
Capítulo 509
O Estalajadeiro
Lex olhou para os cinco outros que também estavam acorrentados às suas cadeiras, mas não reconheceu nenhum deles. Tentou usar seu sentido espiritual para ver se descobria mais alguma coisa, mas descobriu que não só seu sentido espiritual não existia mais, como ele também não tinha nenhuma das suas habilidades de cultivo. Ele voltara a ser um humano mortal.
A revelação não o assustou, embora tenha feito perceber o perigo da sua situação. Ele não podia simplesmente ignorar um tiro daquele revólver, como havia assumido. Mas, como Lex sabia que a morte na Provável Prova não se transferiria para a vida real, ele não ficou preocupado. Tudo isso significava apenas que Lex teria que jogar de acordo com as regras da prova.
De repente, veio-lhe uma outra consideração. Além de aprimorar qualquer habilidade que a prova acreditasse que Lex possuía, aquilo na verdade até era bem divertido. Era como jogar um videogame, mas com uma realismo extremo.
Claro, Lex só pensava assim porque já havia se tornado imune ao medo nessas situações. Qualquer pessoa normal ficaria bastante intimidada, mesmo sabendo que a prova não iria prejudicá-la de verdade, porque, independentemente de tudo, aquilo parecia real.
— Quem é você? O que diabos está acontecendo? Você sabe quem eu sou? Sabe quem é meu pai? — gritou um dos presos à cadeira, com uma mistura de raiva e medo na voz.
Os demais também começaram a se debater, tentando escapar das cadeiras, enquanto o pânico se instaurava. Mas o homem à cabeça da mesa parecia tranquilo. Calmamente, ele pegou o revólver da mesa e atirou um tiro para o alto, fazendo todos congelarem e olharem para ele com medo.
A tensão que tomava o ambiente era palpável, e Lex absorvia tudo com calma, tentando entender qual era o objetivo da prova. Um leve cheiro de pólvora queimada chegou até ele, antes de ser substituído por um odor mais repulsivo: o cheiro de medo. Alguém na extremidade oposta da mesa havia se molhado. Se fosse alguém do lado de Lex, ele teria ao menos percebido.
Sem deixar que o cheiro o incomodasse, Lex desviou o olhar do homem mascarado para os outros presentes. Havia três rapazes e três moças, todos de idades e etnias variadas. Parece que não havia um padrão na seleção.
— Ótimo. Agora que todo mundo se acalmou, podemos focar nas coisas realmente importantes — disse o homem.
Ele colocou o revólver na mesa e buscou, no bolso, um novo baralho de cartas.
— Embora, em si, essa afirmação seja bastantevaga, não acha? Mas, afinal, o que é realmente importante na vida?
O homem falou devagar, insistindo na pronúncia de cada palavra, como se não pudesse tolerar um único erro. Ao perceber isso, Lex começou a observar outros detalhes do homem. Sua roupa, embora não fosse nova, estava bem passada, sem uma única dobra. Ele usava luvas de couro preto finas, com sinais sutis de uso, mas ainda limpas e bem cuidadas.
— Na mídia, dizem que é importante aproveitar as pequenas coisas da vida, os momentos simples. Parar para cheirar as flores, desfrutar o percurso, essas coisas — explicou.
Ele destrançou cuidadosamente o plástico que vedava o estojo do baralho, retirou as cartas e removeu os dois curingas. Em seguida, começou a embaralhar.
— Mas eu tenho minha própria teoria sobre o que realmente importa na vida. Acredito que, na vida, o essencial é viver, e não apenas existir — afirmou.
A técnica dele de embaralhar formava um ritmo constante, o som das cartas deslizando suavemente umas sobre as outras, criando um leve ruído na pausa silenciosa entre suas palavras.
— Mas o que significa exatamente 'viver'? É uma questão filosófica, mas, ao mesmo tempo, acho que é bem simples. Viver é fazer as coisas com propósito. Acordar cedo quando poderia dormir mais, porque tem um objetivo. Escolher uma roupa em vez de outra, dependendo das circunstâncias, porque elas atendem melhor às suas necessidades.
— Cada ação deve ter um significado, tudo deve conduzir a um objetivo específico — explicou.
Lex ficou pensando se aquele monólogo era direcionado a ele ou se era apenas a postura do homem à sua frente. Ainda não conseguia entender exatamente qual era o propósito da prova.
— Mas na rotina diária, muitas vezes confundimos simplesmente existir com ter um propósito. Acordamos cedo para trabalhar, ganhar dinheiro, comer, continuar vivendo, para que, em determinado ponto da vida, possamos experimentar prazer. São muitas ações que parecem ter sentido, mas, no fundo, tudo é uma ilusão — refletiu.
— Então, agora identificamos outro aspecto importante da vida: distinguir entre viver com propósito e apenas existir. Mas, para os iniciantes, isso pode ser difícil. Vamos tentar algo mais simples, humm? O propósito agora é sobreviver, e a ação é jogar um jogo. Resumindo, vamos jogar um jogo com o objetivo fundamental de sobreviver — concluiu.
O homem começou a passar as cartas para cada um dos presos, com movimentos fluídos e precisos. Mesmo estando no fim da mesa, três cartas deslizaram suavemente até Lex, parando bem na ponta de seus braços acorrentados.
Diversos pensamentos passaram pela cabeça de Lex enquanto ele absorvia tudo ao seu redor, desde as moças choramingando até o idoso hiperventilando. Mas, principalmente, ele observava as ações do homem à frente. Embora ainda não tivesse descoberto qual era o verdadeiro propósito da prova, decidiu deixar de observar silêncio e tentar participar.
Afinal, duvidava que sua habilidade especial fosse apenas para jogar jogos.
Antes que o homem pudesse guardar o baralho e continuar seu discurso, Lex falou.
— Você disse que deveríamos viver com propósito, não foi? Então, por que está tirando esse propósito de nós e, ao mesmo tempo, se privando dele? Faça sua jogada e junte-se a nós. Ou então, como vai saber se está apenas existindo, como um dealer, ou realmente vivendo a vida?
Assim que Lex falou, algumas coisas mudaram, e ele compreendeu imediatamente qual era o verdadeiro objetivo da prova.