
Capítulo 14
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
"Não é baba. É lágrima de emoção."
"Então, o que é essa água que escorre dos seus olhos?"
"Água salgada. Tenho o mar nos olhos."
Haveria um mar de sangue nos olhos daqueles que não escutam. Leonier, tão empolgada, tagarelava descontroladamente, sem sequer entender direito o que dizia. Ela simplesmente enlouquecia de tanta felicidade por estar diante de uma beleza física tão extraordinária, bem ali na sua frente.
Os Cavaleiros caíram na risada com aquela cena impressionante.
Embora não fosse tão evidente, os cavaleiros acreditavam em duas coisas: que Leonier havia sido adotada de um orfanato e que havia circulado o boato de que ela era filha ilegítima de Felio.
Portanto, eles sabiam o quão precária era a condição de Leonier quando ela chegou pela primeira vez à residência do Duque. Os cavaleiros que conduziram a operação na ocasião até testemunharam seu estado pessoalmente, e por isso tinham ideia do quão sério era.
Por isso, ficavam muito felizes ao ver o sorriso radiante da criança, que agora parecia tão saudável.
'Talvez esse sorriso não seja exatamente brilhante, mas…'
Melace soltou uma risada amarga, dizendo que nenhuma criança de sete anos ficaria tão empolgada com músculos assim.
Claro, era tão adorável e encantador que ela foi perdoada. E os outros cavaleiros pareciam gostar também, pois fossem elogiados por seu esforço.
"……"
Alguns passos adiante, Felio observava Leonier. Enquanto se reunia com os cavaleiros seniores para discutir a caça de monstros, sentiu uma certa satisfação ao ver sua filha sorrindo e se divertindo. Ao notar como ela se dava bem com os adultos novos, percebeu que ela nasceu com uma habilidade social natural — diferente dele. No começo, ela nem chorava na frente dele, então era esperado que fosse assim.
"Os cavaleiros também ficam felizes por ter você, Senhora."
Felio virou a cabeça.
"Como esperado, ter uma criança anima o ambiente."
Um dos Cavaleiros, de meia-idade, sorriu ao falar. Juven, o mestre de esgrima de infância de Felio, tinha cabelo grisalho. Ele era um dos três mestres de espada da Ordem Gladigo.
Não só ele, mas também outros cavaleiros veteranos olhavam para Leonier com olhos calorosos e felizes.
"Aliás, ela já colocou seu nome na lista do inimigo da família?"
"Se for para fazer isso, não seria melhor fazer logo?" Juven perguntou.
"Já está feito."
Todos ficaram surpresos com a rapidez de Felio, mas trocaram olhares como se já esperassem isso acontecer. Felio, que olhava para Leonier com um olhar sério, abriu a boca.
"Seus filhos são assim?" Felio perguntou aos cavaleiros ao seu redor. Metade dos cavaleiros mais experientes eram casados e tinham filhos. Os cavaleiros se encararam mais uma vez.
"O que quer dizer com ‘assim’?"
"Ela é muito entusiasmada com esses músculos."
Demostrando seu sério incômodo, os cavaleiros veteranos, incluindo Juven, riram baixinho.
"Nessa idade, as crianças gostam de ver coisas estranhas pelos olhos dos adultos. Até meus filhos eram obcecados com coisas bizarras. Era alguma coisa, tipo, embalagens de biscoito?"
"Minha filha coleciona pedras dentro do seu baú de tesouro."
"Que caixinha mais fofinha. Meu filho mais velho tem um corpo de inseto—"
Assim que começaram a falar das crianças, todos fizeram comentários e confessaram suas dificuldades. Felio, que nunca se interessou por esses assuntos ou histórias, ouvia, pela primeira vez na vida, experiências dos outros.
Foi uma experiência maravilhosa, que tocou fundo seu coração.
"O Senhor agora é pai—"
"Tem alguma outra preocupação com a criação deles?" perguntou um cavaleiro chamado Callard, que tinha um queixo com covinha bem desenhado.
