O Estalajadeiro

Capítulo 1797

O Estalajadeiro

Lex estava sentado na sala privada, com agora apenas Harry ao seu lado. Na verdade, os dois até conversavam entre si, discutindo sobre o leilão e tudo o que havia acontecido. Contudo, a maior parte de sua atenção estava concentrada no jogo que se desenrolava entre ele e um oponente desconhecido.

Até então, Lex já havia desistido de achar que algo pudesse acontecer e aceitava plenamente que estava na fase de preparação de algum tipo de armadilha. Uma tentativa de quê, e por quem, Lex não sabia.

Considerando todas as possibilidades, todas as ameaças, os perigos lá fora, era fácil ficar sobrecarregado. Não precisava ser um Senhor Dao — apenas alguns Imortais Celestiais podiam superá-lo severamente, desde que ele não estivesse protegido pelos mercenários do Reaving Dread.

Porém, isso não abalou Lex, nem mesmo deixou nele um vestígio de medo. A morte era morte, fosse por uma espada no ventre ou por um imortal esmagando-o. Ele enfrentava a morte desde que começou sua jornada, então um adversário mais formidável não exercia mais pressão sobre ele do que os zumbis que enfrentou há tanto tempo, quando visitou Vegus Minima pela primeira vez.

Mas, novamente, nada menos do que isso se poderia esperar de talvez o único mortal na história do universo que conversou — não com um, mas com muitos Lordes Dao — como se fosse seu igual. Claro, tinha feito isso sob a proteção do sistema. Na primeira vez que o fez, mal compreendia a magnitude do que tinha realizado. Isso não mudou o fato de que continuava fazendo.

Quando tudo foi dito e feito, era um fato que Lex tinha atingido alturas fenomenais, e mesmo com a ajuda do sistema, sua própria persistência e força de vontade não podiam ser ignoradas.

Portanto, independentemente da força, do passado ou das intenções do inimigo de Lex, ele o enfrentava com uma confiança e certeza como se realmente possuísse o imenso poder do Intendente.

Apesar das ondas constantes de novos e antigos convidados, Lex conhecia profundamente o fluxo de Carma dentro da Taverna.

Naturalmente, os detalhes mudavam com cada indivíduo, influenciando a grande tapeçaria de Carma que permeava a Taverna, mas ela mesma dava a estrutura geral. Uma forma de entender era se a Taverna fosse o edifício, então os convidados seriam os móveis.

Mesmo que os móveis mudassem constantemente, Lex podia ler e prever como seria sua forma ou orientação geral. Por exemplo, se o cômodo fosse muito pequeno, uma cama enorme não caberia nele. Se o teto fosse baixo demais, não haveria espaço para um grande lustre. Papel de parede não podia ser colocado onde não há paredes, e mesas não poderiam ser acrescentadas onde não há piso.

Lex não se atrevia a olhar muito profundamente o Carma. Havia entidades demais dentro da Taverna, além dele. Isso não significava que ele desistisse.

Inconscientemente, Lex começou a emitir uma aura profundamente poderosa, como se fosse um rei, observando seu próprio domínio. Harry não se incomodava com isso, principalmente porque ainda não podia senti-la completamente. Seria preciso alguém mais forte para perceber o que estava acontecendo com Lex — ou um paladino.

Apesar de seu juramento de proteger aqueles que amava, e de não ter feito isso recentemente, a preocupação com que gerenciava e protegia a Taverna despertava uma ressonância com seu juramento. A Taverna da Meia-Noite não era uma pessoa por quem ele se importava, mas era seu lar, e ele se importava imensamente com ela. Proteger isso também começava a impulsionar um crescimento gradual de seus poderes, como se o próprio universo estivesse o observando e reconhecendo a realização de seu juramento em um nível tão profundo que até ele mesmo desconhecia.

Z, que apoiava-se numa parede, finalmente levantou o olhar quando o outro lado do conflito enfim apareceu.

"Você apareceu. Achei que ia desistir da disputa," disse Z, olhando para o orc na liderança.

"Por que eu iria abrir mão das minhas riquezas de guerra, ainda mais agora que posso duplicar tudo?" respondeu casualmente o orc, avaliando o camaleão.

"Palavras grandiosas de um covarde que só ataca quem é mais fraco," cuspiu o camaleão, levantando-se lentamente e deixando sua força crescer.

Apesar de toda hostilidade do camaleão, o orc permanecia indiferente, como se estivesse há muito acostumado a cenas assim.

"Ambos terão que chegar a um consenso sobre como resolver essa disputa entre vocês," disse Z, observando ambos. "Se não conseguirem um acordo, a Taverna será obrigada a julgar a questão."

O orc riu, como se tivesse ouvido algo divertido.

"Ah, acho que ambos temos a mesma ideia de como resolver a conflito," disse o orc, provocando o camaleão com o olhar.

"Desafio você para uma Luta de Morte," afirmou o camaleão, sem meias-palavras. "O sobrevivente leva tudo que o outro tinha."

"Ah não, não é tão simples assim, lagarto," respondeu o orc, sacando uma espada e um escudo de uma armazenamento espacial. "Se quiser reivindicar o cadáver, terá que lutar não só comigo, mas com toda a minha escolta também!"

Z levantou uma sobrancelha. Isso era claramente injusto, e dava para perceber que o orc estava provocando o camaleão para aceitar a luta desigual.

"Perfeito," respondeu o camaleão, sacando duas sais. "Assim, evito o trabalho de matar todos depois."

Todo o grupo desapareceu da sala, deixando Z sozinho na sala.

"Pois é, isso foi muito mais fácil do que eu imaginava," disse Z, tomando assento. "Nem precisei ameaçar ninguém."

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