O Estalajadeiro

Capítulo 2261

O Estalajadeiro

"Azar, moço", disse Dan, o homem a quem River pedira para comprar alguns mantimentos. "Houve agitação na província, e todas as cidades sob o domínio do Duque Quaz entraram em estado de lockdown militar. Os comerciantes passaram a estocar grãos, e o preço do trigo dobrou da noite para o dia. Há revistas para quem entra na cidade, e ninguém pode sair com mais do que um punhado de recursos, a menos que tenha uma permissão. Consegui comprar-lhe um pequeno saco de arroz, mas foi só."

River olhou para Dan com grande pesar ao ouvir a notícia. Ele sequer tinha comida suficiente para alimentar a si mesmo e a Pearl por mais do que alguns dias, quanto mais alimentar seus convidados. Foi uma falha de sua parte, principalmente porque era a primeira vez que ele gerenciava qualquer tipo de negócio. Nunca lhe ocorreu estocar rações secas.

Como se isso não bastasse, o que quer que tenha feito as cidades entrarem em lockdown era uma ameaça ainda maior para ele! Afinal, estava sozinho no meio do nada, sem muralhas para protegê-lo.

"Você sabe por que as cidades entraram em lockdown?" perguntou River com preocupação, mas Dan apenas balançou a cabeça.

"Por causa das nuvens", disse Dan apontando para o céu, agora limpo. "Disseram que a escuridão prolongada da temporada de chuvas causou o nascimento de uns monstros ou algo assim. Estão chamando de Abissais. Algumas vilas e aldeias sofreram ataques, e até mesmo uma cidade próxima -- pelo menos é o que dizem. Não sei muito sobre isso, mas os rumores dizem que os especialistas das seitas foram chamados das montanhas para lidar com a questão."

River suspirou e balançou a cabeça. Tinha tudo indo tão bem. Por que isso precisava acontecer? Reprimindo a ponta de ansiedade que se acumulara em seu peito, River discutiu com Pearl um plano sobre o que fazer.

Na manhã seguinte, antes do amanhecer, trancaram a pousada, colocaram um cartaz dizendo que estavam fechados por aquele dia e começaram sua jornada rumo à cidade Blue Stone. Agora que sua saúde havia melhorado um pouco, caminhar longas distâncias não era mais tão desgastante.

Chegaram à cidade e prontamente foram até o escritório do conselho municipal e conseguiram uma permissão para levar comida de volta. Foi sorte que a história de o Senhor da Cidade patrocinar a Pousada tivesse se espalhado, caso contrário dificilmente teriam conseguido uma permissão.

De lá, foram ao mercado, apenas para encontrá-los em completo caos. A cidade havia imposto um sistema de cota desde a noite anterior, e cada cidadão só podia comprar uma certa quantidade por semana. Para isso, precisariam apresentar um documento comprovando que moravam na cidade, que seria carimbado pelo vendedor de quem comprassem a comida.

Embora River estivesse profundamente impressionado com a eficiência da cidade Blue Stone e o engenhoso sistema pelo qual estavam racionando seus suprimentos, ele não tinha documento algum, nem morava na cidade. Mesmo que argumentasse que administrava a Pousada a algumas horas de distância da cidade, ninguém se atrevia a vender-lhe qualquer coisa. Mesmo a permissão que mostrava que podiam levar comida para fora da cidade não convenceu nenhum vendedor.

Dentro do colar, Lex não pôde deixar de balançar a cabeça e agradecer pela utilidade do sistema nessas horas. Ao mesmo tempo, não pôde deixar de se perguntar de fato de onde vinha a comida que eles compravam.

É claro, Lex percebia que a situação não era tão ruim nem tão sistemática quanto aparentava. Ele fechou os olhos e deixou que resolvessem esse problema por conta própria -- mesmo que parte dele dissesse para si mesmo que voltaria à Pousada mais rápido se apenas resolvesse tudo para eles.

Após passar horas tentando comprar comida sem sucesso, River e Pearl começavam a se sentir desesperados. Exatamente quando cogitavam talvez tentar entrar em contato com o Senhor da Cidade e pedir sua ajuda, uma criança pequena acenou para River chamando sua atenção, e depois deslizou por um beco, pedindo que o seguissem.

River e Pearl trocaram olhares, mas seguiram a criança que os guiou por algumas ruas até entrar em um prédio discreto. Exatamente quando os dois hesitavam em entrar em um lugar desconhecido, um homem alto e bastante bonito surgiu do prédio com um largo sorriso. As roupas que vestia eram luxuosas e elegantes, complementando sua aparência e também indicando sua condição financeira.

