O Estalajadeiro

Capítulo 1824

O Estalajadeiro

Lex voltou ao seu escritório, com os olhos fixos na Conta Kármica. Honestamente, não tinha levado muito tempo para obter essa conta, se comparado a outras tarefas que já realizara. Abaddon, por exemplo, levou anos inteiros para ser conquistado, e, comparado a isso, a conta não demorou quase nada.

Mesmo assim, parecia uma eternidade. Não adiantava mais esperar. Lex estendeu a mão, tocou na conta transparente, imergindo uma gota de sangue nela e canalizando sua energia espiritual para isso.

Antes de poder usar a conta, ele precisava fazer a conexão com ela. O sangue — e até a energia espiritual — que alimentava a conta não eram exatamente os meios pelos quais ele formaria a ligação, porém. Diferente de outros tesouros, como Naraka, a ligação com a conta não era feita por energia. Não, ela era feita pelo próprio karma.

O sangue e a energia serviam apenas como condutos para seu karma. Lex não sabia exatamente o que esperar durante esse processo de ligação, por isso, quando a conta respondeu de repente à sua tentativa, ele ficou preparado para qualquer coisa.

A primeira mudança foi na cor. A conta transparente, sem nenhum karma, começou a escurecer, tornando-se preta, com pequenas luzes cintilantes douradas. Parecia que dentro dela continha uma parte do céu noturno, se todas as estrelas distantes fossem douradas ao invés de brancas.

O que era interessante, no entanto, era que não era algo fixo. Não, as luzes continuavam a piscar dentro da escuridão, e algumas pareciam estar se movendo a uma velocidade perceptível.

Mas aquilo era só o começo. Conforme a fusão avançava, Lex entrou em uma espécie de transe, enquanto a conta se fundia ao seu karma. Enquanto Lex existisse, em qualquer forma ou expressão, a conta estaria ligada a ele pelo karma, em todos os lugares e a todo instante, para sempre.

Porém, para se ajustar completamente ao seu karma para sempre, ela precisava primeiro suportar a totalidade de todo o karma que ele já havia vivido.

Isso começara não no momento de seu nascimento, mas muito antes, há muito, muito tempo. O universo existia de uma forma que, se certas condições para o nascimento de uma determinada raça ou espécie fossem atendidas, então, através de uma série de eventos aparentemente coincidenciais, essa raça ou espécie nasceria.

Em alguns casos, isso acontecia por meio da evolução, começando de um organismo unicelular até seres complexos. Em outros, por mutação de uma raça que já existia. Havia também inúmeras outras formas de nascimento, até mesmo surgindo espontaneamente a partir de uma energia espiritual em turbilhão, dependendo da raça que estivesse sendo formada.

Assim, nem todas as raças tinham uma origem comum. Por exemplo, embora houvesse alguns humanos inicialmente — conhecidos como reis humanos — nem todos os humanos do universo eram seus descendentes. Na verdade, grande parte de sua herança se perdeu, fazendo com que a maior parte da humanidade surgisse por outros meios, apoiada pelo próprio universo.

Portanto, não seria exagero pensar que Lex também poderia ter uma linhagem com uma história muito mais curta do que a dos humanos.

De fato, enquanto a Conta Kármica rastreava as raízes do seu karma, parecia que a linhagem de sua mãe era um exemplo de humanos surgindo das engrenagens das leis universais. A origem dela era da Terra, e, ao menos nesse aspecto, parecia simples. Ou assim parecia à primeira vista.

Durante seu transe, Lex não conseguiu descobrir suas verdadeiras origens kármicas. Ele apenas detectava vagamente o que a conta fazia, e, naquele momento, ela buscava tudo e qualquer coisa que pudesse ter resultado em seu nascimento, começando por sua mãe.

Embora as origens dela permanecessem comuns, havia uma conexão kármica sutil que ela formara ao longo de sua vida, e que afetou profundamente Lex. Essa conexão parecia ter se originado de um passado ancestral…

Porém, a conexão foi interrompida, e até a Conta Kármica não conseguiu desvendar seus segredos. De qualquer forma, aquilo era tudo o que Lex poderia saber sobre suas raízes kármicas pelo lado de sua mãe.

Já pelo lado de seu pai, parecia que seu karma era bastante complicado.

À medida que a conta começava a rastrear seu karma através de cada geração de sua família, a energia dentro da pousada começou a oscilar, como se estivesse sendo afetada por algo devastadoramente poderoso.

