
Capítulo 1861
O Estalajadeiro
Desapareceu o discurso impressionante que Lex havia planejado, junto com todas as suas artimanhas dramáticas. No momento em que seus olhos se fixaram nos Kraven e ele percebeu a imensidão do carma negativo que carregavam — todos os pecados que cometeram não apenas contra outros seres vivos, mas contra o próprio universo — uma profunda repulsa surgiu de seu peito de uma forma que ele nunca havia experimentado antes.
Realmente era uma situação única, pois mesmo em comparação àquelas pessoas que sofriam rejeição universal, os Kraven pareciam provocar uma maior repulsa interior nele. Mas Lex, apesar de prestar atenção aos seus instintos, também não era alguém que os seguia cegamente. Ele tentou discernir a verdadeira origem dessa repulsa e por que ela existia.
Não foi difícil. Quase assim que começou a prestar atenção na questão, percebeu que, além de seu próprio ódio pelos Kraven, a repulsa vinha da forte ligação que tinha com seu universo. Afinal, Lex carregava uma quantidade imensa de carma positivo e vinha digerindo-o há bastante tempo.
Todos os seres com tamanha reserva de carma positivo podiam ser considerados filhos preferidos do universo, com mais sorte do que outros, e mais propensos a encontrar tesouros e recursos valiosos. Claro que, se não tivessem a força necessária, essa oportunidade poderia se transformar numa via única para a morte, mas o que isso tinha a ver com o universo?
Nessa situação específica, Lex pôde perceber que sua repulsa vinha de sua ligação com o universo. Ao prestar atenção mais de perto nesse sentimento, chegou a outra conclusão.
Parecia que, ao olhar para os Kraven, ele podia enxergar o propósito original que essa raça tinha no universo. Eles não eram necessariamente malvados — existiam como detritívoros do mundo da cultivação, ou seja, se alimentavam do equivalente espiritual de matéria morta e a transformavam em algo útil.
No entanto, em algum momento, eles mutaram ou foram geneticamente manipulados para assumir sua forma atual. Agora, eles apenas consumiam sem parar e não produziam nada, deixando de cumprir seu papel ecológico espiritual original no universo, apenas destruindo. Mas, por outro lado, eram fáceis de fortalecer até certo ponto e podiam se reproduzir rapidamente, tornando-se a tropa de choque perfeita para guerras de escala maior.
Em essência, alguém criou uma raça abominação, e o universo não aprovou isso. Além de gerar uma repulsa inerente nele, talvez o próprio universo lhe recompensasse com uma enorme quantidade de karma por eliminá-los.
Ele brincava, fazendo piada, dizendo que se autodenominaria o Salvador Glorioso, depois, a Justiça, mas parecia que realmente estaria exercendo justiça, do ponto de vista das escalas universais.
Agora que compreendia melhor a situação, Lex focou na tarefa principal. Mais cedo ou mais tarde, alguém viria para impedi-lo. Embora seu objetivo original fosse apenas matar Belail, já que havia tanto carma positivo esperando para ser colhido, ele não se importaria de alterar um pouco seus planos.
Centos de Kraven imortais da Terra rugiram ao perceber o verdadeiro perigo que Lex representava, embora não fossem inteligentes o suficiente para considerar recuar. Eles atacaram todos juntos, querendo dominá-lo, mas Lex já tinha ultrapassado o ponto em que poderia ser ameaçado por meros Imortais da Terra.
Ele invocou Naraka, sua espada recentemente afiada com o sangue dos Profanadores, e canalizou sua intenção de espada, amplificada grandemente por sua lâmina. Antes, sempre que Lex usava um Domínio, era através das leis relacionadas à defesa, pois sua compreensão delas era a melhor. Não desta vez. Desta vez, Lex usou apenas leis relacionadas à sua espada e à intenção de espada para envolver a cidade, criando um Domínio cuja simples presença equivalia a um ataque de plena força de um Imortal da Terra comum.
Todas as investidas que se dirigiam a Lex foram anuladas, e toda a cidade desapareceu sob a erosão da intenção de espada, sobrando apenas as formações defensivas mais robustas capazes de proteger partes essenciais do local.
"Lembro, Belail," a voz de Lex ecoou na extensão agora arruinada, ouvida apenas por alguns sobreviventes de uma cidade anteriormente densamente populada. "Lembro daquele dia, há tantos anos atrás, quando você atacou minha taverna. Um único ataque seu destruiu o que eu mais prezava e me levou ao desespero. Será que minha chegada hoje te fez sentir aquilo que eu senti há tantos anos?"
Dezenas de Kraven se uniram, resistindo ao avanço opressor de seu mais novo Domínio, e lançaram um ataque poderoso de sua própria conta. Uma vez, os Kraven pareceram tão fortes, tão impressionantes para Lex. Agora…
Lex moveu a mão, sem se incomodar em usar nenhuma Lei Mágica — apenas usando Naraka. Sua lâmina, sempre sua companheira fiel, cortou os ataques como se fosse tofu, e ceifou a vida daqueles poucos Kraven.
Alguns quilômetros de Lex, dentro de um bunker altamente protegido que conseguiu resistir ao Domínio de Lex, Belail olhava para fora com grande remorso e relutância. Desde o dia em que percebeu que os Guardiões poderiam, soube que aquele momento chegaria. Fez tudo ao seu alcance para tentar evitar, mas nunca foi permitido deixar esse reino. Foi forçado a trabalhar sob comando daqueles malditos Infernais, e agora enfrentaria seu juízo final.
"Vamos lá, Belail, responda. Consegui recriar aquela sensação, ou preciso me esforçar mais?" perguntou Lex, enquanto avançava com a lâmina.
Um fio branco de intenção de espada cortou a formação defensiva ao redor do bunker, e logo abriu um buraco, revelando Belail, o Kraven.
Ele era bem menor do que os demais Kraven, mas isso não significava que fosse mais fraco. Na verdade, Belail era tão forte que conseguia resistir sozinho à influência do Domínio de Lex. Mas isso era tudo. Essa era a extensão de sua força.
Anos atrás, quando ele enfrentou um Kraven pela primeira vez, a simples presença de um quase o havia incapacitado ou matado, e agora…
Lex suspirou. Alguma coisa assim nem valia a pena ficar pensando.
"Vamos lá, Belail, não tenha medo. Ainda não vou te matar — nossa reunião não precisa ser tão breve e rápida," disse Lex, estendendo a mão. O corpo do príncipe Kraven voou em direção a Lex, como se fosse convocado, até que Lex segurou o Kraven pelo pescoço. "Não, preciso que você testemunhe o que vem a seguir."
Desde o começo ao fim, o príncipe Kraven não disse uma palavra sequer, nem conseguiu resistir.
Se foi por raiva, nojo ou por efeito teatral, pela primeira vez Lex demonstrou supremacia absoluta, ganhando uma compreensão mais profunda de seu princípio.
Aquela pequena conquista levou o Abacaxi ao limite. Em poucos minutos, sua tribulação começaria.