O Estalajadeiro

Capítulo 1641

O Estalajadeiro

Jack tinha arrependimentos. Claro que tinha. Admitidamente, ele meio que já esperava que o Bob iria aprontar alguma coisa. Ele até pensou em encontrar o Bob e dizer exatamente o que fazer. Toda a história até então tinha levado Jack a acreditar que, de alguma forma, o Bob arruinaria tudo.

Então por que ele foi lá e mandou o Bob causar confusão assim mesmo? Simples. Jack… achava que poderia ser até meio divertido. Olhando para trás, toda vez que o Bob fazia uma cena, era caos total e, às vezes, quase que os matava. Mas, pensando bem, também dava bastante diversão.

Que importância tinha um desafio aqui e ali? Qual era o sentido da vida se tudo no que ele focasse fosse trabalhar e não se divertir? Afinal, ele tinha decidido fazer toda a parte séria como Lex, enquanto vivia um pouco mais de boa como Jack.

Aliás, diferente de Lex, Jack não tinha pressões assim tão pesadas, como a ameaça de terem descoberto seu Inn como um tesouro escondido. No máximo, tinha aquela maldita karma pesando nele.

Então, decidiu que era hora de dar uma chance pro Bob soltar a franga, aproveitar um pouco o momento. Agora, ele se arrependeu muito daquela decisão. Ele tinha entrado na brincadeira, com um pouquinho de incômodo, mas não tinha sido pra deixar que todo o universo soubesse que ele, como mortal, tinha conversado com um Senhor do Dao.

Claro que isso poderia até ser visto como uma proteção. Quem iria mexer com alguém que tinha vínculo comprovado com um Senhor do Dao? A resposta era: qualquer um que tivesse alguma rixa com aquele Senhor.

Nesse aspecto, os dragões não deixaram dúvidas. Era certeza de que tinham muitos com ranço deles, mas que não tinham coragem de confrontá-los diretamente. Nesse caso, Jack poderia vir a ser uma boa alternativa. Mesmo assim, ele não acreditava que enfrentaria problemas imediatos.

De qualquer forma, seria bastante tolo atacá-lo. Quem disse que os dragões não revidariam se algo assim acontecesse? Ninguém.

Mas, como se isso já não fosse o bastante, Jack agora tinha recebido publicamente sua própria embarcação — uma embarcação que já tinha levado sete Senhores do Dao pelo Espaço.

O simples toque de um único Senhor do Dao, quanto mais sete, já era suficiente para transformar o Jolly Rancher em um tesouro extraordinário.

Isso não é exagero. Jack já tinha aprendido, pelas experiências do Lex, que qualquer coisa relacionada a um Senhor do Dao era fora do comum, talvez até além da compreensão deles.

Agora, o que aconteceria com uma embarcação — que Jack havia projetado especificamente para atravessar o universo — ao transportar sete Senhores do Dao por esse espaço? Nem Jack nem Lex tinham ideia, mas estavam prestes a descobrir.

Felizmente, as leis dentro do mundo da Artica eram especiais. O Jolly Rancher foi imediatamente limitado pelo nível em que se encontrava, restringindo seu crescimento a uma condição de item mortal. Isso significava que, no máximo, a embarcação poderia atingir o nível de poder de um alma nascente.

Isso também significava que o navio teria uma base extremamente sólida, permitindo que transcendesse facilmente as limitações do reino mortal e crescendo com facilidade quando precisasse.

Jack, em pé sobre o convés, podia sentir as mudanças acontecendo sob seus pés. Sentia a madeira ficando mais forte, o ouro se tornando um condutor ainda melhor de energia espiritual, o cristal mais duro e difícil de quebrar.

Não só as velas ficaram mais resistentes, como também ganharam a capacidade de restringir apenas o vento. Agora, poderiam ser impulsionadas por correntes de energia também.

Como se não fosse o bastante, Jack sentiu os canhões escondidos sob o convés ficarem mais potentes, e a torre de vigia adquirir um ar misterioso, como se pudesse enxergar não só a distância, mas também o futuro.

Por sua conexão com a embarcação, cultivada com seu próprio pó de fada, Jack sentiu cada mudança enquanto permanecia ali, imóvel. Mas as pessoas ao redor apenas observavam enquanto o Jolly Rancher — uma verdadeira besta de navio — passava por inúmeras transformações em sua aparência e aura.

Elas só conseguiam imaginar a intensidade dessas mudanças, e, ainda mais, só podiam conjecturar no coração qual era a origem de toda essa fada que claramente se posicionava diante de todo o reino.

O semblante bonito, porém sério, de Jack ao olhar para eles, pronto para enfrentar qualquer desafio, fazia parecer que ele tinha uma força além do seu mundo. Muitos decidiram de imediato que queriam ficar perto dele ou, pelo menos, se manterem afastados, para não correr risco de se tornarem inimigos.

Por outro lado, alguns tinham histórias impressionantes e não se deixaram assustar tão facilmente. Esses não podiam deixar de sentir uma sensação de desafio crescendo dentro do peito. Sentiam aquilo. Na frente deles estava o protagonista da era — o personagem que iria desafiar convenções, fazer história e deixar seu nome gravado na memória do tempo. Talvez, só talvez, ele também se tornasse uma lenda.

Antes que qualquer um pudesse tentar desafiá-lo, no entanto, aconteceu. Uma luz magenta ascendeu do solo, atravessando tudo o que fosse sólido, preenchendo o ar como se anunciasse sua presença ao universo.

Muitos imediatamente se ajoelharam, embora, por estarem de frente para o Jolly Rancher no momento do brilho, pareciam estar se ajoelhando diante do próprio navio, diante de Jack.

Bob, vendo toda a cena diante de si, levantou a cabeça com orgulho. Não se surpreendeu com o brilho da luz nem com os que se ajoelharam. Era só o que se esperava. O capitão fazia sua primeira aparição pública desde que a tripulação começou, e esse seria só o começo de muitos outros.

Bob olhou para os demais, para ver suas reações, e sentiu uma satisfação imensa ao perceber o espanto deles. Então notou que… Goldilocks tinha sumido, e uma trilha de pegadas douradas se estendia até o horizonte.

Bob balançou a cabeça. Os outros realmente precisavam parar de infernizar o capitão. Era a maior baba deles.

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