
Capítulo 507
O Estalajadeiro
Alysha tremeu um pouco ao sentir a mão do Estalajadeiro segurando a dela, mas logo se recompôs. De volta ao seu escritório, após se recuperar, eles debateram os detalhes do que fazer. Alysha tentaria primeiro conseguir um emprego na pousada, pois sentia que esse lugar era muito mais seguro, além de mais interessante do que sua cidade natal. Se conseguisse emprego, sua irmã poderia morar com ela também.
As duas viveriam felizes para sempre aqui.
Se ela não conseguisse se tornar funcionária da pousada, o Estalajadeiro patrocinaria sua estadia por tempo suficiente para ela elevar sua cultivação, para que, ao retornar ao deserto, pudesse fugir facilmente por conta própria.
Além disso, o Estalajadeiro informou que já havia feito uma solicitação para alguém localizar a "Sebiline" com base nas informações dela sobre o planeta e a cidade. Independentemente do que acontecesse com o emprego dela, ela logo se reuniria com sua irmã.
Então, sobrava apenas a questão de remover o sistema dela. Para ser honesta, agora que ela estava prestes a perder o sistema, conseguiu admitir que haveria partes dele das quais sentiria falta — se mantivesse suas memórias. Se as coisas fossem um pouco diferentes, como se o sistema permitisse teleportar ela até o deserto e voltar para casa, ela até poderia ter gostado.
Mas não há poder quando o assunto é essas coisas. Apesar da comida deliciosa que proporcionava, e da água, que, para ser sincera, também era bastante gostosa, não valia tudo o que tinha tirado dela.
Malpassava um minuto desde que o Estalajadeiro segurou sua mão, e Alysha nem teve tempo de terminar seus pensamentos, quando ele retirou a mão. Um pequeno ponto brilhante apareceu na ponta de seu dedo, quase do tamanho de um grão de areia.
"É... é isso?" ela perguntou, hipnotizada com a visão. Como algo tão pequeno pôde lhe causar tantos problemas?
"De fato, é," respondeu o Estalajadeiro, seus olhos fixos não no ponto, mas em alguma coisa ao longe. Como Alysha poderia saber que ele estava lendo uma notificação de sistema dele próprio?
Mas no momento seguinte, o ponto desapareceu de sua mão e ele a olhou novamente.
"Quando você sair daqui, perderá toda a memória do sistema. Vai lembrar do tempo que passou no deserto e de tudo o que fez lá, mas o envolvimento do sistema será apagado da sua mente. Isso é por sua própria proteção."
"Eu... acho que é melhor assim mesmo," ela disse, olhando para os pés.
"Boa sorte no seu teste. Você pode me procurar novamente se precisar de mais alguma coisa."
O Estalajadeiro desapareceu, deixando uma chave de platina na mão de Alysha. Por um momento, ela achou difícil acreditar que estava livre do sistema e de suas tarefas intermináveis. Tentou acessar seu painel, mas nada apareceu. Tentou de novo, e só quando teve certeza de que tinha desaparecido, um sorriso se formou em seu rosto. Ela esmagou a chave e desapareceu.
Quando reapareceu, estava de pé em um que parecia ser um pequeno quarto de hóspedes. Por algum motivo, esqueceu tudo sobre sua vida anterior. Esqueceu do sistema, da pousada, do Estalajadeiro, do John, da sua irmã e de tudo mais. Mas também não percebeu que tinha perdido as memórias.
No instante seguinte, um homem entrou tropeçando no cômodo, com sangue e ferido. Seja por intenção ou por sorte, ele caiu bem numa cadeira próxima.
"Hóspede, você está ferido," ela disse, alarmada, e rapidamente se aproximou para verificar os ferimentos.
Como por magia, surgiu ao seu lado uma toalha, uma garrafinha de água, uma agulha de costura e um pouco de linha. Com a mão esquerda, apareceu um sino, que ela poderia tocar para chamá-lo. Atrás dela, surgiu uma porta — um homem ensanguentado entrando numa sala podia ser assustador, fazendo alguns fugir por medo de qualquer perigo que pudesse trazer.
Logo acima de sua cabeça, apareceu um machado, pronto para decapitar o homem — mesmo na condição em que se encontrava, Alysha pôde ver algumas joias que ele usava. Por mais que valessem mais dinheiro do que ela tinha na vida toda.
Embora não olhasse ao redor, instintivamente conhecia todos os objetos ao seu redor e suas funções. Ainda assim, não hesitou em pegar a toalha e pressioná-la contra o ferimento sanguento do homem. Pegou a garrafinha de água e usou para lavar as partes de seu corpo cobertas de sangue, tentando ver se havia mais ferimentos.
Estava tão concentrada que não percebeu que os demais objetos na sala desapareceram, além da agulha de costura. Miraculosamente, também esqueceu que era inicialmente muito tímida e reservada.
"Me deixe, mulher," disse o homem grunhindo. "Vou ficar bem."
"Você está ferido, sangrando, e possivelmente com concussão. Então, fique quieta e faça o que eu digo. Continue falando, diga seu nome. Como foi que você acabou assim?"
O homem tentou se livrar de seu aperto, mas, apesar de sua força desumana, por algum motivo, não conseguiu escapar. Por fim, desistiu e escutou-a.
"Meu nome é Zagan. Algumas pessoas invadiram minha casa e demonstraram muita falta de cortesia. Começou uma briga, um negócio levou ao outro, e agora estou numa busca por umas feijões mágicos que me levarão a um reino de maravilhas."
"Seu braço está deslocado," interrompeu Alysha. "Vou precisar colocá-lo de volta no lugar. Aqui, morda isto." Ela torceu a toalha, deixando-a limpa, e empurrou-a na boca do homem. Antes que pudesse protestar, ela já tinha colocado a junta dele no lugar.
O homem não soltou o grito, ou mesmo um gemido que ela esperava. Em vez disso, olhava para ela com uma expressão irritada.
Ela encolheu os ombros, pegou a agulha e passou a linha por ela. Uma resistência forte que teria evitado que ele se contorcesse enquanto se costurava.