
Capítulo 851
O Estalajadeiro
Apesar de ter o Viajante Silencioso há bastante tempo, Lex nunca tinha passado muito tempo nele de verdade. Conhecia a nave, sim, mas isso se limitava a uma rodada rápida de reconhecimento. Além disso, ainda não sabia pilotá-la, embora isso estivesse certamente em seus planos.
Cirk, por sua vez, já tinha pilotado tanto em simulações quanto na prática, embora pessoalmente só fizesse verificações simples dos sistemas.
Embora, em comparação com outras naves, o Viajante Silencioso fosse pequeno, na realidade, era bem espaçoso. Tinha quartos com quatro camas, uma cozinha, uma grande área de armazenamento, um salão principal e uma cabine de comando onde apenas dois pilotos podiam entrar. Se decidissem levar muitas pessoas, caberiam até 30 dentro do Wanderer, mas mais que isso causaria problemas.
Por isso, ele também preparou tudo para enviar os soldados de volta por teletransporte, ao invés de trazê-los na nave.
Sem muito o que fazer, Lex se juntou a Cirk na cabine de comando, onde ele se dedicava a ligar a nave e preparar o lançamento. A plataforma onde ela estava estacionada já se movia, então, quando a nave completasse sua sequência de inicialização, já estaria pronta para partir.
Embora tudo parecesse estar indo bem, ou pelo menos assim parecia, Lex permanecia atento. Se surgisse qualquer sinal de problema, ele estaria pronto para puxar aquelas bombas.
"Se não houver problemas e seguirmos na máxima velocidade, quanto tempo levaríamos para chegar ao BGY-987?" perguntou Lex, ainda observando todos os guardas do lado de fora.
"Se tudo correr bem, sem obstáculos, com os sistemas de hiperpropulsão do Viajante Silencioso, conseguimos chegar lá em nove dias. Uma nave comum precisaria de pelo menos duas semanas."
Lex sorriu de lado, mas não comentou nada. Nove dias era um período bem longo. Ele torcia para que nada de errado acontecesse. Já estava fazendo o possível. Em meio à raiva fria que dominava sua mente no momento, uma leve tristeza apareceu por breves instantes.
Vinte minutos depois, a nave já tinha sido completamente ligada e posicionada na formação de lançamento. Silenciosamente, fiel ao seu nome, a nave levantou voo e entrou na atmosfera. Em poucos segundos, já estava fora de vista. E o mais impressionante... ela também escapou de todos os radares!
A tecnologia de furtividade dessa nave era mais avançada do que a de navios militares comuns usados até mesmo pela aliança.
O elfo celestial finalmente desviou o olhar do navio para o anão.
"Só me diga quem foi quem colocou você nisso," disse o elfo, sem rodeios. Por colocar toda a base em risco, qualquer que fosse o(a) instigador(a), ia se arrepender feio.
Antes que o anão pudesse confessar, o celestial também ordenou um relatório detalhado sobre o planeta que Lex havia investigado. Aparentemente, havia algo estranho na situação lá. Se um estranho notasse antes deles, seria uma grande vergonha para todos.
*****
No interior do forte, Luthor meditando de olhos fechados ouviu as palavras do Mordomo.
"O inimigo provavelmente já sabe que ajuda está chegando. Prepare-se para o que vier."
As instruções eram simples, mas uma luz breve passou pelos olhos de Luthor. Desde que o batalhão ativou o mecha, tanto Luthor quanto Z precisaram descansar, pois estavam muito mais exaustos do que os demais. Não tinha jeito, ambos usaram suas habilidades individuais para alimentar todo o mecanismo.
Isso por si só não era um problema, mas Luthor sentia-se insatisfeito por estar só na defensiva. Estava basicamente deixando o inimigo fazer o que quisesse. Por um tempo, tal estratégia fazia sentido, mas agora, com a comunicação com a Taverna da Meia-Noite, podia arriscar mais.
Principalmente agora, que o inimigo poderia saber que reforços estavam a caminho, continuar a ditar o ritmo da guerra seria um erro.
De forma lógica, as palavras do Mordomo eram um aviso para se protegerem. Mas nos ouvidos de Luthor, soavam como um sinal de aprovação ao que ele pensava.
