
Capítulo 366
O Estalajadeiro
A aura desapareceu tão rápido quanto apareceu. Foi apenas um instante de pura contenção, mas conseguiu parar completamente o fluxo da batalha. Cada participante olhava um para o outro com cautela, como se tentasse descobrir se os outros conheciam a origem da aura, mas todos estavam igualmente surpresos.
Lex pensou em fazer uma declaração. Uma frase simples para revelar que estava descontente ou que deixaria o assunto para lá, desde que eles encerrassem a luta. Mas esse movimento não parecia adequado.
Como dono da pousada, se ele desse explicações excessivas dentro da pousada, até faria sentido, já que tinha que justificar sua presença aos hóspedes. Lá fora, porém, não havia necessidade de explicar.
Já que ele representava uma força poderosa, por mais que sua personalidade parecesse pé no chão, algumas coisas estavam abaixo dele. Numa situação assim, o fato de que ele supostamente exibiu sua aura para eles já era uma advertência suficiente. Dar explicações adicionais o faria parecer fraco.
Assim, com os braços cruzados e uma expressão impassível, ele manteve os olhos fixos no céu, observando tudo. Se a batalha continuasse ou não, isso definiria seus próximos passos. Na verdade, ele já se preparava para que ela seguisse.
Afinal, enquanto usava a mentalidade de um overlord poderoso para julgar a situação, tinha que aceitar a realidade de que era pateticamente fraco diante daqueles que estavam lá em cima.
Um segundo se passou desde que a aura desapareceu. Para Lex, foi um instante minúsculo, praticamente o tempo de formar alguns pensamentos, mas para os imortais no céu, um único segundo equivalia a uma eternidade. A velocidade com que suas mentes operavam era incompreensível para mortais comuns, e assim, um segundo de indecisão tinha um peso enorme.
Mostrava o quão grande tinha sido o efeito dissuasor daquela aura.
Zagan percebeu que o alvo da aura tinha sido ele o tempo todo, já que tinha vindo até ali e começado a causar problemas. Como quem liberou a aura marcou este lugar como seu território, certamente tinha algum entendimento com os humanos. A única dúvida que permanecia era se ele estaria disposto a arriscar uma luta contra quem tinha liberado a aura por causa daquele tesouro.
Depois de tudo, não precisava explicar que, para uma criatura desse nível, o único motivo de residir ali era o que quer que fosse aquele tesouro.
Zagan confiava em sua força, mas se precisasse lutar contra o dono daquela aura, junto com esses humanos, seria um pouco difícil. Zagan odiava coisas difíceis, pois tinha uma certa preguiça por natureza.
Com um resmungo irritado, Zagan se virou e voltou às profundezas aquáticas.
A ameaça imediata da criatura se foi, mas os humanos continuavam paralisados no ar. Isso porque eles não entendiam de onde tinha vindo aquela aura. Será que havia algum monstro antigo dormindo por ali, há muito tempo antes de eles chegarem? Parecia isso.
Apesar de ficarem ali esperando, nada aconteceu. Nenhum monstro apareceu. Não houve reação nova.
Quando se convenceram de que tudo estava bem, Bertram e Joseph Noel, patriarca da família Noel, finalmente voltaram sua atenção para o campo de batalha que, no passado, fora Babilônia.
Bertram ficou especialmente chocado com o estado atual da cidade, pois tinha visitado ali recentemente. Era difícil acreditar que sobrasse algum sobrevivente.
Depois, voltaram os olhares para a Taverna da Meia-Noite.
No meio da terra destruída, cheia de cadáveres de monstros e ruínas queimadas de casas que talvez um dia existiram, permanecia uma única construção de três andares de madeira intacta. O jardim na frente tinha o brilho de grama recém cortada, mas, além disso, parecia que nem tinha sofrido com ventos fortes. Eles até notaram que, perto de uma janela, um tico-tico tinha feito um ninho pequeno.
Ele estava bem acomodado sobre seus ovos, dormindo sem medo ou preocupação com a carnificina que devastou a região. Era estranho demais. Se houvesse alguma chance de sobreviventes, provavelmente estariam ali.
De repente, Bertram teve uma lembrança de uma visita que fizera na sua passagem pela cidade.
"Taverna da Meia-Noite..." murmurou, lembrando suavemente do lugar onde seu irmão tinha se despedido pela última vez.
Antes que pudesse ficar pensando nisso, um buraco foi aberto no chão e Pvarti emergiu.
