
Capítulo 1952
O Estalajadeiro
Por dez dias, eles viajaram, chegando a um ponto em que Mango conhecia Lex e Fenrir há tanto tempo quanto conseguia se recordar. Normalmente, Lex argumentaria que dez dias não eram muito tempo. Mas, nesta ocasião, teria que admitir o contrário.
Nesses dez dias, o grupo avançou profundamente na Terra Celestial Superior, atravessando o ponto onde o terreno era simples e reconhecível. O chão não era mais feito de terra, e a grama não crescia mais. Não havia árvores, nuvens ou coisas corriqueiras desse tipo. Não, lá no mais profundo da Terra Celestial Superior, tudo era singular e feito de materiais que não encontravam em lugar nenhum do universo. Tudo era… uma manifestação física das próprias leis.
Nesse momento, tudo mudou. A viagem passou a ser um ritual, mais do que uma jornada em si. O espaço era apenas um caderno onde o universo escrevia com tinta da criação. Todas as coisas que existiam, existiam em todas as suas formas.
Se Lex achava que a Tempestade das Leis era mortal, então as coisas que viu nesses dez dias mudaram completamente sua perspectiva. Em certo ponto, Lex precisou selar seus sentidos, não permitindo que soubesse nada sobre o que o окружava. Naquele instante, ele tinha acabado de deixar a jornada nas mãos das habilidosas nadadeiras do peixe. Lex já não tinha nem uma gota de dúvida sobre a grandeza de Mango, porque essa jornada era algo que nem mesmo em seu auge poderia fazer.
Mesmo que Lex encontrasse uma maneira de evitar a Tempestade das Leis, o colapso da realidade e de escapar acidentalmente para reinos disfarçados de objetos aleatórios, ele ainda seria derrotado ao se aprofundar na Terra Celestial Superior e a forma como a realidade tomava mudava.
Até sua mente imortal não conseguia compreender totalmente a existência como ela se apresentava diante dele, ameaçando quebrar sua mente e levá-lo à loucura. Mas, Mango, magnificamente magnífico, parecia completamente indiferente — principalmente porque ele mesmo não tinha um conceito claro do que seria a realidade.
Porém, durante esses dez dias e noites, eles viajaram continuamente, e nesse período Lex conseguiu, finalmente, se curar. Ele refez sua pele, seu cabelo e voltou a estar num estado relativamente saudável.
Curiosamente, enquanto se curava, o colar que usava voltou a nascer de seu corpo, reaparecendo ao redor de seu pescoço. Era o mesmo colar feito do minério divino que Jack tinha enviado, aquele com o qual Lex havia fundido um pedaço de seu coração.
Lex tinha realmente pensado que o colar estava perdido, mas vê-lo regredir como se fosse parte dele também…
Lex não deu muita atenção a isso. Como de costume, ele praticamente não deu importância ao colar, quase nem reconhecendo que ele existia.
Finalmente, no décimo primeiro dia, Mango tinha algo mais a dizer além de seus próprios elogios.
"Você pode abrir os olhos agora. Basicamente, chegamos ao seu destino, e parece que é dentro desta fortaleza enorme."
Os olhos de Lex já estavam abertos — só que ele limitara sua visão a si mesmo, a Fenrir e a Mango. Ao ouvir a declaração de Mango, Lex permitiu que seus sentidos retornassem ao normal e percebeu que realmente estava dentro de uma grande fortaleza.
Para deixar claro, ela era apenas grande pelos padrões de mortais comuns. As paredes da fortaleza tinham aproximadamente dez milhas de circunferência, mais ou menos, e eram, na maior parte, preenchidas por planícies de grama. O interior, de fato, dividia-se em quatro áreas distintas.
Uma parecia uma fazenda enorme, outra um rancho, uma mais abrigava muitos trabalhadores e trabalhadores rurais, e a última continha senhores e nobres — as casas eram grandiosas e luxuosas. A sede principal da fortaleza também ficava dentro dessa última seção.
Mesmo assim, grande parte do terreno permanecia descoberta, como se ainda houvesse espaço para construir mais ali.
A sensação de estabilidade que esse lugar transmitia, em contraste com o que a Terra Celestial Superior vira antes, era devido ao fato de toda a fortaleza ser construída com rochas brancas, que lembravam mármore. Claramente, toda essa estrutura era uma das construções protegidas dentro da Terra Celestial Superior.
Cauteloso, Lex desceu do trenó, quase esperando alguma ameaça ou perigo inesperado, mas nada aconteceu. Os edifícios brancos, conforme Mango prometera, eram relativamente seguros. O único perigo vinha de seus habitantes.
Lex percebeu que a corrente, previsivelmente, conduzia à seção dos nobres. De algum modo, ele conseguiu associar aquela voz que zombara dele a algum lorde mimado.
“Vamos continuar?” perguntou Lex a Mango, confiando na proteção do peixe. Afinal, ele era o guardião deles, e tinha provado sua valia nos últimos dias. Lex não conseguia imaginar como alguém sobreviveria na Terra Celestial Superior fora das construções brancas e sem o apoio de alguém como Mango.
"Sim, mas há regras aqui," respondeu Mango. "Como havia regras no prédio de registros, também há regras aqui."
"Como você se lembra do prédio de registros?" perguntou Lex, considerando que já faziam dez dias desde que partiram.
"Sou um registrador. Não preciso lembrar, porque sempre sei os detalhes do meu trabalho. Não é óbvio?" respondeu Mango, olhando para Lex como se tivesse feito a pergunta mais absurda.
"Boa pontuação," concordou Lex, concluindo que assumir um papel oficial aqui conferia à pessoa um conhecimento específico. "Então, você conhece as regras deste lugar?"
Mango olhou seriamente para Lex.
"Claro que não," disse ele. "Tudo o que sei é que este lugar também tem regras."
Lex respirou fundo e suspirou, antes de virar-se para observar ao redor. Precisava ver se conseguia entender as regras.
"Entramos na fazenda," disse Lex, analisando o ambiente. "Vamos ver se encontramos um fazendeiro. Talvez ele possa ajudar."
Considerando que o terreno dentro da fortaleza não era plano, não era fácil enxergar tudo de uma só vez, então os três começaram a explorar, tomando cuidado para não sair da fazenda ainda.
Se Lex aprendeu alguma coisa até agora, foi a levar as regras da Terra Celestial Superior bastante a sério.