
Capítulo 1963
O Estalajadeiro
A balsa cruzava o rio, que mudava de cor a cada instante, mas ele nenhuma criatura viva via dentro dele, nem plantas ou sinais de natureza lá embaixo. De um lado ao outro do rio, ao invés de uma margem comum, Lex via apenas o cosmos.
Na maior parte do tempo, ele não questionava isso. Afinal, aqui no fundo de Céu-Arquipélago, a lógica tinha parado de fazer sentido. Em vez disso, passava alguns dias tentando melhorar o humor do Mango. O peixe não estava realmente chateado, mas certamente gostava de receber toda aquela atenção, então Lex se divertia com ele.
Eventualmente, até o Mango se rendeu, e parou de fingir estar chateado com Lex. Mas, depois disso, não havia muito mais para fazerem, então o peixe tirou sua escama e começou a revê-la mais uma vez.
Lex olhou para a escama, mas mesmo com seu novo nível de progresso em percentual, não conseguia atravessar o véu que escondia os segredos das escamas. Ele não insistiu mais nos assuntos pessoais de Mango. Em vez disso, voltou sua atenção para tentar compreender mais de Céu-Arquipélago.
Ele até usou o olho esquerdo para estudá-lo de tempos em tempos, cuidando para não se esforçar demais. Lex continuava achando que aquele lugar tinha uma aura maligna — como se estivesse atraindo as pessoas sob a aparência de oferecer poder, mas, na verdade, estivesse usando-as. Agora, ele queria entender mais o motivo de achar aquilo tão repulsivo.
Seria uma reação instintiva, ou ele estaria sendo influenciado por alguma coisa para se sentir assim? Afinal, raramente Lex tinha uma sensação tão forte sobre algo tão aleatório.
"Preciso mesmo arrumar um criado de confiança," Lex comentou consigo mesmo. Essa foi a primeira missão que ele fracassou, e até hoje não tinha conseguido resolver isso. Em geral, ele se virava sem um. Mas essa história de vaguear pelo universo, embora bastante divertido e fascinante, também podia ser uma dor de cabeça. E, mais importante, tinha a questão dos inúmeros Lordes do Dao que lhe enviaram Cartas de Intenção.
O motivo pelo qual ele ainda não tinha respondido a nenhuma delas era porque tinha uma ideia — uma ideia de negócio. Uma que, se fosse bem-sucedida, provavelmente o tornaria o ser imortal mais rico do universo, ou pelo menos um dos mais ricos.
Era também um risco enorme. Mas um verdadeiro capitalista não busca só o dinheiro fácil — não, é o dinheiro grande, arriscado, que satisfaz uma vontade que nada mais consegue alcançar.
"Você conhece alguma história interessante?" Mango de repente perguntou enquanto Lex estava no meio de uma reflexão.
"Hã?" ele respondeu, surpreso com a pergunta.
"Histórias interessantes," Mango repetiu, "Se vamos ficar aqui alguns dias, podemos aproveitar para trocar algumas histórias legais. Não me diga que você ia passar todo esse tempo só pensando sozinho."
Lex quase admitiu que esse era exatamente o seu plano. São só alguns dias; ele podia facilmente passar esse tempo parado, refletindo sobre assuntos difíceis. Depois, percebeu o quão estranho isso parecia, pelo menos pelos padrões mortais.
Além disso, para alguém cuja memória só durava os últimos 10 dias, cada dia era uma quantidade imensa de tempo. Melhor não desperdiçá-lo. Antes, enquanto viajavam a pé, Mango nunca dizia nada, provavelmente porque estava focado na viagem. Agora, como passageiros, porém…
"Ah, rapaz, tenho uma história ótima pra te contar," Lex disse com um sorriso largo. "Uma vez, um amigo meu decidiu namorar com um diabo — conhece diabo? Espera, você conhece namoro?"
"Sim, sim, tenho uma memória curta, não sou trouxa," exclamou Mango, revirando os olhos. "Namoro é o que se usa para determinar a idade de uma coisa, e diabo é um termo depreciativo que, na linguagem moderna, às vezes pode até significar algo bom."
Lex levantou o dedo, mas congelou. Mango não estava totalmente errado, tecnicamente, mas também não tinha razão.
"Então, sim, seu amigo decidiu pesquisar quanto tempo o termo 'diabo' existe? Uma história sobre etimologia não era o que eu esperava, mas acho que nem todo mundo tem vidas tão emocionantes quanto os peixes-dourados, então vai assim mesmo," Mango falou, parecendo entediado antes mesmo da história começar.
Lex suspirou. Essa viagem ia ser longa mesmo.
A jornada até o destino levou sete dias inteiros, e quando chegaram, Lex ficou um pouco surpreso. Tinha lhe dito que a balsa o levaria até construções de mármore branco, como a fortaleza ou a cabana branca onde Mango costumava ficar. Ele simplesmente achou que seria mais do mesmo.
Agora percebia que talvez Vox tivesse se referido a estruturas de mármore branco, porque, quando a balsa atracou, Lex se viu na base de uma cidade enorme, que parecia escavada na lateral de uma única pedra de mármore gigantesca, grande o suficiente para ser uma montanha.
Aliás, toda a cidade montanhosa fervilhava de várias pessoas, diferente do forte relativamente vazio de antes.
"O que é esse lugar?" perguntou Lex assim que desceu, ganhando um olhar estranho do guardião que acompanhava a entrada de novos visitantes.
"Você veio de balsa privada, mas não sabe para onde está indo? Isso aqui é a Montanha Pinktop — o maior mercado de comércio aberto nesta região de Céu-Arquipélago," ele respondeu, olhando para Lex com curiosidade. "Rapaz, com a minha vasta experiência de guarda nesta cidade, dá pra dizer de cara se alguém parece problema, e você parece. Deixe eu te dar um conselho — o chefe desse mercado tem um limite de 51%, então, não vá causar problemas pra ele, ok? Siga as regras, não cause confusão, e estará tranquilo."
Lex congelou. 51%. Era a porcentagem mais alta que tinha visto até hoje, bem maior até que a do Mango.
"Fique tranquilo," disse Lex, sorrindo, "Eu nunca dou trabalho."