O Estalajadeiro

Capítulo 725

O Estalajadeiro

Embora o senso de perigo tivesse desaparecido, Lex evitou a fortaleza e fez um longo desvio em direção ao bastião dos Jotun. A viagem teria levado horas, não fosse ele decidir usar a "nave" que comprara para atravessar o reino de Cristal.

Mas mesmo assim, seu retorno não foi nada rápido, e ele achou Polebitvy ainda mais silenciosa do que de costume. Mesmo estando na natureza, bem longe de qualquer assentamento de rebeldes ou forças locais, normalmente se ouvia ao menos o canto de pássaros e o zumbido de insetos, sem falar nas feras selvagens.

No entanto, agora, o único som que acompanhava Lex era o vento — e, literalmente, só o vento.

Até o sussurrar habitual das folhas desaparecera, pois todas as folhas das árvores por onde Lex passava tinham sumido, virando cinzas. A madeira e a casca das árvores, por alguma razão, permaneciam intactas, mas era fácil perceber que não havia mais vida nelas.

A paisagem, antes colorida e aprazível, tornou-se repentinamente árida e desolada. Onde antes havia crateras deixadas pela guerra, preenchidas com arbustos e gramíneas, agora não passava de cinza, vazia de qualquer coisa viva. Era como se a batalha que causara tais crateras tivesse acabado momentos atrás.

O mais estranho era que Lex nem sequer encontrou cadáveres. Se toda a fauna tinha morrido de repente, infectada pelo tal veneno verde, ao menos deveria haver corpos espalhados pelo chão. Talvez, de alguma forma, isso fosse até menos assustador do que a ausência repentina de toda forma de vida.

Esse trajeto continuou por um tempo, mas Lex, que estava atento a qualquer sinal de perturbação, de repente detectou tremores vindo de sua esquerda. Por causa da sensibilidade da situação, ele não hesitou em ativar seus Óculos de Contato Elegantes e virou a sua nave na mesma direção.

Não era fácil enxergar longe devido ao terreno acidentado, mas logo Lex ouviu os sons muito familiares de combate. À distância, podia ouvir o trovejar de incontáveis passos, como se fosse uma marcha de exército, acompanhado pelo som constante de arranhões e batidas. Logo, também percebeu a explosão de algumas granadas.

Ele mudou imediatamente para seu traje de Defesa Suprema e se preparou para qualquer coisa enquanto se aproximava dos sons do combate. Seus sentidos espirituais 'perceberam' a cena bem antes de alcançar o topo da colina mais próxima, revelando uma pequena horda de estranhos insetos cinzentos.

Os insetos mediam cerca de um metro de comprimento e tinham duas garras grandes que apontavam à frente — usavam-nas para se mover, pois parecia que lhes faltavam outros membros dedicados à locomoção.

As garras também eram incrivelmente afiadas e duras, permitindo que fossem usadas em combate. As poucas milhares de criaturas que Lex viu cercavam um grupo pequeno e machucado de humanos, lutando desesperadamente por suas vidas.

Justamente quando Lex se preparava para ajudar, ele chegou ao topo, que permitia ver a batalha abaixo, e sua expressão se distorceu imediatamente. Como não estava totalmente acostumado ao seu senso espiritual, ele deixou passar uma distinção importante.

O grupo de humanos era, na verdade, um conjunto de crianças, cercadas e protegidas por outros civis. Apesar de estarem num nível de cultivo relativamente decente, ninguém além delas parecia saber lutar — exceto por uma mulher que cortava os insetos como uma tempestade.

Lex não hesitou: ativou o Escudo Imperial e cercou o grupo lutando com vários escudos. Os insetos não eram tão fortes — a maioria no nível Fundação e poucos no Núcleo Dourado —, então ele não se preocupou com a possibilidade de quebrarem suas barreiras, concentrando-se em eliminá-los.

Valendo-se de sua altura, Lex saltou para frente, enquanto usava um feixe de chamas convocado por um array ao seu redor, caindo na horda como um meteoro! O chão tremeu ao ele cair, e o fogo varreu os insetos, queimando-os até virar cinzas.

No entanto, comparado ao tamanho da horda, Lex tinha eliminado apenas uma gota no oceano. Mesmo assim, ele avançou, usando sua força bruta para esmagar tudo o que estivesse na frente. Seu primeiro soco foi um pouco travado, com a forma que se espera de alguém que treinou diante de um espelho.

Porém, Lex parecia entender melhor seu corpo e a estrutura do inseto que havia golpeado, adaptando-se imediatamente. Seu segundo soco, agora com a mão esquerda — na sequência do direito —, tinha a fluidez e a postura de um boxeador amador.

Embora sua força não exigisse tanta precisão, seu golpe acertou o ponto mais vulnerável do inseto, esmagando imediatamente sua espinha.

