O Estalajadeiro

Capítulo 649

O Estalajadeiro

A conversa com a dupla sobre a distância até a nação do cristal não durou muito tempo. Diferente das outras raças, que tinham uma relação claramente positiva ou negativa umas com as outras, a raça do cristal também evitava todos os demais povos. Eles mantinham seus territórios fechados e geralmente não se importavam muito com o que acontecia fora de suas terras.

Isso não significava que ninguém fosse autorizado a entrar em sua nação — apenas que eram extremamente seletivos em quem permitiam passar. De certa forma, era preciso provar que se era digno de interagir com a raça do cristal.

A dupla não comentou nada sobre isso, pois presumiram que Lex já tinha algum tipo de relacionamento com a raça do cristal, já que ele estava indo na direção deles, e estavam tecnicamente corretos.

Lex não tinha mais muito o que discutir com Bertram, já que o homem já tinha prometido fornecer um mapa que levasse ao seu destino.

Isso teria que bastar por enquanto, embora ambos ainda estivessem sendo bastante vagos quanto à distância até a nação. Essa era a próxima grande preocupação de Lex. O reino de cristal tinha um tamanho equivalente a todo o sistema solar, e se a distância entre ele e seu destino fosse igual à distância entre planetas, levaria uma eternidade para chegar lá! Ele só podia torcer para existirem formações de teletransporte suficientes.

Porém, ele ainda tinha algo para discutir com Jolene, e até com Jess! Felizmente, parecia que Jolene já tinha conhecimento da situação e, por conta própria, solicitou que eles "tivessem uma conversa a sós".

Lex manipulou o espaço e criou uma espécie de “salinha” separada ao redor dos dois, levantando barreiras opacas para que ninguém conseguisse cochilar ou ler os lábios do que estavam prestes a discutir.

"Você está satisfeita com os resultados do seu pedido?" Lex perguntou, sem esperar ela abrir o assunto. Era como se já soubesse exatamente o que ela ia falar.

Um estranho qualquer tinha deixado uma caixa com conteúdo desconhecido na taberna, na esperança de usar o local como ponto de descarte de certos itens, permitindo que Jolene pegasse a caixa posteriormente. Era uma forma discreta de passar o que ela quisesse enviar, já que ela dificilmente encontraria quem fosse entregá-la.

No começo, ela apenas deixou um pacote na pousada por três dias, testando se a aura do local era capaz de isolar o item. Quando descobriu que realmente podia, ela enviou o pacote verdadeiro para a taberna, pensando em buscá-lo depois.

Para Lex, tudo isso estava ok. Ou pelo menos, normalmente estaria. O fato de parecer que Lex estava ajudando e facilitando algo provavelmente ilegal ou, pelo menos, bastante suspeito, não o incomodou. O que realmente o perturbou foi a aura do pacote de Jolene… que era extremamente repulsiva!

A caixa que ela deixou na pousada, apenas para testar se a aura vazava, já o enojou, mesmo sem ele saber o que continha. O pacote em si era ainda pior. Tecnicamente, o corpo verdadeiro de Lex não estava presente quando o pacote foi entregue e recebido, mas até a aura que ele deixou para trás era tão forte que Lex ainda se sentia enojado ao detectá-la.

Seja lá o que fosse o conteúdo, ilegal ou não, ele decidiu que não queria mais facilitar aquilo. Embora o objetivo da pousada e da taverna fosse receber todos os convidados de forma igual, Lex não era um escravo cego das diretrizes do sistema. Como aquilo lhe causava repulsa, ele não queria mais participar disso.

"Extremamente," Jolene respondeu com um sorriso enorme. "Você não imagina o quanto você me ajudou com isso."

"Fico feliz que esteja satisfeita com nosso serviço," Lex respondeu com um sorriso suave. "Por isso, também quero te informar que, daqui pra frente, a taverna não poderá mais ajudar você nesse tipo de coisa."

Jolene ficou verdadeiramente surpresa, pois não esperava uma resposta dessas, sobretudo porque a troca anterior tinha sido tranquila.

"Posso… posso perguntar o porquê?" ela hesitou. Ela não esqueceu a aura poderosa de Lex, e tinha receio de mexer com ele de forma errada. Mas, ao mesmo tempo, essa tarefa era realmente importante demais para ela abandonar tão facilmente.

