O Estalajadeiro

Capítulo 1741

O Estalajadeiro

A sobrecarga sensorial acontecia quando um ou mais dos sentidos de uma pessoa eram sobrecarregados. Era como a sensação de não conseguir pensar porque a música estava muito alta, ou de não conseguir se concentrar porque o clima estava tórrido, ou de não conseguir olhar para alguma coisa porque tinha comido algo muito apimentado.

Esse era um exemplo de sobrecarga quando apenas um sentido era afetado, mas era completamente possível que vários sentidos fossem sobrecarregados ao mesmo tempo. Desde que começou a cultivar, Lex adquiriu ainda mais sentidos, mas a sobrecarga sensorial nunca foi um problema, pois seu espírito, ou suas faculdades mentais, cresciam proporcionalmente.

Hoje, entretanto, revelou-se um dia especialmente difícil. A condição dele, equivalente mortal ao que estava acontecendo, seria como estar sentado numa poltrona de avião de classe econômica, apertada, no auge do verão, com o ar-condicionado parado, fazendo o avião ficar um forno. Ele mal conseguia lidar com o calor, e ainda por cima, o voo havia sido adiado indefinidamente quando um bebê começou a chorar na fila à sua frente, e uma criança começou a chutar seu assento por trás.

A pessoa ao seu lado ficou enjoada e vomitou na sacolinha de vômito, espalhando um cheiro desagradável, e para completar, ele tinha uma dor de cabeça horrível.

Na verdade, uma situação assim só poderia descrever vagamente a agonia que Lex estava suportando, pois não conseguia levar em conta seus sentidos adicionais, como o sentido de espírito, o instinto e a consciência do espaço — além de ter sua consciência dividida entre ele mesmo, Jack e seu clone.

No meio de tudo isso, Lex precisava focar em proteger Kaemon, o que não era exatamente difícil — pelo menos por enquanto. Mas a combinação de tudo simplesmente o dominava até que ele fosse forçado a fazer algo que vinha evitando há tempos.

Ele usou sua forma de dragão. O motivo de não querer usar essa forma não era uma besteira, como não querer transformar sua forma humana, o que também era verdade. Não, o motivo eram os riscos reais que essa forma trazia.

Dragões, apesar de não serem Anciões nem Sábios, definitivamente não podiam ser subestimados. Como indivíduos, eles eram ocasionalmente caçados, mas todo o universo reconhecia sua força, pois nunca perderam uma guerra. Batalhas, sim, eles perderam. Uma guerra, nunca.

Toda sua arrogância, sua postura, seu isolamento e natureza solitária não os impediam de se levantar e conquistar seu lugar no universo sempre que necessário.

Humanos, mesmo apoiados pela Aliança Humanoide, não conseguiam alcançar o que os dragões fizeram por si mesmos sem apoio adicional.

Por isso, fazia sentido Lex imitá-los e até pegar emprestado sua força para si. Sua técnica de cultivo era excelente nesse aspecto. Mas ele tinha uma sensação forte de que confiar na sua forma de dragão poderia mudar sua própria essência de humana para dragão. Ele já tinha um coração de dragão, e não queria substituir outros órgãos, mesmo que isso lhe rendesse mais poder.

Infelizmente, nesta ocasião, ele foi levado ao limite, e por isso, decidiu fazê-lo.

Seu coração de dragão pulsou, exatamente como fizera inúmeras vezes antes, mas desta vez o som do batimento se assemelhava a um cântico antigo, entoado de dentro do seu corpo.

O sangue de Lex começou a ferver, e vapor começou a sair de sua pele enquanto sua temperatura corporal subia. Por um momento, sua pele se contraturou, deformando-se para formar escamas, mas isso foi rápido demais. Sua pele já era forte o suficiente para atuar como escamas de dragão.

Seus olhos se tornaram amarelos, e suas pupilas alongaram-se, parecendo mais com as de um dragão. Sua vontade começou a adquirir um aspecto físico, quase como se pudesse tocar o mundo apenas com sua vontade — separado do sentido de espírito — mas sua Dominação rapidamente tomou seu lugar.