Lex parecia aprender algo novo mais uma vez, desta vez sobre como a distribuição de peso influenciava sua postura. Pesando 325 kg (712 libras), não era de se surpreender que seu peso tivesse impacto na técnica.

Ele deu um passo adiante, seguindo sua progressão natural, mas sua postura, de alguma forma, ficou perfeita para seu terceiro golpe. Desta vez, parecia que o impacto fora dado por um lutador profissional, matando o inseto sem esmagar seu corpo — sem usar força extra.

Ao dar outro passo, não deu um soco, mas varreu o pé ao redor e atingiu vários insetos agrupados ao seu redor. Quando lançou seu quarto golpe, já não parecia mais um profissional, mas um campeão que dominou o ringue durante toda a carreira.

Com cada passo, Lex passava por uma evolução na compreensão do combate, e sua aura também mudava sutilmente.

Porém, tudo isso acontecia de forma subconsciente; seu foco real estava em chegar às crianças o quanto antes. Ainda que elas estivessem seguras, não havia necessidade de permanecer num ambiente tão angustiante.

Ao alcançar a barreira, lançou um feixe de chaves douradas e gritou simplesmente "esmague-os!".

Seja pela impressão que deixou ao chegar — descendo do céu numa bola de fogo literal —, ou pela aura de domínio, ou pela eficiência implacável ao eliminar os insetos, ninguém perguntava nada ou duvidava de suas motives. Sem pensar duas vezes, esmagaram as chaves como se ouvissem Lex há muito tempo, como um hábito enraizado.

Logo, toda a multidão desapareceu, mas Lex não deixou de notar os cadáveres deixados no chão, até mesmo dentro das barreiras que ergueu. Muitos civis que haviam lutado contra os insetos sangraram até morrer, mesmo após serem separados da batalha por Lex.

Porém, agora não era hora de sentimentalismos. Ele lembrou que ainda havia uma verdadeira combatente, lutando bravamente contra milhares de insetos, em busca de uma esperança de salvação que parecia mais uma fantasia do que algo real.

Ele expandiu seu senso espiritual e a encontrou logo após. Movendo-se com rapidez, não porque os insetos representassem uma ameaça — na verdade, mesmo parado, seria uma maravilha se eles conseguissem feri-lo —, mas porque não queria que mais alguém caísse, especialmente uma mulher tão valente, enquanto estivesse ali para ajudá-la.

Com cada vez mais ferocidade, Lex enfrentou os invasores e, finalmente, a alcançou. Mas, ao vê-la, um sentimento de familiaridade o atingiu e ele reconheceu quem era. Antes, quando chegou à fortaleza, cruzara com uma mulher diferente, que lhe pareceu familiar, mas não conseguiu identificar. Esta guerreira era exatamente ela.

Porém, embora lembrasse onde a vira por último, esse não era o motivo pelo qual sentia que a reconhecia. Era a forma com que ela lutava que lhe trouxe uma lembrança instantânea, fazendo-o parar por um momento.

Ele se lembrou de um palco, de pessoas assistindo, hipnotizadas. Lembrou-se de olhos de fênix, cheios de energia e entusiasmo. Lembrou de lábios rosa finos, que se curvavam em um sorriso inocente e empolgado. Lembrou de uma mandíbula elegante e bochechas lisas, parecendo esculpidas do mármore mais puro, como se não pertencessem a uma humana comum.

Lembrou-se de cabelos castanhos longos, embora uma bailarina jamais devesse ter cabelo ao vento — ou seja, escorrer livremente.

Seus movimentos graciosos e ao mesmo tempo únicos a entregavam. Ela era a soldado que, uma vez, tinha feito balé na apresentação Cultural Noite das Estrelas — os Jogos da Meia-Noite.

Porém, a razão pela qual ela parecia tão familiar — e por que Lex não a reconhecia — era simplesmente porque ela provavelmente usara óculos Clark Kent para esconder sua identidade dentro da estalagem! Afinal, como dono da estalagem, ele tinha sido exposto à sua verdadeira aura, e por isso ela parecia tão familiar, mas ele não conseguia ligar.

Mais importante, embora sua aparência alternativa fosse deslumbrante, sua aparência real — como esperava-se — era completamente diferente!

Agora que tinha finalmente entendido o motivo pelo qual sentia que ela era familiar, mas não a reconhecia, ficou um pouco irritado por a razão do mistério ser tão simples e tão estúpida ao mesmo tempo.

"Já teleportei o grupo embora, não há mais necessidade de continuar lutando", comunicou Lex, através de seu senso espiritual, à mulher. "Você deveria se retirar também o quanto antes. Não adianta insistir na luta."

Ele também lhe entregou uma chave dourada, caso ela não a tivesse. Apesar de não haver um cavalo branco por perto, Lex se sentiu como um cavaleiro de armadura reluzente. Se Fenrir estivesse por perto, ele supunha que um lobo poderia substituir o cavalo.

"Não posso", foi tudo que ela respondeu.

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