
Capítulo 1658
O Estalajadeiro
A cópia de Lex estava na beira da cachoeira, observando o líquido cristalino caindo com uma fúria ensurdecedora. Na Terra, a água de geleira era geralmente considerada uma das fontes mais puras disponíveis. Aqui, a água de geleira carregava um resquício de contaminação há muito esquecida, tornando a sua composição extremamente agressiva e perigosa ao toque — embora Lex não estivesse pensando em tomar banho naquela água ou algo do tipo.
_logo atrás da cachoeira, um arco era visível, coincidindo exatamente com o tamanho perfeito para permitir a passagem de Lex. Mas, através do arco, ele só via sombras, como se levasse a um caminho sem iluminação.
Cuidadosamente, para não perturbar a cachoeira, Lex contornou a água e se aproximou do arco, entrando nele.
Por sorte, nada de louco ou abrupto aconteceu. O arco que levava de volta à mesma cachoeira permanecia atrás dele, e, para garantir, ele saiu e entrou algumas vezes. O arco continuou no lugar, e nada ao redor mudou.
Depois de concluir o experimento, Lex atravessou o arco e começou a explorar. Era escuro, mas a escuridão não tinha um caráter místico. Era simplesmente porque parecia estar dentro de uma caverna enorme.
Da ponta do seu dedo, ele conjurou uma luz tênue, que iluminou a caverna. Parecia algo completamente natural, embora um pouco grande, com inúmeras estalactites e estalagmites. Em algum lugar ao longe, Lex ouviu o som de gotas de água pingando em uma poça — mas isso não era o que captava sua atenção.
Logo à sua frente, como se estivesse preocupado que ele pudesse não encontrá-lo, havia um grande edifício qualquer, com torres ao redor, chegando até o teto da caverna. Havia um caminho sinuoso levando até a entrada, como se isso não fosse nada suspeito.
Isso não parecia muito com ruínas, mesmo que Kaemon tivesse afirmado que as ruínas estavam bem preservadas.
Lex começou a se aproximar do edifício, mantendo todos os seus sentidos atentos para detectar qualquer anormalidade. No entanto, aquela era a caverna mais comum que Lex já havia explorado, sem nenhuma surpresa adicional.
Embora isso fosse de se esperar. Kaemon dissera que todo o conhecimento que aprendia era retratado em murais que cobriam as próprias ruínas. Se ele concluísse a missão das ruínas, poderia reter o conhecimento adquirido; se não, esqueceria tudo.
Mas Kaemon também sentia que o conhecimento ali estava contaminado, pois, mesmo após esquecer a parte aprendida, um fragmento do peso que isso carregava permanecia com Kaemon — e com os outros — causando uma pressão que eles ainda não conseguiam superar. Essa era a principal razão pela qual Kaemon se recusava a entrar em outra ruína. O peso do que tinha aprendido e esquecido ainda era insuportável para ele.
Claro que o peso do conhecimento contido nas ruínas parecia ser de um nível bastante básico, considerando que as cidadelas guardavam segredos ainda maiores. Mas, como Lex não tinha acesso às Cidadelas, ele se viraria com o que havia por enquanto.
Até a entrada do edifício, Lex não encontrou nenhum obstáculo, nem percebeu a presença de alguma entidade maligna. Era como se a própria existência do prédio transformasse aquele espaço em um local seguro. Ou talvez fosse tão perigoso que até os monstros de Abaddon aprenderam a evitá-lo.
Lex tomou diversas precauções, só para garantir, mas abriu a porta do edifício sem dificuldades. O interior, no entanto, era como um universo completamente diferente.
Parecia que Lex tinha voltado à Grécia antiga. Uma luz intensa do sol brilhava do céu safira, revelando a visão deslumbrante de uma cidade espalhada por uma encosta. Colunas de mármore se erguiam como música congelada, apoiando templos grandiosos gravados com runas douradas, enquanto ruas de pedra largas transbordavam de figuras vestidas com túnicas, falando em uma língua perdida no tempo. Oliveiras alinhavam os caminhos, suas folhas cintilando com a brisa quente, e lyres distantes tocavam melodias doces e angustiantes que se perdiam pelos pátios abertos. Era como se a porta tivesse rasgado um buraco no próprio tempo, revelando um eco vivo de uma cidade antiga, intocada e eterna.
Justamente como Kaemon dissera, as ruínas estavam... notavelmente bem preservadas.
O próprio ar parecia diferente, como se também fosse de uma época diferente. De onde estava, Lex não viu murais, mas não tinha dúvida de que uma cidade tão vasta estaria repleta deles.
Uma escadaria de mármore descia da porta — que parecia abrir bem no meio do céu — até o centro de um palco semi-circular no interior de um grande teatro ao ar livre.
Ele observou o cenário e desceu. Nada de extraordinary aconteceu, além de a atmosfera ser tão revigorante que deu arrepios em Lex. Passo a passo, ele desceu a escadaria, até que chegou ao palco.
A partir daí, Lex percebeu três coisas. Primeira, havia um caminho — outro caminho — partindo do palco do teatro e levando até a saída, sem dúvida levando Lex para onde ele precisasse ir. A segunda coisa foi um mural. Não era visível da escada, mas assim que pisou no palco, percebeu que toda a parede do palco na verdade era um mural, exibindo uma cena complexa. Provavelmente, seria preciso um pouco de observação para decifrá-la.
Infelizmente, Lex não pôde focar nisso, pois a maior parte da sua atenção foi desviada para a terceira coisa que notou. Kaemon lhe dissera que cada conjunto de ruínas apresentava um desafio. Completar esse desafio permitia que eles retivessem o conhecimento adquirido. Lex não tinha pensado muito em como o desafio seria apresentado. Agora, tinha uma resposta para aquela pergunta não feita.
Logo na sua frente, pairando no meio do ar, havia um retângulo azul ilusório com as palavras “Início do Desafio” escritas nele. Por alguma razão, Lex não pôde deixar de pensar que... a fonte do texto se assemelhava bastante à fonte do seu sistema!