
Capítulo 1767
O Estalajadeiro
Após observar o punhal por alguns minutos, o Celestial desviou o olhar e começou a examinar o escritório ao redor. Durante toda a cena, não conseguiu deixar de refletir sobre seu próprio estado mental.
Há pouco tempo, apenas ver um Senhor do Dao no palco tinha causado nele, e, honestamente, em todos os presentes, um estremecimento. Todos tiveram pensamentos diversos, sem saber como reagir à surpresa repentina, e só conseguiram se acalmar depois que o próprio Senhor do Dao lhes ordenou. Quem iria desobedecer a um Senhor do Dao? Ninguém. Ninguém iria contrariar as palavras de um Senhor do Dao.
No entanto, de forma surpreendente, agora ele estava sentado exatamente na frente do Intendente, um dos mais, senão o mais respeitável, novo Senhor do Dao que a Aliança Humanoide vinha observando. A surpresa não era ele estar ali, na sua frente. A surpresa estava na sensação de calma, de tranquilidade que ele sentia ao estar diante do Intendente.
Todo o pânico e ansiedade que havia sofrido enquanto antecipava esse encontro pareciam evaporar, como se nunca tivessem existido. Era como se estivesse encontrando apenas mais um indivíduo qualquer, e não um Senhor do Dao todo-poderoso, cuja existência própria vinha alterando a política externa da Aliança Humanoide.
O Intendente abriu a gaveta, colocou o papel nela casualmente e voltou o olhar para o Celestial.
"Não captei seu nome," disse o Intendente, ao invés de se dirigir à carta.
"Ah, sim, desculpe-me, Intendente. Meu nome é Biscus," respondeu o Celestial. Naturalmente, ele não achava que o Intendente realmente desconhecia seu nome. Era um Senhor do Dao, claro que sabia. Talvez fosse apenas uma questão de cortesia, de se apresentar devidamente primeiro.
"Sem necessidade de desculpas, Biscus. Não é nada demais. Mas há uma questão: a carta ainda não explica por que você acha que posso ajudar na sua missão. Como talvez saiba, geralmente não me envolver com assuntos fora do Pouso da Meia-Noite."
Biscus sorriu de forma constrangida, mas, por algum motivo, sentiu que não havia motivo para hesitar em explicar o motivo da decisão da aliança e esperava que isso mudasse a opinião do Intendente. Dúvidava, porém. Se nem a carta tinha sido suficiente para convencê-lo, duvidava que Biscus conseguisse.
"Bem, como vocês devem saber, informações sobre o Templo do Jejum devem ser mantidas em sigilo extremo. Mesmo a própria aliança não consegue localizar sua posição ou estabelecer contato. Contudo, por meio de uma mensagem enviada pela própria Senior Cassandra, ficamos sabendo que ela está tentando adentrar o reino do Dao.
"A aliança atribui grande importância a isso, pois, se ela conseguir, poderá elevar toda a raça humana, o que também beneficiaria bastante a aliança. O problema, pelo que entendi, é que o Templo do Jejum fica em um reino imaturo, impossibilitando que ela complete uma tribulação do Dao. O Reino da Meia-Noite, por sua vez, também não é maduro e, por isso, não consegue suportar uma tribulação dessa magnitude. Portanto, precisamos transportar a senior Cassandra para um local seguro, onde ela possa realizar sua tribulação sem dificuldades."
O Intendente recostou-se em sua cadeira, observando Biscus enquanto ele falava, embora seus próprios pensamentos fossem para outro lado. Cassandra tinha sido, de certa forma, professora de Lex, na época em que ele foi ao Templo do Jejum. Ao pensar nisso, ela tinha sido mais uma espécie de babá, ou, ouso dizer, de mãe, do que uma professora propriamente dita. Mais do que o seu treinamento, o que Lex lembrava era de ela ter forçado comida nele e feito questão de garantir que ele dormisse bastante.
Embora, no começo, tivesse desconfiado dela, pensando bem agora, Lex percebia que sua desconfiança tinha mais a ver com seus próprios problemas do que com as ações de Cassandra. Ser enganado pelos pais, e depois abandonado, era uma coisa que levava tempo para superar. Ele não tinha visto ela há algum tempo, principalmente porque, como Biscus mencionou, ela se preparava para se tornar uma Senhor do Dao.
Lex não sabia os detalhes. Não sabia se a tribulação dela já tinha começado, ou se ela estava em alguma preparação para tal, ou se algo mais estava acontecendo. Quanto menos ele soubesse sobre questões do Dao por enquanto, melhor. Mas o que ele sabia era que o corpo principal de Cassandra estava no Templo do Jejum, que fica no Reino da Origem. Portanto, ela estava em um reino ainda imaturo.
Porém, o problema permanecia. Mesmo que Lex conseguisse de alguma forma chegar até ela — o que ele não podia — ele não tinha certeza de que mover Cassandra seria a melhor ideia. Afinal, ela era uma mulher inteligente. Se precisasse deixar o Reino da Origem para sua tribulação, ou se precisasse de ajuda dele ou do Intendente, ela teria mencionado. Ela não tinha feito isso. Então, agora, não apenas Lex não poderia ajudar a aliança a conseguir acesso a ela, como também não queria.
Além disso, o fato de os humanos do Pouso poderem treinar no Templo do Jejum deveria ser um segredo. O templo não é um local aberto a qualquer um. Pode ser acessado apenas por humanos, e mesmo assim, Lex só permitia que seus trabalhadores entrassem. Então…
"Biscus, entendo as intenções da aliança e a lógica por trás dela. Esse não é o problema. Eu tenho comando sobre o Pouso, não sobre o Templo. Desconheço sua localização, nem tenho meios de me comunicar com Cassandra, desde que ela entrou em recolhimento. Portanto, o problema continua. Não é que eu não queira ajudar. Simplesmente, não posso. Não sei por que a aliança acha que eu poderia ajudar nisso de início."
Biscus sorriu de forma constrangida. Como ele saberia? Acabaram de dizer que passar a carta resolveria todos os problemas. Mas, mesmo após ler a carta, o Intendente parecia relutante ou incapaz de ajudar.
"Vou repassar sua resposta," disse Biscus. "Desculpe pelo incômodo."
"De maneira nenhuma," respondeu o Intendente, acenando com as mãos. "O Pouso é aberto a todos, e não me importo de tratar de qualquer questão que você, ou a aliança, tenham. Sinta-se à vontade para procurar o Pouso sempre que quiser."