O Estalajadeiro

Capítulo 2071

O Estalajadeiro

Um Senhor da Dao não podia ser avaliado pelos padrões convencionais. Eles eram seres de poder quase infinito. Uma das principais razões pelas quais a maioria dos Senhores da Dao nunca avançou além de simplesmente ingressar no reino era justamente pela sua imensa força, que os impedia de dominar completamente sua própria potência.

Junto a essa força, vinha uma capacidade mental quase infinita de pensar e processar informações. Para exemplificar, um Senhor da Dao comum levava menos de um segundo para perceber todas as ações já realizadas por todos os seres vivos na Terra, só para dar uma ideia do quão poderosos eram suas mentes.

Porém, isso era apenas o requisito mais básico para ser um Senhor da Dao, pois eles precisavam exatamente de uma mente assim para controlar seu poder. Eles utilizavam a maior parte de sua mente para analisar informações provenientes de seus múltiplos sentidos, já que percebiam o universo de uma maneira bastante diferente.

Por exemplo, enquanto um humano normal — um sujeito comum, como Lex — poderia julgar como uma situação pode evoluir com base na experiência, no senso comum e em uma intuição profunda, os Senhores da Dao avaliariam tudo com base em fatores que um humano nem saberia que existiam.

Cada pensamento deles era mais preciso do que a divinação comum de seres que não eram Dao, motivo pelo qual não precisavam julgar as coisas apenas com base na experiência. Afinal, até a experiência podia deixar espaço para erros em novas situações. De modo geral, os Senhores da Dao estavam sempre certos.

A única exceção acontecia quando enfrentavam outros Senhores da Dao. Como todos dependiam de sentidos e poderes similares, eles podiam manipular ou esconder diversos indicadores, influenciando a conclusão à qual outro Senhor da Dao poderia chegar — assim, anulando sua grande vantagem.

Teoricamente, qualquer Senhor da Dao poderia fazer isso, mas na prática a situação era muito mais complexa. Escondido sob a aparente certeza da realidade vista pelos olhos de um Senhor da Dao, havia espaço para infinitas possibilidades — mostrando que até mesmo esses seres eram vulneráveis a outros Senhores da Dao.

Claro que essa era uma questão que a maioria não sabia ou não percebia. Fazia tempo demais desde uma matança em massa de Senhores da Dao, ou uma guerra de verdade que terminasse em morte, e não em derrota. As histórias sobre a perda dos Senhores da Dao da humanidade eram antigas demais, até para os próprios Senhores, fazendo parecer algo distante da realidade.

No entanto, um dos motivos pelo qual todos estavam tão tensos era justamente o fato de que essa última guerra tinha potencial para se transformar exatamente nisso.

Na superfície, parecia que o andamento da guerra era normal, mas, enquanto Mary conversava com os Senhores da Dao, ela começou a perceber um padrão — um padrão que era claro para todos os Senhores da Dao. Essa guerra avançava exatamente na escala e no ritmo desejados por quem quer que estivesse por trás dela.

Até o momento, nenhuma ação das forças de defesa, com base nas informações disponíveis publicamente, conseguiu impedir os planos do inimigo.

Portanto, mesmo agora, apesar da lista de convidados ilustres para essa reunião, o maior mérito dessa reunião era a capacidade de se encontrar, planejar e criar estratégias sem o risco de serem espionados pelas diversas leis do universo. A barreira de isolamento do Jardim Primordial era uma das melhores do universo, muito superior até mesmo à Taverna da Meia-Noite.

Mary passou várias horas conversando com os Senhores da Dao, junto de Ballom. Ela não revelou detalhes específicos. Apenas ofereceu orientações gerais, alertando-os para possibilidades que, por padrão, eles automaticamente negavam, pois seus múltiplos sentidos assim os orientavam.

Porém, assim como humanos que caem em ilusões, os sentidos dos Senhores da Dao podiam enganá-los se estivessem sendo manipulados com precisão suficiente por outro Senhor da Dao, com Wu Kong sendo notavelmente habilidoso nisso.

Eventualmente, porém, para a relutância de todos com quem conversava, Mary teve que sair. Afinal, ela também precisava cuidar de outros convidados, não podia apenas ficar ali conversando com poucos.

Pelo menos, nessa sessão, ela havia descoberto a persona que queria manter ao lidar com outros Senhores da Dao. Não podia eliminar sua arrogância, nem totalmente. Mas precisava gerenciá-la, junto de sua postura amigável habitual.

Mesmo sua simpatia, no entanto, era mais contida do que com convidados comuns. Esses eram, afinal, Senhores da Dao. Embora o sistema mantivesse seu segredo bem protegido por ora, qualquer deslize poderia comprometer tudo.

O problema não era nem se ela fazia algo revelador naquele momento. Qualquer coisa que dissesse ou fizesse agora poderia se tornar a base para sua exposição anos depois, se ela cometesse algum erro mais tarde.

Por isso, ela precisou atuar com um equilíbrio delicado entre ser acessível e manter certa distância, cumprindo apenas seu papel de anfitriã, nada mais. Entre os primeiros convidados, ela falou mais do que devia, mas isso foi algo que aprendeu na prática, posteriormente.

Depois de sair daquela reunião, ela percorreu o interior da taverna, verificando os convidados. Felizmente, a maioria deles estava ocupada com suas próprias reuniões, portanto ninguém parecia se importar com sua ausência ou a do Mestre de Pouso.

Os poucos que ainda permaneciam, sem participar de encontros ou deixando alguns clones por não quererem perder nenhuma chá, tiveram a oportunidade de interagir com ela.

Ela apenas verificava se todos estavam bem, se precisavam de alguma coisa. E, por sua vez, a maioria dos Senhores da Dao ficava curiosa sobre essa mulher que aparentava ser tão próxima do Mestre de Pouso.

Rapidamente, contudo, esse sentimento de curiosidade se transformou. Depois que ela começou a circular, ninguém mais se interessava por Mary, a assistente do Mestre de Pouso e possível interesse romântico. Pelo contrário, todos queriam mesmo era conhecer Mary, a especialista em guerra da Dao.

Mesmo sem dar instruções ou fazer mais do que oferecer conselhos gerais baseados na situação de cada convidado, sua reputação crescia rapidamente. Tanto que até mesmo alguns Senhores da Dao em reuniões recebiam mensagens de outros, pedindo para incluí-la ou pelo menos consultar sua opinião sobre determinados assuntos.

Comparada ao enigmático, porém amigável, Mestre de Pouso, Mary começava a ser vista como uma guerrreira e estrategista misteriosa, de grande sabedoria. Muitos achavam perfeitamente possível que ela fosse a mentora por trás da estratégia do Midnight Inn!

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