O Estalajadeiro

Capítulo 538

O Estalajadeiro

— Você sabe quem era aquele ali? — perguntou um dos soldados que viu Lex entrar na pagoda. Eles tinham sido informados de que a pagoda ficaria aberta ao público, então não deram muita atenção para tentar pará-lo. Mas foi só depois que Lex entrou que um dos soldados percebeu que, na verdade, ainda não tinham divulgado nada sobre a pagoda oficialmente.

Embora tivessem um plano de marketing, ele ainda não tinha sido colocado em prática, então muita gente provavelmente não sabia de nada ainda. Os soldados que haviam visto a pagoda inicialmente foram orientados a não espalhar a notícia até que um acordo fosse fechado com o Porteiro. Embora essa ordem já tivesse sido revogada, pouco tempo havia passado e a informação ainda não tinha se espalhado direito.

— E isso importa? — perguntou outro soldado, que estava muito ocupado com sua própria missão.

O primeiro soldado deu de ombros e seguiu com seu trabalho.

*****

Entrar na pagoda não foi nada parecido com teletransportar-se, embora sua intuição claramente lhe dissesse que ele estava em uma área completamente nova. Era como se fosse só entrar em outro cômodo.

O ar estava surpreendentemente fresco, embora o local parecesse uma sala enorme formada por grandes blocos de pedra, sem janelas para ventilação. Lanternas de vidro fechadas estavam presas às paredes, iluminando o salão com uma luz amarelada e tênue. Mas seu campo de visão parecia limitado — ele não conseguia ver o fim do corredor, que parecia se perder na escuridão.

Lex fez uma comparação entre sua situação e a visibilidade de personagens de videogame quando eles passeiam pelo mapa. Só uma área ao redor dele seria visível ao jogador, enquanto o resto do mapa permanecia um mistério.

Olhou para baixo e viu uma linha fina, porém bem marcada, desenhada no chão. De alguma forma, sem precisar ser informado, ele soube que seu teste começaria assim que cruzasse a linha. De repente, veio à sua mente que deveria ter treinado novas técnicas antes de entrar na pagoda, mas ele deu de ombros.

Apesar do raciocínio anterior, ele não acreditava de verdade que conseguiria concluir a pagoda na primeira tentativa, não importando o quão poderoso fosse. Isso porque a limitação para entrar na pagoda era de idade, não do nível de cultivo.

Ele tinha certeza de que existiam outros por aí muito mais fortes na mesma faixa etária, então o poder bruto não deveria ser o fator decisivo para alcançar o topo da pagoda.

Por outro lado, talvez fosse. Mas ele ainda duvidava que fosse tão simples assim.

Só havia uma maneira de descobrir.

Ele deu um passo à frente e cruzou a linha, continuando a caminhar adiante. Nada pareceu acontecer, mas sua intuição dizia o contrário. O ar estava cheio de algum tipo de sedativo, embora Lex não se preocupasse em filtrar o ambiente.

Ele não só confiante na capacidade do próprio corpo, como também sentia—por sua intuição—que poderia não ser afetado de jeito nenhum por aquele gás.

Conforme avançava, várias substâncias começaram a se misturar ao ar, cada uma com efeitos diferentes. Ele imaginou que qualquer um com uma constituição mais fraca sentiria forte o impacto, e mesmo que tentassem segurar a respiração, isso duraria até eles enfrentarem alguma situação perigosa. Mas havia muitas maneiras de filtrar o ar, então aquilo ainda não era suficiente para intimidá-lo.

Mas tudo mudou ao ver uma única figura emergindo das trevas à sua frente. O rosto de Lex ficou pálido ao reconhecer quem, ou melhor, o que era aquela figura. Era ele mesmo.

O primeiro teste na pagoda… era enfrentar uma cópia exata dele próprio. Lex não precisou fazer suposições — de algum modo, a pagoda havia implantado essa informação diretamente na sua mente, assim como fizera com a linha no chão.

O Lex Maligno, como decidiu chamá-lo, era completamente idêntico a ele em todos os aspectos perceptíveis. Isso significava que, assim como Lex, o lado sombrio tinha uma intuição aguçada para alertá-lo sobre ataques, estratégias que Hero Lex pudesse planejar, como evitá-los e como tirar vantagem deles.

Ele tinha todas as técnicas de Lex, que felizmente não haviam sido atualizadas, e todo o seu equipamento — que nada mais era do que suas roupas. Também possuía a total falta de vergonha de Hero Lex, e não hesitaria em se autodenominar o herói e a cópia como o mal.

Como se isso não fosse suficiente…

— Você sabe que somos péssimos em ataques e incrivelmente fortes na defesa, né? Que tal a gente conversar ao invés disso? — disse Lex Maligno, com seu sorriso malicioso e característico, que de jeito nenhum era resultado do ódio dele ao Hero Lex. Hero Lex não precisou responder, pois sabia que Lex Maligno também tinha seu sexto sentido e podia detectar seu estado mental só pelo papo.

Hero Lex respirou fundo e disse: — Vamos acabar com isso logo.

Usou "Lar, doce lar" para se lançar contra o Lex Maligno e deu um soco na cara dele. Fiel à sua arrogância, o clone nem se moveu e deixou o soco acontecer, confiante de que não conseguiria machucá-lo.

Como previsto, o soco não conseguiu feri-lo, mas, se fosse tão simples assim, a expressão do Lex Maligno não teria mudado repentinamente. Mas o tempo já tinha passado demais.

A falha ridiculamente óbvia nesse clichê tão comum, que às vezes arruinava o final dos animes, era que, como o original, ninguém conhecia melhor suas próprias fraquezas do que Lex. A maior vulnerabilidade dele era a dependência excessiva da intuição, e a maior falha dessa intuição era não conseguir prever coisas relacionadas a sistemas. Naquele último instante, antes do soco de Lex conectar, uma chave dourada apareceu entre seus dedos. A chave, naturalmente, não quebrou a pele do Lex Maligno, mas se quebrou por si mesma, devido à força do impacto.

O Lex Maligno desapareceu e Lex Hero permaneceu, acreditando ter superado o desafio mais ridículo e batido de cabeça nas clichês mais repetidas. Se o que a pagoda tinha preparado para ele fosse só isso, ele ficaria seriamente decepcionado.

Porém, só para garantir, pediu para Mary verificar se algum clone ou projeção de Lex Maligno havia surgido na pousada. Não houve. Parecia que, assim que a cópia ou projeção ou o que quer que fosse saiu da pagoda, ela desapareceu definitivamente.

Com um bufar, Lex seguiu em frente. Uma escada que levava ao próximo andar apareceu na escuridão, permitindo que ele continuasse sua jornada.


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