudo aquilo que Lupe tinha tentado fingir que não tinha acontecido cavava como uma faca em sua consciência.
Mesmo assim, Lupe tinha sua própria desculpa.
“Mas Inseréa te perseguia, não é!”
Na época, era óbvio para qualquer um que ela tinha errado.
Ela tinha até ido até a propriedade do Conde Rinne para pedir desculpas e se ajoelhou diante de Ferio.
“E ainda assim você queimou a carta.”
Você queimou uma carta na qual alguém colocou seu coração — só para se aquecer durante o inverno.
A ironia de Ferio era cortante, como um aviso gentil para Lupe de que, por mais que as coisas melhorassem agora, o que ele fez no passado não desapareceria.
Era quase uma violência.
Completamente derrotado, Lupe caiu de joelhos no chão, bravamente remexendo seus cabelos, frustrado.
“Se eu soubesse que ela era tão decente, não teria queimado!”
“Você falou de forma informal comigo.”
“Eu estava falando comigo mesmo!”
“Jesus, tudo ao meu redor é uma bagunça...”
Ferio suspirou, cansado da falta de pessoas sensatas na sua vida.
Se Leonia tivesse ouvido aquilo, ela diria que o maior desastre de todos seria o pai.
Mas, ultimamente, o bebê besta vinha moderando as coisas, graças ao ativo incalculável que era o Duque Voreoti.
Ela era, à sua maneira, uma filha muito dedicada.
“Vai chorar onde eu não possa te ver.”
Independentemente do que esses dois estivessem fazendo fora do escritório, Ferio não se importava.
Mesmo que acabassem se apaixonando e se casando — que assim seja.
O Duque de Voreoti não tinha interesse na vida pessoal de seus funcionários.
O que também significava que ele não era generoso o suficiente para ouvir suas dificuldades.
“O Conde Urmariti partiu para o Oeste.”
Por fim, Ferio explicou por que tinha dispensado Inseréa e mantido Lupe na sala.
“Regina virá.”
“Ah...”
Lupe, que acabara de se levantar, endireitou a postura.
O clima que antes era de confusão se tornara sério num instante.
“O Conde Urmariti pediu para enterrar a criança nas terras da família dele.”
“Entendo.”
“Dê a ele o apoio que precisar.”
“Vou cuidar dos preparativos.”
Lupe abaixou levemente a cabeça, com o rosto carregado de tristeza.
Regina sempre tinha sorriido com tanta luz.
Mesmo com a cabeça cheia de sonhos, ela trazia um sopro de vida calorosa ao castelo Voreoti.
Mas agora ela retornava como um esqueleto vazio — seus restos finalmente de volta à terra natal após anos.
“E a jovem...?”
“Eu lhe direi.”
A resposta curta de Ferio veio sem mais comentários, enquanto ele voltava a se ocupar de seus papéis.
“...Ela poderia simplesmente ter vivido bem após fugir.”
Voltar assim — qual seria o propósito? Ferio clicou a língua.
Com pesar, ele ainda sentia pouca emoção ou pena por sua prima.
Mas ao pensar em Leonia, seu peito apertava.
O que eu posso dizer para ela?
Ela agia como se tivesse vivido várias vidas, mas ainda era uma criança — com feridas no coração.
E o pior de tudo, os restos de sua mãe biológica foram descobertos perto do orfanato.
Só de imaginar como explicar aquilo já era uma tarefa difícil.
“Por enquanto...”
Ferio afastou esses pensamentos.
O que mais importava naquele momento não era isso.
“...A mãe de Leo era uma commoner.”
Ele murmurou baixinho.
Parece aleatório — mas Lupe entendeu imediatamente.
Ferio estava ordenando que ele inventasse a identidade e o histórico daquela mulher que, a partir de agora, seria oficialmente reconhecida como a mãe biológica de Leonia.
Isso também significava: alterar o relatório de falecimento de Regina.
É pelo futuro da jovem.
Foi uma decisão fria, mas Lupe fez seu julgamento.
Qualquer sentimento que tinha por Regina era secundário — sua existência só iria lançar uma sombra sobre a menina.
A decisão de Ferio era absolutamente correta.
Regina seria registrada como uma mulher que morreu jovem, vítima de uma doença, anos atrás, e Leonia se tornaria a filha ilegítima de uma mulher comum, sem nome e sem linhagem conhecida — impossível de rastrear.
O Duque é impressionante.
Lupe não pôde deixar de admirá-lo.
Chegar ao ponto de reescrever sua própria história privada pelo bem de Leonia — isso era surpreendente.
Um homem solteiro admitir um filho ilegítimo e abraçar o escândalo — que movimento ousado.
Eu jamais conseguiria fazer isso.
Até Lupe, que esteve ao lado de Ferio por anos, ficou impressionado com sua dedicação paternal.
“Vamos registrar a mãe como falecida?”
Lupe, agora recuperado, perguntou.
“Precisamos.”
Ferio concordou.
A história se encaixou rapidamente.
Uma mulher comum que ele conheceu por acaso havia entrado em contato, dizendo estar grávida. Quando ele procurou por ela, ela já estava morta, e a criança acabara em um orfanato.
Aquela criança era Leonia.
“Vou dizer que a amava muito.”
Ferio acrescentou um detalhe à narrativa.
Depois que Leonia o aprovou na última vez por ser um “pai decente”, decidiu limitar seus envolvimentos românticos.
