O Estalajadeiro

Capítulo 605

O Estalajadeiro

Em uma sala de pedra fria e cinza, uma única lâmpada emitia uma luz azul fraca. A luz mal era suficiente para enxergar, mas bastante para criar sombras longas e escuras que se espalhavam pelas paredes distantes.

Em um trono feito de pedra semelhante, sentava uma criatura repulsiva, semelhante a uma lesma, conhecida como Gilati. Parecia fraca e cansada, mas a aura que emanava era sufocante. Somente aquelas lajes de pedra cinza podiam suportar a pressão, e, claro, a lâmpada, embora quase incapaz de fazê-lo.

À frente do Gilati, a certa distância, estava um diabo em sua forma não humana. Tinha cerca de três metros de altura, com um corpo aparentemente feito de rochas negras, entremeadas por veias de magma pulsantes. Havia dois chifres curvos em sua cabeça, e pairando no ar entre esses chifres, uma rocha emitia um brilho escarlate deslumbrante.

"Chegou ao conhecimento do meu senhor que você teve alguns problemas com a Taverna da Meia-Noite," disse o diabo, com uma voz irritante aos ouvidos.

O Gilati lançou um som de garra irritada e sua aura explodiu, mas então se acalmou — embora de forma quase imperceptível.

"Simsss!" silvou. "Meu escravo! Meu escravo! Eles estão me impedindo de alcançar meu escravo! Durante sua última reencarnação, meu precioso Raposinho Sonhador de alguma forma escapou e foi reencarnado em outro lugar. Mas tenho sua assinatura de alma registrada."

Como posso não reconhecer? Preciso desesperadamente dele antes que ele amadureça!

"Um Raposinho Sonhador à beira de sua evolução final é o ingrediente mais importante na pílula que estou aperfeiçoando. Sem ele, não conseguirei sobreviver à tribulação que enfrentarei ao entrar no próximo reino. Já adiei minha ascensão tempo demais."

"Meu senhor também deseja obter algo de dentro da Taverna da Meia-Noite. Ele está convidando você a se juntar a ele. A única chance de sucesso é se somarmos nossas forças."

"Você não tem medo do Daolorde?" novamente o Gilati rosnou, irritado!

"Meu senhor, também, Rockefeller tem um pai que é Daolorde. Como sabem, nós demônios não temos escassez de Daolordes. Não tememos ninguém."

Desta vez, o Gilati não deu rosnado. Em vez disso, após alguns momentos de contemplação, seu corpo se elevou no ar e se aproximou do diabo.

*****

A água do mar estava agradavelmente fria, embora a água perto do píer fosse um pouco suja. Nem era tão profunda, já que Lex podia claramente ver a superfície ao atingir o fundo.

Claro que também ajudava o fato de que, perto de Babilônia, o leito marinho era pontilhado por inúmeras estacas que emitiam uma suave luz vermelha.

Na verdade, essas estacas estavam espalhadas pelo leito por alguns quilômetros ao redor da cidade, garantindo que nenhum monstro novo surgisse ali. A marinha da cidade as inspecionava quase semanalmente, além de realizar várias expedições de caça, limpando as águas próximas de criaturas perigosas.

Lex praticava movendo os braços para ver como a resistência da água o afetava. Na profundidade em que estava, a resistência que enfrentava não o atrapalhava muito. Ele olhou ao redor, mas, além de alguns peixes aqui e ali, não viu nada de interessante.

Por um momento, questionou como os peixes conseguiam sobreviver nessas águas infestadas de monstros, mas depois deu de ombros, colocou as mãos nos bolsos e começou a caminhar para frente.

Ele não se preocupava em prender a respiração, pois seu corpo podia ficar dias sem precisar respirar. Além disso, podia direcionar energia espiritual para os pulmões e, de certa forma, substituir o ar por essa energia por um período. Sem falar que existiam inúmeras técnicas que permitiriam a Lex respirar debaixo d’água — embora ele não planeje estivesse dependendo de nenhuma delas.

Ele planejava usar uma matriz de círculo simples, única, no teto da boca, que produziria oxigênio. Ele expiraria o excesso de ar e respiraria de novo a cada poucas horas. Claro que precisaria tomar cuidado com a quantidade de ar que inalava.

Quanto mais fundo fosse, maior seria a pressão e mais o ar se comprimiria. Ele não tinha muitos receios na descida, mas deveria ser cauteloso ao voltar à superfície. Se não controlasse bem a expansão do ar, poderia se machucar seriamente.

Poderia pensar que Lex ignorava esses detalhes por causa de seu cultivo impressionante, sem falar na resistência de seu corpo. Em certa medida, isso era verdade. Mas Lex não era tão iludido a ponto de achar que podia enfrentar toda a natureza e sair ileso. A linha entre confiança e arrogância era tênue, e ele não pretendia cruzá-la.

Além disso, sua intuição lhe dizia para não brincarem na água, então, nesse ponto, não havia muito a discutir.

Não que tudo isso importasse. O destino de Lex não ficava longe demais, ou sua intuição não teria conseguido detectar para onde ele se dirigia.

Depois de caminhar cerca de vinte minutos, Lex havia se aprofundado ainda mais no mar. Ficou surpreendido ao descobrir que, ao invés de horrores indescritíveis, o leito marinho era bastante impressionante. Assim que se afastou das águas sujas e poluídas perto da cidade, encontrou uma quantidade maior de peixes.

O fundo do mar fervilhava de vida, tanto que Lex até detectou sinais de atividade de diversas rochas — ou pelo menos objetos que pareciam rochas. Encontrou muitos destroços, de navios quebrados e restos de construções antigas, todas transformadas em habitats para a vida marinha local.

Parecia que estava caminhando por um aquário. A densidade de peixes continuava a aumentar, até que ele avistou uma floresta subaquática. Os peixes nadavam felizes entre as árvores de algas, mas uma sensação de presságios sombrios o impediu de dar um passo adiante.

Era confuso, pois sua intuição dizia ao mesmo tempo que era seguro avançar e que encontraria perigo se desse um único passo.

Ele deveria nadar, ao invés de caminhar?

Lex balançou a cabeça. A resposta não podia ser tão simples assim. Após alguns momentos de reflexão, estendeu seu sentido espiritual e tocou uma das árvores.

"Com licença, posso atravessar?" perguntou.

Comentários