Fogo dourado imprintou-se na sua garganta, a Leiartesanato assumindo forma física, permitindo-lhe respirar chamas douradas com a mesma naturalidade com que respirava.

Parecia que já era metade dragão, o que o protegia bastante da influência de sua segunda forma. Mas, é claro, havia um limite para o que podia substituir.

Os ossos da sua coluna começaram a se transformar, permitindo que duas grandes asas crescessem pelas costas, além de uma longa cauda. Duas chifres surgiram de seu crânio, formando quase uma coroa, que combinava com seu novo status de dragão parcial. Suas unhas cresceram longas e afiadas, e suas emoções já irritadas começaram a arder como uma chama profunda e intensa.

— Você fala demais para alguém que só provou a derrota — disse Lex, sua voz retumbando na torre de farol enquanto seu olhar se dirigia ao Cavaleiro das Trevas, iluminando de repente a escuridão com uma luz amarela magnífica. — Você acha que Abaddon te protege ao te ressuscitar tantas vezes? Não, ele só te escraviza. Nada pode te salvar quando você cruzar meu caminho.

Lex agitava suas asas e segurava o monstro negro, ignorando o fato de que seu tamanho era várias vezes maior do que o dele. No momento em que Lex segurou nele, o cavaleiro congelou e todos os outros monstros próximos também pararam.

Um frio tomou conta do ar, algo estranho para eles. Era a sensação de encarar de frente um predador, recém despertado de seu sono profundo.

Lex não atacou o Cavaleiro das Trevas. Não, ele sorriu cruelmente e exerceu sua vontade sobre o cavaleiro, até usando os caracteres do Livro das Mudanças para tornar sua vontade permanente, fazendo a língua do cavaleiro recuar e sumir da boca…

O Cavaleiro das Trevas abriu a boca, tentando gritar de horror, mas nenhum som saiu. Desde que nasceu, passou a não conseguir mais gritar. Lex havia reescrito as leis da existência do Cavaleiro das Trevas, sem desafiar a autoridade de Abaddon. Assim, não havia obstáculo para tornar tais mudanças permanentes, mesmo ao longo de todas as futuras reencarnações dele.

O sorriso de Lex se expandiu ainda mais, e ele virou para os outros monstros.

— Não sei por que não fiz isso antes — disse Lex, sua voz trovejante, um ataque sonoro que fazia as orelhas sangrarem e os corpos tremerem. — Essa forma é muito… superior. Talvez devesse torná-la… permanente.

Em algum lugar da sua mente, Lex sentiu que aquilo era uma péssima ideia. Mas o poder imenso que sentia era tão viciante que o impedia de abrir mão desta forma.

Na busca gloriosa por poder, qual o sentido de permanecer em uma forma mais fraca?

— Argh, ouvir você falar é pior do que lidar com o Bob, — comentou Lex consigo mesmo. Ou melhor, Jack, falando com Lex na forma de dragão. — Pare de fazer monólogo e mate logo todos os monstros ao seu redor. Você não percebe que algo tomou controle do nosso clone perto do Poço? Precisa recuperá-lo logo antes que algo ruim aconteça.

— Não me diga o que fazer — respondeu Lex ao seu eu fada. E, claro, ele também começou a atacar rapidamente, deixando de lado seu desejo imenso de louvar sua própria força por horas. Seja Jack, Lex ou o dragão-Lex, eram todos a mesma pessoa, mesmo agindo de forma diferente.

Na sua superioridade intelectual, Lex atribuiu as diferenças de personalidade não a aspectos distintos da alma, mas aos hormônios do corpo físico. Os corpos não eram apenas transporte da alma, mas também o canal pelo qual a alma interagia com o universo. Portanto, era óbvio que cada conduíte reagiria de uma maneira diferente.

Ele não entendia por que uma verdade tão simples podia ser negligenciada por outros, incluindo a si mesmo. Mas, agora, sendo parcialmente um dragão, fazia todo sentido que fosse mais inteligente do que antes.

— Eu sei — disse, convencido, para si mesmo. — Eu sou o melhor.

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