Muitos perceberam a mudança, mas ninguém conseguiu entender o que a causava — nem Wu Kong. Muitos intuíram que o anfitrião estava fazendo alguma coisa novamente. Alguns até começaram a estudar as alterações. Mas os verdadeiramente poderosos permaneciam confusos. Por que eles não conseguiam detectar a origem dessas mudanças?

Era como se houvesse um véu ao redor da origem, protegendo-a de ser descoberta. Era semelhante ao fato de os Dragões do Dao Lorde não conseguirem detectar as origens de Jack.

Enquanto observavam, e alguns até enviavam relatórios aos seus apoiadores sobre as mudanças incomuns, o que eles não sabiam era que o espetáculo… mal tinha começado.

Lex observava enquanto a conta continuava a percorrer a história de sua família, buscando a raiz de seu karma, e até conseguiu descobrir alguns segredos aleatórios ao longo do caminho. Ela rastreou sua origem até William Sephore, o refugiado do Reino da Origem. Por uma fração de segundo, a conta pareceu pausar ali, como se aquele fosse seu ponto de origem.

Mas foi apenas uma pausa, não uma parada definitiva. Então, a conta continuou a viajar ainda mais para trás, desta vez numa velocidade tão rápida que Lex mal conseguiu captar algo.

O nome Sephore, parecia, tinha raízes grandiosas e laços kármicos imensos, maiores do que Lex tinha imaginado. Ele não conseguiu detectar a razão exata, mas percebeu que havia mais na história de sua família do que o próprio Imperador Jotun sabia. Isso porque Lex sentiu algo familiar, algo que pessoas de seu nível não deveriam conseguir identificar. Sentiu a aura de um Dao Lorde.

Quanto mais a conta recuava na história, mais rápido ela começava a traçar suas origens. A velocidade aumentou tanto que Lex ficou completamente incapaz de compreender o que estava acontecendo.

De centenas de milhares de anos, passou a milhões, depois a centenas de milhões, bilhões… até o nada. A conta não conseguiu rastrear suas verdadeiras origens, pois elas foram apagadas, exatamente ao final da primeira era!

A cabeça de Lex girava com as implicações, mas a própria conta não parava. Este era apenas o começo de sua fusão com o karma, pois tudo tinha começado por suas origens. Agora, começaria pela sua vida.

Sem que Lex soubesse, quanto mais karma a conta absorvia, mais forte se tornava sua aura, e mais pesada ela ficava contra o karma ao redor. Para manipular o karma, a conta precisava de seu próprio peso kármico como âncora, e quanto maior fosse esse karma, mais ela poderia influenciar outros karmas.

Ela ainda nem havia começado a absorver o karma que Lex acumulou em sua vida, e já exalava uma pressão que afetava todo o reino da Meia-noite.

Ou, talvez, Orin fosse o único capaz de perceber o que realmente estava acontecendo. Os outros começavam a ficar preocupados.

Apenas os mais poderosos Imortais Celestiais podiam detectar alguma coisa, mas o sussurrar daquela aura antiga, que remontava à Primeira Era, era algo que os alarmava profundamente.

De imediato, inúmeras especulações sobre o anfitrião começaram a circular, enviadas a todas as organizações às quais eles pertenciam.

A maioria delas concluía, no entanto, que ele devia ser alguma entidade antiga da Primeira Era! Por mais inacreditável ou improvável que parecesse, essa era a hipótese mais comum.

A conta começou a absorver o karma de Lex, e a maior parte dele parecia bastante insignificante. Quase tudo. Mas um evento, no entanto, revelou ter uma importância bem maior do que Lex esperava.

Como a conta não buscava mais tão longe no tempo, Lex conseguiu captar algumas pistas do que podia ter sido esse evento. Foi o dia… em que seus pais consultaram o oráculo que previu que ele estaria bem até os cinquenta anos, caso nunca cultivasse.

Mas então, a conta continuou seu caminho, sem dar tempo a Lex de refletir, deixando-o confuso. Karma e destino não são a mesma coisa. Aquele dia deveria ter sido o que mais influenciou seu destino por anos a fio. Mas o que isso tinha a ver com karma?

Lex não teve muito tempo para pensar, pois logo chegou ao dia em que recebeu seu sistema. Aí… a verdadeira peça começou a entrar em cena.

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