"Fique tranquila, você não quebrou nenhuma regra da pousada, e isso não irá afetar os demais serviços que você receber aqui. Mas, na minha opinião, embora eu normalmente não interfira na questão dos convidados, a aura do item que você trocou foi… eu achei ela demais, repulsiva."

"Não investigatei o conteúdo, pois respeito a privacidade de todos meus hóspedes, mas, de consciência tranquila, não posso continuar facilitando essa troca."

Um leve medo surgiu no rosto de Jolene, apesar de Lex ter dito que não investigou o conteúdo. Essa era uma questão extremamente delicada que ela não podia arriscar expor, mas também não podia simplesmente desistir. Como Lex não queria mais ajudar, ela teria que achar outra alternativa.

"Por favor, não me interprete mal," ela explicou, sorrindo de forma fraca. "Minhas… 'transações' não são o que parecem. Estão relacionadas a um assunto de extrema importância que precisa ser resolvido. Mas, como você não quer mais facilitar isso, não vou mais te incomodar com ela. Embora, na prática, não faça muita diferença, pois estou prestes a partir em breve."

Eles conversaram mais um pouco enquanto Lex garantiu que não tinha feito nenhuma conclusão precipitada sobre seus assuntos, apenas que não queria mais participar daquela questão específica.

Quando terminaram, Lex removeu as barreiras, encerrando sua conversa privada.

"Vou deixar vocês dois à vontade," Jolene disse de repente, levantando-se. "Tem muitas questões relacionadas ao casamento para resolver, então vocês dois vão ficar bastante tempo juntinhos."

Surpreendentemente, Jolene voltou a ser como era antes, retomando suas brincadeiras de tentar arrumar Lex com a filha!

"Gostaria de poder ficar e ajudar, mas a minha missão era apenas te apresentar a Jess. Ela pode te procurar a qualquer momento, e, se por algum motivo não conseguir, sabe exatamente o que fazer para o casamento."

Jess, com um rosto extremamente sério, assumiu uma postura como quem aceita uma missão que pode decidir a vida ou a morte de milhões.

Mas, enquanto Lex brincava mentalmente, ele não tinha noção de que esse casamento realmente seria uma grande questão. O interesse da nação, e de qualquer família ligada a ela, frequentemente determinava a vida ou morte de bilhões.

"Tenho certeza de que nossa colaboração trará bons resultados. Acredite ou não, eu diria que estou mais empenhado em fazer esse casamento acontecer do que você mesmo."

Jolene sorriu ao comentário de Lex, mas não percebia que, de fato, ele se importava mais com isso do que qualquer outra pessoa. Ele estava decidido a conquistar uma classificação SSS+ nessa missão!

Depois que Bertram e Jolene partiram, Lex ficou sozinho com Jess, que o encarava silenciosamente. Ao invés de sentir que uma conversa constrangedora se formava, Lex se sentiu aliviado. Se ela fosse tão decidida quanto sua mãe em suas motivações ocultas, esse assunto poderia complicar bastante a situação, mas, pelo jeito, ela não era assim, o que tornava tudo mais simples.

"Embora tenhamos seis meses até o casamento, acho que não devemos perder nem um momento," disse Lex com um sorriso caloroso e confiante. "E você?"

Antes que Jess pudesse responder, Lex se levantou, abriu a porta da sala privada e acenou para Roan enviar alguém até lá.

Desde que recebeu essa missão, delegou muitas tarefas de pesquisa ao setor de planejamento e até pediu para Mary procurar os melhores consultores de casamento disponíveis — sem falar na extensa pesquisa sobre a cultura de casamentos indianos. O que não esperava era descobrir que tinha uma especialista assim dentro de seu próprio setor de planejamento.

Assim que soube dela, decidiu trazê-la para o reino do cristal e pedir sua ajuda.

Uma mulher alta, de pele cor de caramelo, entrou vestida de forma bastante casual, diferente do traje formal habitual da pousada. Mesmo de camiseta e calça, ela parecia deslumbrante — embora se espere menos de uma funcionária da pousada.

"Esta é uma especialista que convidei para cuidar de grande parte dos preparativos do casamento. Como vocês vão trabalhar bem próximos, por que não se apresentam?"

A mulher do setor de planejamento olhou para Jess e sorriu suavemente, de maneira acolhedora, como se estivesse ansiosa para colaborar.

"Oi, Jess," ela falou. Sua voz era calma, mas confiante. "Me chamo Aishwarya-Rai, mas meus amigos me chamam de Ash. Prazer em te conhecer."

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