
Capítulo 852
O Estalajadeiro
Algo estranho aconteceu assim que o pelotão deixou a fortaleza. A frequência de ataques à própria fortaleza diminuiu, embora não tenham desaparecido completamente. Mas essa redução na frequência não tornou a vida deles mais fácil; com o pelotão desaparecido, grande parte de sua força de combate também somiu.
Os soldados remanescentes se sentiam, de certa forma, ressentidos por o pelotão ter ido embora, mas poucos estavam lúcidos o bastante para perceber que o próprio pelotão não era, na verdade, responsável pela segurança de todos desde o início. Além disso, interferir nos planos do inimigo poderia apenas permitir que eles sobrevivam até que alguém finalmente percebesse o que estava acontecendo aqui.
Porém, o fato de terem ficado tanto tempo sem qualquer comunicação era suficiente para indicar que algo estava terrivelmente errado. Mas, sem outra solução à vista, tudo o que podiam fazer era esperar.
Claro, o Pelotão da Meia-Noite poderia fazer muito mais do que simplesmente esperar. Muitas coisas estavam fora de seu controle, mas ao menos podiam garantir que os planos inimigos fracassassem. O 1000 havia informado a Luthor que o inimigo pretendia puxar todo o planeta para o vazio usando algum tipo de formação que estavam construindo.
Destruir aquela formação era fundamental para garantir que pelo menos conseguiriam serem resgatados! Além disso, Luthor também tinha interesse em capturar alguns prisioneiros para futura interrogância. E, por fim, havia aquela arma definitiva conhecida como “assistir aos planos do inimigo falharem e saber que tudo foi por sua causa”, esperando por eles.
Levaria horas para o 1000 alcançar o penhasco sozinho, então, poderia-se supor que o pelotão levaria ainda mais tempo, já que eram mais pessoas. No entanto, ao longo de seu serviço, o pelotão tinha passado por muitas jornadas, e uma dessas experiências foi uma técnica passiva de aprimoramento.
A técnica funcionava pelo princípio da ressonância, e quanto mais pessoas a utilizassem, maior seria a ressonância. Ela não era útil em combates reais, pois a circulação de energia espiritual no corpo — necessária para usar a técnica — era bastante complexa e entrava em conflito com outras técnicas espirituais.
No entanto, em situações assim, quando estavam juntos durante uma longa marcha, a técnica era absolutamente excepcional. Ela aumentava passivamente a velocidade, força e resistência de todos que a usavam, e a magnitude do aprimoramento dependia do número de pessoas empregando-a.
Essa melhoria, combinada ao suporte já formidável de seus trajes, fazia com que o pelotão mantivesse uma alta velocidade e, na verdade, se recuperasse fisicamente durante a marcha, ao invés de se esgotar.
Dessa forma, podiam passar diretamente para uma luta após uma longa marcha, tornando a técnica ideal para ataques-surpresa.
Essa característica específica da técnica era especialmente útil porque, várias vezes durante a marcha, eles eram atacados por Dwellers do Vazio que vagavam por perto ou por novas fendas abertas ao redor deles.
Suficiente dizer que logo perceberam que estavam sendo monitorados de alguma forma, por alguém ou algo tão discreto que não conseguiam detectar. Mas saber disso não ajudava, já que nenhum deles conseguia descobrir como isso era feito.
Porém, todas essas lutas frequentes só os atrasavam. Não os machucavam nem os cansavam, graças aos incríveis aprimoramentos físicos e ao aumento de recuperação proporcionados pela técnica.
Mesmo assim, levaram apenas oito horas para chegar ao penhasco, junto com o enorme exército que já os aguardava. Não era de se surpreender que seus movimentos fossem do conhecimento do inimigo, que teve tempo suficiente para se preparar.
Na base do penhasco, um pequeno exército de Dwellers do Vazio os aguardava, enquanto a verdadeira ameaça ficava no topo, esperando que eles se aproximassem.
O pelotão não diminuiu o ritmo. Pelo contrário: acelerou ainda mais.
No ambiente escuro, onde várias figuras assistiam à batalha, Rocketfellow dava atualizações de tempos em tempos sobre diversos acontecimentos fora da tela. Por exemplo, embora não pudessem registrar o que acontecia na sede da aliança, ele recebia informações dela logo depois.
"Parece que o Pouso da Meia-Noite enviou reforços, e não foram discretos nisso," disse com um sorriso largo. "Além disso, esses reforços são apenas dois e não são tão fortes. Provavelmente, uma distração ou uma armadilha. É interessante notar que os reforços vieram diretamente do quartel-general, ao invés de teleportar de algum lugar mais próximo de BGY-987."
Alguém poderia comentar quais hipóteses podemos tirar a partir disso?"
O demônio encarava tudo como se fosse um exercício, e parecia realmente analisar as situações para futuras tentativas. A maioria achava esse modo de pensar tranquilizador, pois ninguém queria ofender um inimigo poderoso sem motivos, o que transformaria o Pouso da Meia-Noite na hora em que sua participação fosse revelada.
Por outro lado, dois participantes estavam extremamente insatisfeitos com essa abordagem. Um era o Gilati, desesperado para capturar um refém. Ele não esperaria milhões de anos para arrancar Jill do Pouso. O outro era o crente no Ra. Embora já não expressasse sua opinião abertamente, estava tomado por indignação e um desejo intenso de vingança.
Porém, pelo menos tinha aprendido uma coisa com o demônio: seguir um plano. Silenciosa e secretamente, a zelote transmitiu as informações sobre este planeta aos demais membros restantes de sua religião. Logo, eles poderiam sair do tédio dessa brincadeira pacata e assistir a uma verdadeira batalha.
Contudo, a expressão sorridente e oculta de Rocketfellow ao olhar para ele dizia exatamente o contrário. Como esperava, o bode expiatório agia de forma previsível. Uma das coisas que ele queria estudar — e profundamente — era como o Pouso reagiria à morte de alguns de seus membros. Essa informação era crucial para os planos futuros.