Devagar e com firmeza, Luthor levantou-se, permitindo que seus músculos se alongassem enquanto assumia sua pose. Suas articulações rangeram, ele girou as mãos, alongou as pernas. Quando se sentiu pronto, saiu da sala. Embora nada tivesse mudado muito, a aura ao redor de Luthor estava ainda mais intimidante do que quando ele devastava a batalha.
"Gerard, chame uma reunião com os elfos e os minotauros. Também, prepare a tropa para o combate."
O velho confiável apenas assentiu, passando a mão pelos cabelos, bagunçando-os. Ninguém sabia ao certo o que aquela ação representava, e ele não explicou. Afinal, ele só queria relembrar a sensação do vento passando pelos fios. Fazia tempo que não dirigia um carrinho de golfe.
Como Luthor não permaneceu em silêncio, suas palavras foram ouvidas por muitos ao redor. Apesar do batalhão ter uma fé inabalável nele, os outros ficaram inquietos. Se quisessem admitir ou não, eles dependiam na maior parte da defesa do batalhão. Se ele saísse, as defesas do forte também seriam significativamente comprometidas.
Somente alguns minutos depois, os dois líderes chegaram até Luthor, com expressões de confusão e preocupação claramente visíveis em seus rostos.
"Como estão as coisas?" ele questionou.
"Tudo está indo bem. Justamente como você previu, não houve brechas nos ataques, e novas ondas continuam vindo a cada trinta minutos, até agora. Mas estamos segurando."
"Ótimo. O forte foi reforçado várias vezes e vocês têm várias formações preparadas para apoiar. Devem conseguir resistir por um bom tempo. O batalhão está saindo."
"Isso é loucura! Vocês vão morrer!" exclamou o elfo, surpreso.
"Não, não vamos. Ficar parado não é nosso estilo, e deixar o inimigo agir sem obstáculos também não é bom. Além disso, um dos meus vigias informou de outro grupo resistindo aos Void Dwellers. Vamos sair, atacar o inimigo e resgatar os sobreviventes."
Os dois tentaram protestar ou convencer Luthor a mudar de ideia, mas ele já tinha tomado sua decisão.
Luthor só precisava explicar a alguém além do batalhão, e como eles nunca questionaram, ele nem se deu ao trabalho de justificar.
De pé na muralha do forte, Luthor olhou uma vez para todos os membros do batalhão. Em alguns viu fadiga, em outros entusiasmo. Alguns pareciam descansados, como se acabassem de tirar uma soneca, enquanto outros pareciam precisar urgentemente de uma pausa. Mas, independente disso, nenhum deles demonstrava medo ou hesitação, pelo contrário.
"Temos um inimigo querendo nos destruir," ele disse simplesmente, virando-se para olhas o horizonte. "O Mordomo já enviou ajuda. Ela está a caminho. A única questão é: quando chegarem, vão nos encontrar escondidos como covardes, ou lá na luta?"
Suas palavras não foram altas ou forçadas. Ele falou calmamente e virou-se antes de qualquer resposta. Mas a resposta que buscava, na verdade, não era de palavras.
Quando o batalhão deu seus primeiros passos atrás dele, o chão tremeu sob seus passos firmes.
À medida que o batalhão avançava, não era só o impacto de seus passos que tremia o solo. Uma aura começava a se elevar, não de cada indivíduo, mas do batalhão como um todo. Era a aura de uma ira domada, de uma fúria contida, de um monstro prestes a ser libertado.
À frente deles, uma fenda se abriu e uma nova onda de Void Dwellers saiu, começando a atacar rapidamente. Mas os soldados da Midnight não pararam ou hesitaram, apenas aceleraram o passo, entrando quase em corrida.
Quando as duas forças se encontraram, não houve batalha, mas um corte limpo. Sem perder ritmo, atravessaram os Void Dwellers e se aproximaram da fenda. Contudo, ao invés de liberar mais Void Dwellers, ela se fechou como se tivesse medo do próprio batalhão.
Porém, nenhum deles demonstrou orgulho por uma vitória tão pequena. Como muitas vezes tinham feito antes, dessa vez não saíram em busca de pequenas vitórias, mas para virar o jogo da guerra.
Luthor apontou a direção. Eles não iam para Marzu primeiro, que eram os outros sobreviventes no planeta. Não, evoliriam rumo ao local onde os demônios tinham se reunido. Se o inimigo tentasse construir algo, eles iriam destruir. Se fosse pra levantar um monumento neste planeta, seria tão somente feito de cadáveres de seus inimigos, nada mais.