
Capítulo 756
O Estalajadeiro
Não demorou muito para Lex perceber que seus pensamentos estavam muito mais dispersos desde o exato momento em que chegou ao planeta, muito antes de começar a disputar contra os Dragões Poderosos. Mas ainda não tinha certeza se isso era causado por algo externo. Afinal, ele poderia estar apenas de bom humor para refletir.
Além disso, não se sentia ameaçado nem percebeu qualquer lapsus na sua atenção em relação ao perigo ou ao ambiente. No máximo, estava um pouco mais pensativo do que o habitual.
Lex fez uma anotação mental para focar um pouco mais em seu estado de espírito enquanto estivesse ali e seguir sua jornada.
Ele passou a ser muito mais observador do interior do castelo ao avançar mais profundamente pelo labirinto, até que finalmente notou duas coisas. Primeiro, ao se afastar da parede exterior do castelo e se aprofundar, houve uma leve inclinação em todos os caminhos. Era como se estivesse lentamente descendo para as profundezas do castelo. Segundo, a temperatura aumentava à medida que ele avançava.
Logo, eles encontraram a sua primeira porta. Os corredores que até então formavam o castelo eram todos abertos e interligados, compondo uma camada externa de espaço aberto. Mas parecia que estavam prestes a entrar na segunda camada do castelo.
Lex se preparou para enfrentar alguma dificuldade ao tentar abri-la, mas, surpreendentemente, não encontrou nenhum obstáculo. A porta, que tinha quase 6 metros de altura, abriu facilmente, dando acesso a mais um corredor. Contudo, esses corredores contrastavam com os anteriores, pois estavam repletos de tapetes, decorações, estátuas, quadros e mais adornos.
Também havia alguns Frigals patrolando, embora todos parecessem extremamente desgastados e cansados, como se não tivessem descansado há bastante tempo. Apesar do aspecto exausto, Lex percebia que eles faziam o possível para estar atentos e vigilantes. Se não fosse Fenrir, Lex não teria conseguido escapar do olhar deles. Ou da detecção de alguns assassinos que também estavam por ali.
O que diabos estava acontecendo, e como havia tantos assassinos com habilidades de furtividade tão incríveis? Se não fosse por seu sentido da alma, Lex jamais saberia da presença deles. Na verdade, até Fenrir não tinha conseguido detectá-los completamente.
Por acaso, um dos assassinos parecia estar indo na mesma direção que Lex, então talvez logo ele obtivesse uma resposta. Enquanto o grupo estranho navegava pelos corredores ostentosos, Lex não conseguiu deixar de se perguntar como era a vida de um assassino.
Eles tinham amigos? Gostavam de ler ou assistir peças teatrais? Faziam lanchinhos de vez em quando? Ele imaginava que, apesar do estereótipo de serem frios e insensíveis, eles deveriam aproveitar a vida de alguma forma, certo? Ficou pensando se assassinos se casavam e tinham pequenos filhos assassinos.
A ideia era tão estranha que Lex se pegou novamente, percebendo que seus pensamentos haviam se perdido outra vez. Ele franziu a testa e acelerou seu foco, tentando manter-se atento.
Logo chegaram à sala que seus instintos estavam indicando, e parecia que ela estava ocupada. Alguns Frigals estavam lá dentro conversando, embora fosse difícil avaliar sua idade e sexo apenas observando-os. Era complicado fazer essas distinções com uma raça que ele tinha acabado de conhecer. Aproximou-se para tentar ouvir o que estavam dizendo, assim como o assassino.
— É só uma questão de tempo — disse um deles.
— Será mesmo? Já fazem semanas, e minha memória não voltou, nem a de mais ninguém. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu, e a família real está agindo de um jeito estranho demais.
— Como você espera que eles ajam? Quem poderia prever que um exército daquele de criaturas geladas iria saltar do chão e atacar o castelo? Eles têm que lutar com todas as forças, ou, se o Senhor Dragão ficar assustado, a família real vai ficar tão envergonhada que vai preferir desaparecer.
— Não entendo por que o Senhor Dragão simplesmente não acaba com eles num golpe só. Já se passaram mais de seis meses desde que essas criaturas apareceram do nada no sul, e desde então só têm dado trabalho!
Lex ficou imediatamente intrigado. ‘Mais de seis meses’ era a tradução do que o Frigal realmente havia dito, e isso tinha sido convertido para termos que Lex reconhecia. O mais importante era que o período parecia coincidir com o momento em que aquele homem misterioso havia mandado Lex vir para cá.
— Mais do que esses indivíduos gelados, queria que a família real matasse esses estrangeiros de uma vez. Como eles ousam blasfemar o grande Senhor, dizendo que ele morreu? Não conseguem sentir a magnificência de sua aura que enche este mundo?
Um dos Frigals, o que exaltava fanáticamente o dragão, pegou algo do cinto que imediatamente chamou a atenção de Lex. Era uma vinheta estranha, de cor laranja, que emitia um brilho suave. A vinheta tinha sido cortada de onde ela crescia originalmente e já estava murchando, mas, mesmo assim, transmitia uma aura intimidadora. Era exatamente aquilo que seus instintos tinham indicado.
Lex não foi o único a notar a vinheta, pois o assassino começou a se aproximar do Frigal assim que ela apareceu. Em vez de interferir na cena, Lex decidiu apenas observar. Queria entender o que exatamente estava acontecendo ali, e, quem sabe, essa observação pudesse lhe dar pistas.
Quando o assassino ficou próximo, algo inacreditável aconteceu. A luz emitida pela vinheta conseguiu revelar a silhueta do assassino, alertando os dois Frigals sobre o intruso.
Imediatamente, eles começaram a lutar entre si sem se poupar. No canto da sala, Lex e Fenrir estavam confortavelmente sentados em alguns sofás, assistindo à luta enquanto Lex sacava um pacote de Doritos.
— Quer um? — ofereceu, apontando o pacote aberto para ele. Com muita educação, o cachorrinho pegou um par de palitinhos de madeira, para não sujar a pata, e comeu alguns. Foi nesse momento que Lex percebeu que seu filhote também tinha um tesouro espacial!