Mono, Juven, Callard e os demais eram cavaleiros que haviam jurado lealdade à família Voreotti desde cedo. Por isso, Callard se sentia mais à vontade para questionar.
Felio, preocupado, lentamente abriu a boca.
"Sabe, sobre minha filha." E então, acrescentou: "Ela é muito inteligente."
As ações inacreditáveis de Felio deixaram os cavaleiros do norte, que quase passaram metade da vida com a espada na mão, boquiabertos.
"Sua filha usou palavras como 'desfalque' quando tinha sete anos? Além disso, ela já leu todas as histórias de fadas que comprei pra ela. Tenho mais de cinquenta livros na sala dela. Faz sentido ler tudo isso em menos de um mês?"
Até então, eles falavam das dificuldades por causa das crianças, mas ficaram sem fala diante do elogio repentino de Felio à filha.
Porém, parecia que Felio falava com sinceridade. A expressão dele mostrando preocupação tinha uma gravidade maior do que ao enfrentar um inimigo.
"Não é como aquelas crianças que choram toda vez que me veem. Minha filha tem muita coragem e não tem medo, então ela brinca comigo primeiro e provoca briga. E, quando acha que estou um pouco cansado, ela faz biscoitos e me dá presente."
Depois, ele relembrizou o episódio dos biscoitos de gengibre que recebeu como presente há pouco tempo.
"Ela ainda não é tão habilidosa, então ficou meio mal-feita. Mas não dá para reclamar, já que foi a primeira vez que ela tentou fazer. Experimentei, e ela ficou crocante e perfumada, me aliviando a fadiga. Acho que ela tem talento de sobra. Precisamos pensar seriamente no que vamos pedir."
"Ah, sim—"
"Então é isso—"
Os rostos dos cavaleiros que escutavam em silêncio secaram.
Não disseram nada em voz alta, mas nos olhos deles já dava para perceber um “E o que você quer que eu faça?”
Naturalmente, os pais secretamente ficavam irritados quando outros pais de outras casas se gabavam dos filhos. Mas a preocupação de Felio não terminou aí.
"Desde que ela começou a engordar, seu rosto começou a parecer comigo e ficou parecido com uma flor desabrochando. Deve ser o aniversário dela, e ela deve ser admirada e apoiada pelos outros só por ser uma jovem da família Voreotti."
As preocupações do pai coruja, que já haviam se manifestado antes, eram como a pesada neve lá fora. (t/n: Pai coruja é uma expressão carinhosa que descreve um pai que ama muito a filha e se deixa envolver por ela.)
Felio não mostrava sinal de parar de se gabar.
Os cavaleiros mais velhos desviaram o olhar como crianças imaturas, tocando ingenuamente a barra de suas roupas enquanto escutavam as histórias entediantes de Felio sobre sua filha.
Foi um momento em que Callard se arrependeu de ter perguntado por nada.
"Uau!"
Entusiasmada, Leonier aplaudiu e soltou um grito bem alto.
"Faz de novo, faz de novo!"
"Então, dessa vez, canta uma música? Eu vou cantar junto."
"Com música? Dá pra fazer?"
"Claro! A gente cria na festa de confraternização."
"E o que eu devo cantar?"
Leonier, que refletia por um bom tempo, abriu bem os olhos ao pensar numa ideia que lhe veio na hora. Logo, uma música clara e suave ecoou por todo o campo de treinamento.
"Eu mais gosto de músculos. Todo mundo junto, vamos lá."
Doomchit, doomchit. (Sfx: som de tambor?)
" Bíceps, deltoides, peitoral, que emoção."
Dudoomchit, doomchit.
Depois da música muscular de Leonier, os cavaleiros bateram no peito em ritmo com entusiasmo.
"A parte de baixo também é incrível, o músculo femoral!"
Assim que a canção bonita, um pouco engraçada e com letra realista terminou, os músculos peitorais dos cavaleiros de bom coração se moveram um após o outro, como ondas.
"Uau! Ondas musculares!"
Uma voz adorável, que tinha cantado há pouco, gritou com mais paixão.
