O Estalajadeiro

Capítulo 1613

O Estalajadeiro

No limite do véu onde a realidade se quebrou, Lex observou o castelo por mais algum tempo. Sentia instintivamente que, assim que tentasse atravessar o véu, não poderia mais se permitir distrações, então precisava acalmar a mente antes de partir.

A primeira coisa que percebeu foi que apenas os insetos imortais celestiais tinham nomes e conversavam entre si. Todos os demais, incluindo os imortais do Paraíso, permaneciam em silêncio, parecendo mais imitar seus counterparts mais poderosos do que realmente se comunicar.

A segunda coisa que notou foi que esses insetos pareciam pertencer a uma comunidade bastante elaborada e provavelmente de tamanho considerável. Apesar das diferentes espécies, tratavam-se como uma só, interagindo como se estivessem bastante acostumados à presença uns dos outros.

Lex não fazia ideia de quão grande realmente era essa selva, mas imaginar que era grande o suficiente para abrigar toda uma sociedade onde imortais celestiais eram como cidadãos comuns era uma ideia assustadora!

Enquanto observava a cena, ouviu Z fazer uma pergunta que vinha lhe intrigando há um tempo.

"Senhor Harriet Reginald III," Z chamou o escaravelho. "Se não se importasse de perguntar, por que todo mundo está tão tranquilo com o exército se preparando na fronteira da selva? Uma das razões pelas quais escapamos para a selva com a taberna foi por causa do exército."

"Exército? Que exército? Isso é só fertilizante. Ele se entrega à floresta após cada festa de almas, no horário certo. Não seria tão ruim se pudéssemos enfrentá-los de vez em quando. Mas a floresta é tão faminta quanto eles, então devora todos. Não sobra nada para nós."

Z aceitou a resposta como se fosse perfeitamente lógica, e não mencionou mais o assunto — ao menos para o escaravelho! Ele percorreu o local perguntando a vários insetos enquanto lhes servia, mas, independentemente de quem indagasse, essa era a resposta que recebia.

Por uma vez, Lex e Z estavam igualmente perplexos. O exército do lado de fora continha seres Dao — tinham certeza disso. Ainda assim, seres tão poderosos seriam incapazes de derrotar a selva, quanto mais seus habitantes?

Era uma informação que arrepiava — mas, pelo menos, a selva tratava-os como um de seus próprios e não agia contra eles. Isso era bom.

Ao mesmo tempo… era incrivelmente assustador. Que tipo de entidade eles tinham encontrado? O que era aquele lugar? Por que ele existia?

Com base na compreensão de Lex, no universo moderno, a morte de um Senhor Dao era considerada algo raro, quase impossível. Só no verdadeiro Paraíso, ou seja lá qual fosse a terra que o universo criasse, suas mortes se tornariam mais acessíveis.

Porém, agora, ele tinha que acreditar que toda vez que acontecia uma festa de almas em Abaddon, diversas entidades Dao se alinhavam do lado de fora da floresta para alimentá-la?

Claro que ele percebia que alimentar aquilo era só uma brincadeira. Na verdade, eles lutavam e eram derrotados. Mas ser derrotado e ser morto não era exatamente a mesma coisa. Mais importante, de onde estavam vindo tantos Senhor Dao? Como Abaddon podia manter esse gasto de seres Dao se eles morressem após cada festa?

Ele passou a compreender melhor o quão assustadoramente poderoso Abaddon realmente era, e não pôde deixar de refletir sobre algumas das coisas que havia aprendido ou especulado sobre esse lugar. Teorizou que Abaddon, na verdade, era um parasita do seu universo. Se isso fosse verdade, então seu nível de poder claramente ultrapassava sua compreensão atualmente.

Ele se questionou se Abaddon poderia ser considerado vivo, ou se seria apenas uma espécie de dimensão parasitária. No universo deles, reinos — principais, secundários e todos os outros — davam origem à vida comum que continha almas. Se fosse esse o caso, e Abaddon fosse um reino especial de fora do universo, fazia sentido que o tipo de vida que criasse fosse diferente.

Sendo um reino principal capaz de gerar Senhores Dao, como um reino parasitário, talvez Abaddon também pudesse gerar Senhores Dao? Mas como isso poderia acontecer com tanta frequência? Seria capaz de produzir esses seres em massa? Isso não fazia sentido, certo?

Tudo isso eram apenas especulações de Lex, e talvez não passassem de hipóteses, então ele parou de pensar nisso. Não podia ignorar o fato de que esse lugar escondia muitos segredos — como os segredos da Era Esquecida, embora Lex duvidasse que algo assim realmente existisse.

O ponto era… eles estavam completamente fora de sua profundidade aqui em Abaddon, e Lex começou a sentir que o melhor seria sair daqui o quanto antes. Não sabia como ou por quê o Terror de Pilhagem tinha sobrevivido aqui por sete anos, mas tinha a sensação de que, com sua sorte, até mesmo sobreviver a um seria um grande desafio.

Depois de tudo, desde o momento em que chegou, nada deixou de ser estranho ou novidade — acontecimentos novos surgiam constantemente.

Confiante, pelo menos na medida do possível dadas as circunstâncias, Lex voltou sua atenção ao véu. Agora, refletia sobre qual entidade tinha levado Fenrir e o Pequeno Azul. Provavelmente, era algo bem mais complexo. Mas Lex não era de abandonarem ninguém para trás.

Ele rangeu os dentes e deu um passo na direção do véu. Não sabia o que iria encontrar, então reforçou suas defesas ao máximo. A Dominação estava totalmente ativada. Fortaleceu sua pele, usou seu princípio para envolver seu corpo em algumas leis, vestiu sua armadura mais forte e até ativou a Fornalha dos Céus, sua técnica de defesa mais poderosa de criação própria.

Na exata hora em que tocou o véu, seu corpo deixou de existir, deixando para trás uma selva silenciosa e tranquila, como se ninguém tivesse estado ali desde sempre.

De um galho próximo, uma figura que observava o véu entrecerrou os olhos.

"Até mais, amigo."

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