"Tem sobreviventes," gritou para o céu, sem se importar se sua família o consideraria um estranho. "Mas as entradas foram soterradas, e o círculo de proteção está se desfazendo, foi danificado demais."
A família, que não esperava se reencontrar tão cedo, começou rapidamente a escavar uma entrada para os bunkers subterrâneos. Encontrar sobreviventes ajudaria a entender exatamente o que tinha acontecido aqui e o que era aquela construção.
De volta à taverna, Lex desceu do telhado com bom humor e bateu palmas forte para chamar atenção de todos.
"Senhoras e senhores, tenho uma ótima notícia," disse Lex, com um tom um pouco mais formal, esquecendo-se de sair da persona de dono da pousada. "A formação da cidade voltou a funcionar normalmente, e todos os monstros lá fora já foram eliminados. Por segurança, recomendo que permanecam dentro de casa por mais um tempo, mas alguém deve estar vindo nos avisar que o perigo passou."
A taverna lotada ficou parada, sem saber se acreditavam no que ouviam. O problema tinha sido resolvido? Aquilo tinha sido... mais fácil do que imaginavam, certo? Mesmo cheia, eles nunca ficaram com fome ou entediados.
Perceberam há muito tempo que uma espécie de ilusão tinha sido projetada nas janelas, pois nunca conseguiam ver um único monstro lá fora. Mesmo agora, tudo parecia igual ao olhar para fora. Mas o dono da taverna não tinha motivo para mentir, pois essa mentira podia ser facilmente desmascarada. Isso devia significar que era verdade.
Todos começaram a comemorar animadamente, e mesmo quem não estava na sala logo ficou sabendo o que tinha acontecido. As crianças, especialmente, estavam mais felizes, e algumas começaram a chorar. Já tinha passado tempo demais desde que tinham se separado dos pais, e estavam com medo de imaginar o que poderia ter acontecido com eles.
Na celebração e alegria, ninguém percebeu, além de Lex, que a porta da frente se abriu suavemente e entrou um homem. Ele carregava, na mão, um garfo de plástico notavelmente familiar e olhava diretamente para Lex.
Os dois trocaram olhares antes de o homem se virar para o bar, hesitar por um momento e, então, se sentar.
Lex foi até o lado dele.
"O que deseja?" perguntou Roan, o barman.
"A bebida mais forte que tiver," respondeu o homem.
"A mais forte? Tem certeza? É caro."
"Sim, sim, posso pagar," ele disse casualmente.
Roan olhou para Lex, que apenas assentiu, e então se afastou em direção à cozinha. Ele precisava ir até a adega para trazer as bebidas realmente caras.
Houve um silêncio entre o homem e Lex, nenhum dos dois querendo falar primeiro. Alguns minutos depois, Roan voltou segurando uma pequena garrafinha de jade, selada por um coraj, e, após mostrar a garrafa ao homem e confirmar o preço, serviu-lhe uma dose.
Essa garrafinha valia 1 milhão de MP e continha apenas duas porções de espírito. Ou seja, a bebida que o homem tomava tinha um valor de 500 mil MP.
Quando ouviu o preço, o homem quase pensou que estava sendo roubado, mas, ao abrir a garrafinha, ficou em choque. O garfo de plástico escorregou de sua mão, e sua atenção se fixou na pequena tigela branca onde a bebida havia sido colocada.
Uma bebida branca leitoso, com névoa gelada flutuando ao redor, apareceu na sua visão, e tornou-se o único foco do seu mundo. Conforme o líquido saía da garrafinha, ele observava seu fluxo como se estivesse contemplando a mulher mais bela do mundo.
Quando a tigela ficou pronta, o homem estendeu as mãos trêmulas, mas, ao segurar o copo, suas mãos ficaram firmes. Em seu mundo, o silêncio caiu enquanto ele levava a taça perto do rosto e respirava profundamente.
Mesmo com os olhos fechados, o homem via uma explosão de cores na sua mente. Ondas de vermelho se chocavam com amarelo e verde, formando uma tempestade de beleza selvagem. As cores mudavam de forma e se tornavam um rio que descia do pico mais alto, repleto de peixes nadando de um lado para o outro. Pássaros cantando enquanto atravessavam o rio e arco-íris floresciam.
Grama brotava do chão junto com as flores mais perfumadas.
O homem se perdia em seu próprio mundo, pois ficou embriagado só pelo aroma — a taça ainda cheia na sua frente, aos seus olhos.