O Estalajadeiro

Capítulo 1775

O Estalajadeiro

"Mary, eu não fico de olho na Giselle," disse Lex, enfatizando bem o 'não' para deixar claro a mensagem. "E o nosso relacionamento não é assim. Somos só amigos. Seria muito inadequado…"

"Inadequado a quê?" interveio Mary, com a boca cheia de frango frito. Sério, como ela conseguia comer assim? "A agir como uma pessoa totalmente normal e realmente convidá-la para sair, assim ela pode decidir por si mesma se quer ou não, ao invés de você fazer suposições? Ela claramente tem um passado complicado, e alguns pesos não ditos que carregam nela. Ela é literalmente o molde perfeito de uma donzela — uma donzela competente, autossuficiente, mas ainda assim uma donzela — que claramente precisa ser salva por um cavaleiro de armadura brilhante. Ou, sabe, por você, de terno. Aliás, já decidiu nunca mais usar outra roupa? Você sabe que uniforme de trabalho não é como uma sentença de prisão. Pode usar jeans de vez em quando, especialmente quando for o chefe. Ou entre os horários de trabalho."

Lex colocou a mão na cara de novo, mas Mary não dava a menor atenção.

"Ei, não me culpe por falar a verdade. Você foi o que ficou todo meloso comigo dizendo que eu sou uma amiga confiável. Então, confie em mim para compartilhar meus pensamentos sinceros com você. Já passou da hora de você tentar namorar alguém que não seja um terrorista. Ou isso também é coisa que você quer tentar jogar na conta dos seus pais? Esqueceram de falar para você sobre o 'as aves e os bees'? Tudo bem, eu estou mais do que qualificada para te passar a palestra."

A conversa era tão absurda que Lex começou a rir, olhando para o teto, sem ideia de como fazer Mary parar. Deve ser alguma droga na galinha, essa é a única explicação que faz sentido.

"Mary, você está ridícula," finalmente disse Lex. "Sabe que minha vida e meu futuro são incertos. Posso morrer a qualquer momento. Como posso me envolver romanticamente com alguém, sabendo que posso morrer a qualquer instante?"

"Então você não quer convidar aquela gata de cabelo prata porque pode morrer a qualquer hora? Como todos os mortais na terra onde vocês viviam antes? Sabe, aqueles que namoraram, se casaram e tiveram sobrinhos e sobrinhas para seus amigos leais brincarem?"

Lex olhou para cima, sorrindo de novo — não porque estivesse feliz, mas porque a absurdo da situação dominava sua mente. Rir e sorrir parecia ser sua reação ao estresse atualmente. E desde quando Mary virou uma debatedora experiente?

"Você poderia, por favor, não chamá-la assim? E saiba que minha situação é diferente," disse Lex.

"Olha só, cavaleiro de armadura reluzente, vindo aqui pra defender a honorabilidade da dama atrás dela. Mas, tudo bem, eu paro. Me considere uma dama de coração mole. Mas você não engana ninguém. Pode flertar um com o outro pelos próximos séculos antes de finalmente se perguntarem se devem ou não correr atrás. A maioria das histórias de amor no mundo da cultivação dura milhões de anos, de qualquer jeito."

"Lembro de uma história onde a garota era tão tímida que esperou 700 mil anos para ver seu amor novamente. Demoraram milhões de anos para pelo menos conversarem. Mas, meu Deus, a escrita era tão boa. A tensão dava para de cortar com uma faca. Eu era um leitor assíduo por, sei lá, alguns séculos enquanto a história rolarava."

Lex respirou aliviado ao ver Mary concordar em deixar o assunto de lado…

"Se não for a Giselle, e que tal aquela garota oráculo? Você é bem próximo dela…"

Lex colocou a mão na cabeça novamente. Parece que hoje ele não evitava ser zoado. Se for assim…

"Ah, Mary, você não percebe. Como posso ficar fascinado por outra quando você está bem aí, no meu ombro, feita para parecer minha primeira paixão? Talvez… minha última paixão."

Em vez de ficar incomodada com as tentativas de Lex, Mary riu alto e aproveitou para dar uma mordida grande na coxa de uma asa de frango, bem satisfeita. Muito sexy.

"Rapaz, já estou velha a ponto de, mesmo vivendo mais cem milhões de anos, ser vista como uma pedófila só por olhar para você errado. Sem falar que já fui casada uma vez, tive filhos, muitos descendentes, que hoje provavelmente são Senhores do Dao."

"Sério?" Lex perguntou, de repente surpreso. Foi então que percebeu que sabia quase nada da vida da Mary.

"Não, muito não," disse Mary, apoiando-se para trás. "Namorar como Celestial é uma chatice, e quando você vira um Senhor do Dao, o leque de opções fica bem menor. Mas, com certeza, namorei muito mais do que você. Acho que um antigo amor meu ainda está vivo."

Mais uma vez, Lex ficou chocado. "Sério mesmo?"

Mary deu uma risadinha.

"Claro que não. O sistema não permite que eu conte nada da minha vida antiga. Risco demais de você tentar fuçar onde não deve. Meu ponto é, sei que sou linda, mas, na verdade, sou bastante mais velha do que você. Melhor a gente focar em mulheres de verdade, que estejam vivas e respirando por enquanto. Dentro de um século, espero, com talento na cultivação perto do suficiente pra, pelo menos, ela conseguir se tornar uma Imortal Celestial daqui pra frente."

Lex resmungou.

"Você não vai desistir, né?"

"Por que eu iria? E aquela garota elfa que você escreveu um poema uma vez? Não lembro o nome dela, mas você foi bem encantador com ela, não foi?"

Lex colocou a mão na cara de novo e suspirou. Ia ser um dia bem longo.

"Quer aceitar um encontro às cegas? Conheço uma moça que visita a Taverna de vez em quando. Uma doce e que mora numa loja de supermercado no planeta dela. Você ia se surpreender com o talento de cultivação dela, na verdade. Ela é uma verdadeira gênia discreta."

Lex suspirou mais uma vez. Já tinha suspirado mais hoje do que nos últimos vinte anos. Ele simplesmente teleportaria embora… se ao menos Mary não pudesse aparecer no ombro dele toda hora que quisesse.

"Espera aí, não me diga que é porque você está consciente do seu peso? É, seria um problema se você esmagasse sua namorada até ela morrer. Melhor ser cultivadora de corpo."

Lex colocou a mão na cara mais uma vez.

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