"—Senhor."
Mono, que observava, colocou a mão no ombro de Felio.
Ele engoliu sua pena, pensando que devia ser por causa da sensação de que os ombros do Duque Voreotti — sempre largos e confiáveis — estavam especialmente caídos hoje.
"Nossos filhos não são tão ruins."
"Os meus também."
"A senhora é um pouco especial."
"Gênios, principalmente, são um pouco fora do comum."
"Hahaha", os anciãos da criação dos filhos soltaram suas risadas.
Nunca haviam se sentido tão aliviados quanto naquele dia.
******
A nevasca, que parecia sem fim, finalmente parou totalmente alguns dias depois.
"Uau."
Depois de acordar sob o sol brilhante após tanto tempo, Leonier abriu a boca bem aberta ao ver a vista exterior pela janela do seu quarto. Ao vestir a bata que pendurava na cadeira ao seu lado e sair, os servos a cumprimentaram na manhã.
"Você acordou cedo."
"Bom dia!"
Depois de ser repreendida por Felio, Leonier passou a ser mais severa com os empregados. No começo foi estranho, mas agora ela já estava acostumada e tudo ia se encaixando bem.
"A neve chegou a uma altura equivalente à de um homem. Nunca tinha visto acumular tanto."
Leonier deu força aos calcanhares, calçando as pontas dos pés para cima e para baixo.
"Assim é que é o inverno na propriedade Voreotti." A criada, que trouxe a água para lavar, levou Leonier de volta ao quarto e explicou.
"Este ano, ainda está relativamente baixo."
"Sério? Aquilo? Já chega a altura de uma pessoa."
"No ano passado, chegou até as janelas do segundo andar."
Então, na mansão Voreotti, todas as pessoas moravam do terceiro andar para cima. Até esse piso, a neve acumulava bastante no inverno, bloqueando as janelas, e dificultava a entrada da luz.
"Por isso, a sala de estar ficava no terceiro andar."
Leonier lembrou-se de Felio e da sala de três andares onde ele tinha ficado várias vezes durante a forte nevasca. Só de pensar naquele lugar, onde as lareiras quentes e tapetes macios estavam espalhados, ela se cansou.
Obs: a sala de estar no primeiro andar era apenas para o verão.
"O que você quer vestir hoje?"
Depois de lavar o rosto, Leonier pensou cuidadosamente sobre as roupas escolhidas por sua criada.
"Gosto de todas—"
"E essa aqui, o que acha?"
A criada apontou para a roupa do lado esquerdo. Era um vestido preto, decorado com penas negras. Se uma noiva linda usasse um vestido branco puro, na residência do Duque de Voreotti havia um vestido totalmente preto, de pura elegância.
"E coloque um laço amarelo na cintura."
Leonier assentiu com a cabeça. Vestida, ela passou para o salão de refeições usando o suéter confortável que sua criada cuidou de colocar.
"Tio!"
Quando viu Felio na frente do salão, ela o cumprimentou com um sorriso radiante.
"Acordou bem, tio? Teve um bom sonho? Sonhou comigo?"
"Se fosse sonhar com você, não seria um sonho bom."
Ao invés do cumprimento matinal, Leonier fechou o sorriso e, de imediato, fez uma carranca. Afinal, esse responsável legal parece ficar com uma pontinha de mal-humor se ela não começar uma briga.
"Mais uma briga sem motivo. Tio, não perguntou se eu dormi bem?"
"Posso perceber que você dormiu bem só de te olhar."
"Treinou? Por que seu corpo está tão molhado?"
"Molhado?"
"Tem cheiro de sabonete."
Leonier, com o aprendizinho nariz mais perto e batendo, fechou os olhos levemente, como se estivesse sentindo o cheiro delicado. Uma sutil expressão de satisfação apareceu no rosto de Felio, que colocou a criança na cadeira, dizendo: "Não fale bobagem."
"Falando nisso", disse enquanto comia, "foi decidido um dia para caçada ao monstro."
"Quando?"
"Amanhã."