O Estalajadeiro

Capítulo 1757

O Estalajadeiro

Lex levantou uma sobrancelha e quase quis dizer que ela não tinha com o que se desculpar. Em vez disso, suspirou.

— Não é sua culpa, Liz. Você não fez nada comigo — ele falou suavemente.

— Não, Lex. Não somos mais crianças — ela respondeu com um pouco mais de força na voz. — Depois de um certo ponto, temos que parar de culpar nossos pais pelos nossos próprios erros. Você me encontrou, me resgatou, me deu um lugar seguro para me esconder de quem me perseguia, e até me proporcionou a parceira mais incrível para minha cultivação. E o que eu fiz o tempo todo foi fazer birra como uma criança mimada.

— Admito, passei muito tempo sozinha, fugindo, por isso me sentia insegura na companhia de outras pessoas. Não é uma desculpa, é só como as coisas eram. Mas se esperamos que os outros se comportem de forma mais madura, e que a gente espere o melhor de todo mundo, então também temos que ser os melhores. Você me tratou como sua irmã mais nova, e eu dei isso como garantido. Por isso, peço desculpas.

Lex não respondeu de imediato, apenas absorveu suas palavras e as aceitou. Para ser honesto, Lex já não se importava tanto com as questões familiares — desde que aceitou a Taverna como seu lar e sua família. Seus pais tinham problemas graves, mas já faziam tantos anos, e tudo tinha acontecido há tanto tempo, que Lex mal se importava.

Sim, Lex foi abandonado e teve que se virar sozinho, mas conseguiu, e as coisas acabaram dando certo. Eles lhe proporcionaram uma infância decente, que poderia ter sido muito pior, então ele usou isso para equilibrar as coisas na sua cabeça. Se fosse para pesar, ele se sentia mais indignado em nome da Moon, não dele mesmo.

Ele não tinha mais expectativas em relação à família — nem mesmo às irmãs. Só tinha algumas pendências, como encontrar a Belle, e rasgar Damian em pedaços, mas isso era tudo.

Por isso, receber uma desculpa de surpresa, e tão sincera, o surpreendeu. Para falar a verdade, ele não precisava dela, e não achava que Liz tivesse feito algo errado. Ele entendia o quanto deve ter sido traumatizante para ela viver na ausência de um lar, fugindo o tempo todo, e era natural que ela fosse tão desconfiada.

Isso não significava que ele não apreciasse a desculpa dela. Embora ela não tivesse nada a pedir desculpas, era um sinal do esforço sincero que ela estava fazendo para reconstruir… ou talvez criar, sua relação com ele.

— Sabe, nem lembro a última vez que te vi de verdade — disse Lex, com um sorriso silencioso. — Ou será que o tempo todo só tenho visto clones de você? Nem sei mais.

Liz ficou em silêncio por um tempo, os olhos perdidos, como se tivesse se perdido nas suas próprias memórias.

— Foi numa manhã de quase quinta-feira aleatória — ela disse. — Gostaria de poder te contar algo especial que aconteceu nesse dia, que marcasse, mas não teve nada. Fomos para a escola, mas, na realidade, fui retirada da Terra e meu clone ficou aqui. Ter um clone era esquisito — às vezes, eu estava conectada a ele o tempo todo, e outras, eu baixava as memórias dele nos meus sonhos. Como criança sem cultivação, às vezes era difícil processar toda essa informação adicional.

Lex não pôde deixar de virar sua atenção para os clones. Como isso funcionava, afinal?

— Onde vocês conseguiram clones tão incríveis assim? — Lex não pôde deixar de perguntar. — Mesmo agora, como Imortal, ainda não encontrei uma técnica de clonagem que me satisfaça ou funcione direito, mesmo a longas distâncias. Como vocês, quando crianças, conseguiam clones que funcionavam de sistemas estelares diferentes, sem cultivação alguma?

— Mãe — respondeu Liz sem precisar pensar —, ela é uma biológica genial... algo assim. Não estou brincando. Mesmo antes de chegar ao reino da Alma Nascente, ela criou a técnica de cultivação do pai, que o tornou um imortal. A técnica que uso com o Nemo para canalizar seus poderes no meu corpo, a técnica que a Belle usa para usar energia divina — todas foram criadas por ela.

— Ela também foi quem fez os clones, e quem sabe o que mais ela fez ao longo desses anos. Tenho quase certeza de que a razão de todos nós termos corpos tão incríveis é porque ela os criou de alguma forma.

Lex deu uma risadinha. Uma gênio? Ela poderia tê-lo enganado — mas, para falar a verdade, ele não se importava mais.

— Enfim, esquece tudo isso do passado. Aprecio sua desculpa, e, embora eu ainda ache que você não tenha nada para pedir perdão, aceito. Agora, a questão é: quais são seus planos?

— Ah, tenho algumas ideias, mas queria te consultar primeiro — você conhece esse lugar melhor do que ninguém.

Lex sorriu e se inclinou um pouco mais, pronto para ouvir seus planos.

— Bem, primeiro de tudo, não pretendo sair daqui tão cedo — pelo menos até ficar realmente forte. Um imortal, no mínimo. Se, quero dizer, se você topar. Sei que a Estalagem da Meia-Noite custa caro para ficar, então, se estiver pesado, posso arrumar um emprego. Já dei uma olhada, e o salão da Guilda tem várias oportunidades para uma garota como eu — não quero ser um peso para você nem nada assim.

— Mas não posso simplesmente ficar parada enquanto cultivo, então, além de conseguir um trabalho, pensei em viajar. Pelo que ouvi do Nemo, o Reino da Meia-Noite é muito maior que a Terra, então posso passar anos explorando, conhecendo gente, e…

Lex sorriu suavemente enquanto ouvia Liz soltar todas as ideias que tinha, sua empolgação e entusiasmo transbordando como se fosse uma menininha levando para um parque de diversões. Nos detalhes minuciosos que ela elaborava, Lex podia ver a infância que Liz nunca teve, e sentir uma calor que enchia seu peito. Isso… é exatamente o que a Estalagem da Meia-Noite representa. Um lugar seguro onde as pessoas podem viver e aproveitar a vida, sem medo de perseguição.

Era um lugar onde Liz poderia ser criança. Era um lugar que ele protegeria para sempre.

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