Agora, o que mais queria era criar Leonia em silêncio e viver em paz.
Mas sabia bem — a vida dificilmente facilitaria isso.
Por isso, acrescentou na história aquela mulher comum que, no passado, tinha “amado”.
***
A maioria dos órfãos não tem uma data de nascimento exata.
Normalmente, no orfanato, a data de admissão é registrada como o aniversário oficial da criança.
O mesmo vale para Leonia.
Ela tinha sua data de nascimento marcada como início do outono.
Ela odiava aquele clima ameno — nem quente demais para as folhas vermelhas, nem frio demais para o verão.
Sempre ficava com raiva das professoras que a chamaram de nome de prostituta, e isso aumentava seu desejo de escapar daquele lugar.
Mas agora... era diferente.
Faltam dez dias.
Leonia cantou enquanto mexia no pequeno calendário na sua mesa.
Quase meu aniversário!
Animada, esticou os braços e balançou o corpo de um lado para o outro.
Será o primeiro aniversário que ela realmente aguardava desde que chegou neste mundo.
Ferio tinha dito que fariam do dia em que se conheceram seu aniversário.
Leonia tinha concordado com entusiasmo.
Mesmo ainda sendo outono — mas o dia em que se encontraram tinha sido no final do outono, quase inverno.
Ela estava cada vez mais ansiosa para seu primeiro aniversário na Casa Voreoti.
O pai ia me dar algo inacreditável, tenho certeza, né?
Só de imaginar o que poderia ser, já sentia uma alegria enorme.
No ano passado, ela ficava preocupada se ia conseguir comer, ou se teria água quente para o banho.
Propriedade minha? Pedras preciosas?
Um sorriso ganancioso e brilhante se espalhou pelo rosto de Leonia.
Era exatamente a mesma expressão que Ferio uma vez chamou de “sem vergonha”.
“Senhorita.”
Justamente neste momento, Connie entrou na sala — com Mia ao lado dela.
“A carruagem já está pronta.”
“Vamos?”
“Vamos!”
Leonia pulou na direção delas.
A cada passo, suas duas tranças pretas pulavam como orelhas de coelho.
“O clima no Norte com certeza é frio,” disse Connie, cuidadosamente colocando um capote sobre Leonia.
O capote preto, com acabamento de algodão branco macio, combinava perfeitamente com ela.
A capital ◈ NoveligHt ◈ (Continuar lendo) que havia estado abafada dias atrás, ao passar pelo Portão e chegar ao Norte, o ar virou bem mais fresco.
Aqui, o clima fica frio logo no início do outono.
As folhas já mudaram de cor, e até as horas de luz do dia diminuíram.
Leonia trocou suas roupas de verão sem mangas e de manga curta por roupas de manga comprida.
“Para onde você vai brincar?” perguntou Mia enquanto alisava as dobras do capote.
Leonia inflou as bochechas.
“Eu não vou brincar!”
A pequena besta soltou um rugido feroz.
Ela pretendia visitar a praça e procurar ideias para desenhos de relógios de pulso.
“Isto é trabalho sério.”
Ela mostrou o caderno e a caneta tinteiro que tinha separado.
Leonia achava que estava muito profissional — mas Connie e Mia ainda a viam como um pequeno filhote adorable.
“Leo.”
Ferio se aproximou na hora. Atrás dele, estavam Lupe e Probo.
“Vão sair?”
“Vou trabalhar na praça.”
Leonia se gabou com orgulho.
“Pfft!”
Probo quase caiu na risada, mas Lupe lhe deu um cotovelo forte nas costelas para impedir.
Uma surpresa estranha saiu da sua boca, como um gemido de dor.
Leonia olhou desconfiada para a cena.
“Pai, o Probo oppa acha que eu trabalhar é hilário. É por isso que o tio Lupe enfiou o dedo nele na barriga.”
“Aquela criança vai levar uma facada no belly com a minha espada também.”
Ferio falou calmamente, enquanto dava um nó na conversa.
Probo soltou um último grito de aflição.
Lupe o olhou com aquela expressão de “Eu avisei”.
“Não trabalhe demais,” disse Ferio, ajoelhando-se para conferir se o capote dela estava bem ajustado.
“Nós não fazemos hora extra na Voreoti.”
“O tio Lupe trabalha hora extra o tempo todo.”
“Sempre há exceções.”
Lupe soltou uma lágrima invisível por si mesmo.
Parecia que água quente poderia escorrer de seus olhos a qualquer momento.
Probo deu tapinhas nas costas dele em sinal de solidariedade.
“Volto logo!”
Leonia deu um beijo no rosto do pai. Ferio retribuiu, beijando a bochecha dela também.
Só após embarcar na carruagem que desapareceu pelos portões do palácio, Ferio se virou.
“Sir Elephan.”
“Y-Yes!”
Probo, que tinha acabado de receber a condenação à morte, fez uma careta de medo.
“Acredito que há uma seringa enviada pelo Marquês Ortio.”
O nobre do Oriente era conhecido por valorizar muito seu marido — que, por acaso, tinha como hobby fazer poções.
Recentemente, Ferio pedira alguns prisioneiros da masmorra como uma “surpresa” para o marido.
Em troca, enviaram-lhe uma poção como sinal de boa vontade.
“Quer dizer... o soro da verdade?”