"Ah, é o ilustre proprietário da Pousada. Estava ansioso para conhecê-lo", disse o homem em voz alta, sua voz ecoando pela rua. Ele se adiantou e apertou a mão de River com entusiasmo, e usou a proximidade para sussurrar algumas palavras.

"Ouvi dizer que você está procurando comprar suprimentos. Posso ajudá-lo."

River ficou surpreso com o entusiasmo repentino do homem. No entanto, ao ouvir suas palavras seguintes, respondeu com igual entusiasmo.

"A honra é minha, a honra é minha. Espero ansioso o dia em que poder recebê-lo como convidado em nossa casa", respondeu em voz alta, e seguiu o homem para dentro do prédio, embora com a guarda afinal. Não era assim que as pessoas eram sequestradas? Além disso, River e Pearl ainda estavam sendo caçados... provavelmente.

Contudo, o interior do prédio não tinha nada de alarmante. Na verdade, parecia uma casa pertencente a algum nobre.

"Desculpe a encenação, é uma parte necessária do negócio", disse o homem quando estavam dentro, seu tom caloroso, embora já não falasse mais tão alto quanto lá fora. "Permita-me apresentar-me. Meu nome é Albert Reddings, proprietário da Reddings Company. Por favor, sentem-se."

Se fosse haver algum tipo de acordo suspeito, este tipo de ambiente seria a última coisa que River esperaria. Entre os desenhos extravagantes em todas as cadeiras, os trabalhos intrincados de madeira em todos os móveis e as belas artes nas paredes, aquilo parecia um lugar de onde cidades deveriam ser governadas. Negócios suspeitos deveriam acontecer em becos escuros, não?

Por outro lado, quem disse que isso tinha de ser suspeito? Talvez ele estivesse enganado sobre o que estava acontecendo.

"Eu me apresentaria, mas suspeito que já conheçam nossos nomes", disse River enquanto se sentava de frente para o homem, sem mostrar desconforto ou medo enquanto avaliava seus arredores. Havia muitos trabalhadores no prédio, e todos estavam nos estágios iniciais de treinamento de Qi, enquanto Albert não exibia aura alguma. Ainda assim, River não achava que ele fosse fraco.

Albert soltou uma risada, assentindo.

"Sim, sim, Sr. River e Sra. Pearl, ouvi tudo sobre vocês", disse Albert. "Sou um empresário, e estou sempre em busca de oportunidades e conexões. Naturalmente, qualquer pessoa capaz de chamar a atenção do Senhor da Cidade é alguém com quem eu teria grande interesse.

"Tenho uma série de negócios sob minha gestão e uma rede ainda maior de conexões. Se houver algo de que precisem, posso ajudá-los a conseguir de uma forma ou de outra. Pelo que ouvi no mercado, parece que estão com falta de suprimentos.

"Como gesto de boa-fé, posso providenciar a entrega de todos os suprimentos de que precisarem na sua Pousada, com 10% de desconto no primeiro pedido. Se estiverem satisfeitos com meu serviço, podemos fazer um acordo formal para entrega de mercadorias. O que acham?"

River estreitou os olhos ao tentar descobrir quais eram as intenções de Albert. Não achava que seu pequeno empreendimento fora da cidade pudesse atrair a atenção de alguém... tão rico. Mesmo que estivessem ganhando algum dinheiro, duvidava que sua renda anual fosse suficiente para comprar um único quadro nas paredes daquele lugar.

"Duvido que nosso negócio lhe dê lucros significativos. Por que arriscaria contrabbandear comida para nós?" perguntou River, sem esconder seu ceticismo.

Albert, no entanto, riu da pergunta.

"Contrabando? Parece que houve algum mal-entendido. Sou um empresário honesto, fazendo tudo legalmente. Não preciso contrabandear. A Reddings Logistics Company é responsável pela aquisição de recursos para diversas cidades do Duque Quaz, então transportamos mercadorias para dentro e para fora da cidade o tempo todo. Enviar algumas coisas para vocês não é problema algum.

"E, não vou negar. Garantir seus negócios contribuirá apenas com uma pequena parcela para nossas receitas. Mas, tenho um bom pressentimento sobre vocês dois, e ouvi coisas excelentes do próprio Senhor da Cidade. Mesmo que tivesse prejuízo nesse negócio, ainda assim o faria só para construir o contato. Afinal, o futuro é imprevisível.

"Eu mesmo sou um homem que se fez sozinho, começando das ruas e crescendo até chegar onde estou hoje. Acho que... investir em pessoas é muito mais lucrativo do que investir em pequenos projetos."

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