
Capítulo 1968
O Estalajadeiro
A morte por mil cortes foi um conceito popularizado na Terra por filmes e programas que utilizavam essa ideia para mostrar o quão dolorosa e brutal poderia ser a morte — além de criar um vilão mais assustador para que o herói parecesse mais genial ao derrotá-lo.
Para um humano comum, certamente era uma forma dolorosa de morrer, já que ele ia sangrando pelos inúmeros ferimentos pelo corpo. Para um imortal, era apenas uma dor.
Diyor ainda não tinha percebido, mas nunca conseguiria matar Lex. Sim, a energia divina dele permitia criar um milagre e ferir Lex, mas esse tipo de dano nunca seria suficiente para matá-lo, mesmo que ele ficasse lá parado, deixando os ataques acontecerem.
Porém, isso não era o que Lex fazia. Não, ele resistia como se Diyor tivesse obtido uma vantagem decisiva, mantendo Diyor focado em atacá-lo. Seu propósito era simples, na verdade. Ele usava aquela luta para testar suas teorias e ampliar seu entendimento do universo.
Quando Diyor começou a temer Lex, Lex sentiu a reação do seu Máscara do Tirano. Mesmo não estando usando a máscara naquele momento, ela ainda se beneficiava de qualquer medo que Lex induzia — principalmente se o objeto desse medo fosse ele próprio. A resposta da máscara era quando Lex percebeu que o Arch-Heaven não havia cancelado as regras pré-existentes no universo. Talvez eles as sobrepusessem ou tivessem prioridade. Ele não tinha certeza, por isso realizava testes. Um a um, usava todas as habilidades disponíveis e observava como o universo reagia.
Se ele enviasse a Máscara do Tirano e a Faca de Manteiga, ele teria a capacidade de usar energia divina, isso ele tinha certeza. Além disso, esses dois não estavam bloqueados de serem invocados. Mas isso ainda não era suficiente. A forma do pensamento e o estado da alma ainda estavam bloqueados, assim como a maioria de suas outras habilidades.
Porém, ao experimentar suas habilidades, percebeu que as poderes de Paladino também não eram afetados. Eles estavam suprimidos para 11%, ok, mas já era muito melhor do que todas as outras habilidades.
Além disso, seus array e formações estavam suprimidos, e essa supressão era bem mais complexa do que suas habilidades usuais — mas isso poderia ser uma coisa boa. Por exemplo, um array de ataque poderia estar suprimido a 11%, enquanto um array defensivo talvez estivesse com uma supressão bem menor.
Por fim, como os arrays extraíam força da energia ambiente, eles não eram considerados habilidades próprias de Lex. Já a complexidade do próprio array vinha dele, e era isso que determinava a quantidade de supressão enfrentada. Mas havia uma solução bem simples para isso também. Lex não a colocou em prática imediatamente, porém.
Durante horas, continuou a luta, testando os limites da supressão do Arch-Heaven para que, se enfrentasse um inimigo mais forte, não fosse pego de surpresa.
No começo, Diyor não notava nada, pois combates entre imortais duravam bem mais que isso. Mas, após horas, quando Lex ficou um verdadeiro desastre de sangue, sem nem mostrar sinais de enfraquecimento, uma dúvida começo a surgir. Algumas horas depois, essa dúvida virou horror. Ele percebeu que… estavam brincando com ele.
Por fim, não aguentando mais, virou-se para fugir. Mas como Lex poderia deixar escapar?
"Qual é, Diyor? Para onde você vai?" perguntou Lex com uma expressão casual, levantando um dedo. Anos e anos, Lex não precisava desenhar uma array usando o dedo. Seu controle sobre a energia espiritual era tão preciso que podia desenhá-la sem nem mover um músculo.
Então, o motivo de Lex desenhar a array manualmente era porque ele sentia uma espécie de nostalgia dos velhos tempos. Ah, e também porque ver a array sendo construído lentamente, sabendo que seu momento de conclusão significaria seu fim inevitável, assustaria Diyor pra valer. Lex queria uma pequena vingança por todas as feridas que sofreu. Mas, principalmente, era uma questão de nostalgia, pelo menos aos olhos de qualquer outro.
Com movimentos lentos e deliberados, Lex desenhou o círculo onde seria formado o caractere da array, mantendo-se atento a Diyor, que tentava fugir da mina.
"O que a Sekhmet acharia se visse você fugindo assim?" perguntou Lex, enquanto começava a desenhar o único caractere que preenchia a array.
"Não ouse dizer o nome dela!" gritou Diyor, mesmo continuando a correr. "Você nunca escapará de seu alcance. Seu fim será miserável!"
"Não seja tão dramático. É só um nome, e de alguém exilada de sua própria casa. O que ela pode fazer comigo, além de olhar com inveja enquanto eu entro e saio do reino da Origem, do jeito que eu quiser?"
Diyor rangeu os dentes, querendo apenas rasgar Lex em pedaços. Mas a hora disso chegaria. Por ora, ele precisava:
Diyor congelou no meio do pensamento e da ação, enquanto a array de Lex era concluída. Fora do Arch-Heaven, Lex usava sua habilidade chamada Supremacia para impor sua vontade sobre os outros. Essa habilidade era um Lawcraft criada conjuntamente com seu Domínio para exercer sua vontade no universo. Entretanto, no Arch-Heaven, Lex criou uma alternativa a essa habilidade, já que ela estava selada.
Eram arrays, mas não só isso. Um dos conceitos mais simples de arrays — e que Lex demorou um tempo vergonhosamente longo para perceber — era que existiam mais de uma maneira de fortalecer um array.
A primeira era usar caracteres melhores, mais poderosos e mais precisos. A segunda, usar arrays mais inteligentes e mais bem projetados. A última, e mais simples e óbvia, era desenhar o caractere do array usando mais energia.
Os arrays se fortaleciam com a energia ambiente do universo, sim, e Lex pensava que eles consumiam a energia necessária só para alimentá-los. Até o dia em que percebeu que o quanto de energia usada na criação do array também influenciava esse consumo, além do próprio requisito do array.
Isso não era uma prática comum nem ensinada, pois essa era uma abordagem não convencional. Primeiramente, o grau de controle de energia necessário para isso era muito além da maioria. Em segundo lugar, a quantidade de energia exigida era tão grande que, na prática, era inútil para a maioria. E os poucos que conseguiam passar pelas duas primeiras barreiras muitas vezes ficavam presos na última: quanto mais complexo um array construído com uma concentração maior de energia, menos eficaz ele era.
Assim, Lex criou um array com um único caractere, usando toda a energia que tinha na época em que ainda era um Imortal da Terra. E, como consequência… Diyor parou no lugar enquanto fugia, e não apenas seu corpo ficou congelado — seus pensamentos, sua alma e até sua tentativa de obter um cargo oficial congelaram junto.
Lex se aproximou de Diyor, com uma expressão indiferente durante todo o trajeto. Coincidentemente, Diyor estava exatamente na saída da mina. Ainda mais coincidência: James estava lá, esperando por Lex. Então… ao presenciar a cena de Lex congelando a alma de Diyor com apenas uma array, lágrimas começaram a escorrer novamente de seus olhos.
Ele sabia. A carnificina tinha começado, e agora ele tinha sido envolvido nela.