O Estalajadeiro

Capítulo 1629

O Estalajadeiro

"Prazer para os reinos, né?" disse Lex com curiosidade. Ele tinha… uma ideia louca. Na verdade, deveria parar de usar esses adjetivos agora. Suas ideias sempre foram loucas. Loucura virou sua rotina. Então, nesse caso… Lex tinha uma ideia bem comum.

Desde que ele estava ligado a Lotus, que por sua vez tinha uma fusão com um reino, parecia quase que Lex também se fundia com um reino. Ele frequentemente recebia feedback dessa relação com Lotus. Poxa, até tinha uma transformação própria que dependia de Lotus — não que ele quisesse contar isso para Z. O coitado do garoto estava se esforçando tanto para conseguir mais formas.

De qualquer forma, Lotus queria que Lex voltasse à pousada para fundir esse poder ao reino, mas isso não aconteceria tão cedo. Então… ele pursou os lábios e engoliu os pentágonos verdes cintilantes direto do ar, absorvendo-os.

Mas o poder vinha originalmente de Lex — absorvê-lo não faria diferença. Em vez de incorporá-lo ao próprio corpo, ele o direcionou para as suas costas, onde sua tatuagem tinha surgido, canalizando-o para Lotus.

"O que você acabou de fazer?" perguntou Lotus. "Mudei de ideia. Não volte para o reino. Só continue fazendo aquilo que acabou de fazer."

Lex sorriu de lado e dispensou sua habilidade por ora. Embora não pudesse entender completamente os efeitos exatos da capacidade, ele conhecia bem o seu corpo. Quando a tatuagem absorvia alguns desses pentágonos verdes, parecia que nada realmente havia mudado, mas Lex percebia que, na base de sua tatuagem negra, um único pigmento de cor começava a emergir. A tatuagem, que normalmente era preta, mostrava sinais de uma evolução mais profunda.

Lex guardou essa mudança na mente e decidiu que investigaria melhor isso depois. Não acreditava que o poder tivesse apenas uma função ou que fosse unidimensional. Afinal, os Paladinos podiam lutar, curar, proteger e fazer tantas coisas usando o mesmo tipo de energia. Por ora, no entanto, era hora de seguir em frente.

Mentalmente, posicionou todas as suas contas recém-acumuladas no tabuleiro de Go. Notou que, recentemente, seu oponente tinha parado de colocar peças no tabuleiro. Ele não fazia ideia do que aquele cara planejava, mas Lex não ia esperar que ele agisse primeiro. Quanto mais peças colocasse, mais entenderia o jogo.

Sem mais o que fazer, agarrou Naraka e concentrou-se. Como já tinha sentido claramente a presença de Abaddon ao fazer seu juramento, foi muito fácil identificá-la novamente.

Por um instante, pensou no que significava o fato de Abaddon ter testemunhado ou reconhecido seu juramento. Não parecia que Abaddon tivesse tomado uma decisão consciente, nem sentia menos hostilidade ou fome dela. Era como se sua presença, por si só, fosse suficiente para completar o juramento, e os sentimentos reais — se um reino pudesse ter sentimentos — não importavam. Isso era tão estranho. Mais uma coisa para pensar.

Lex focou sua intenção com a espada, direcionando especificamente a presença de Abaddon, cortando nem o espaço nem sequer o ar. Em vez disso, sua espada atravessou a presença já frágil que Abaddon mantinha ali no fundo da floresta.

A lâmina cortou a presença com facilidade, revelando por trás do corte uma passagem para ele entrar. O processo foi demasiado fácil — muito mais fácil do que qualquer obstáculo que Lex tinha superado até aqui. Não achava que essa facilidade fosse por causa de sua habilidade.

Lex não duvidava de sua capacidade, mas era evidente que, desde o momento em que fez seu juramento de Paladino, algo havia mudado. De rejeitado a este lugar, de repente passou a ser bem-vindo.

Lex ajeitou sua gravata, certificando-se de estar apresentável, e entrou na passagem. O corredor parecia bem simples e despojado, como um salão em um prédio governamental, e ao fundo havia uma porta. No entanto, ao olhar rapidamente para ela, Lex teve a sensação de que não deveria ir até lá. Como se seus instintos mandassem lembrar daquela porta, mas não se aproximar dela.

Ao invés de caminhar na direção da porta, Lex se virou. Em vez do acesso por onde entrara, ele viu colinas infinitas, cobertas por uma névoa fina, que se movia como se viesse e fosse embora da eternidade.

Reconheceu a névoa que vinha absorvendo, mas aqui de algum modo parecia muito mais consistente. Ela também se movia para longe dele, sem jamais tocá-lo, apenas contornando-o.

Porém, ele não sentia que estava se prejudicando. Pelo contrário, sentia que a névoa o protegia — como se fosse algo demasiado para tocar, quase uma barreira. E isso não era tudo. Ele tinha a sensação de que a névoa estava sendo excepcionalmente gentil, cobrindo a terra para esconder coisas que não deveria ver.

Não havia outra forma de descrever. Era como um gesto de bondade, como se aquele lugar — qualquer que fosse — apreciasse sinceramente sua existência.

Muitas coisas na mente de Lex fizeram cliques, e ele entrou em transe, observando a névoa passar suavemente pelo cenário. Com seu olho esquerdo, podia ver profundamente no mundo, observando as leis que o regem. Por ele, também via Karma.

Embora os detalhes do Karma daquela terra lhe escapassem, ele sentia que a bondade daquele lugar era uma reação ao seu Bom Karma.

Ao começar a entender as consequências do Karma positivo ou bom, entrou ainda mais fundo em um estado de transe. Nunca tinha se perguntado antes, pois parecia tão óbvio, mas por que determinado Karma era considerado bom ou ruim? Quem criou essas definições? Era o próprio Karma que decidia o que era ou não moral?

Pelo que parecia, pelo entendimento que Lex desenvolvia naquele momento, Karma bom ou ruim era determinado se a consequência de algo fosse benéfica ou prejudicial ao universo, tanto numa escala micro quanto macro.

Ele começou a ter insights sobre uma espécie de dilema do bonde, que existia universalmente. Era infinitamente mais complexo, com um número quase infinito de variáveis. Em vez de julgar com base em moralidade, lei ou filosofia, analisava as consequências imediatas e a longo prazo de cada ação, reação e até da simples existência de situações, sempre relacionando com a existência do universo.

Lex entrou em um estado de iluminação, adquirindo uma compreensão mais profunda e esotérica do Karma, de suas consequências e de suas origens.

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