
Capítulo 356
O Estalajadeiro
Lex não ficou nem um pouco surpreso ao ver que Mario estava ileso. Afinal, ele era forte demais para monstros desse nível conseguir dominá-lo. Mas, quando chegou ao telhado e viu o tamanho do grupo que o acompanhava, ficou extremamente surpreso.
Estava bem pequeno. Poucas mais de dez pessoas estavam seguindo-o. Todas eram combatentes excelentes por si só também. Claramente, eles teriam sobrevivido mesmo sem Mario, desde que permanecessem juntos. Contudo, a quantidade reduzida e, principalmente, a velocidade lenta e constante, indicavam que algo estava errado.
Foi aí que Lex percebeu que o filho de Mario, Elio, não estava com o grupo. Ele não tirou conclusões precipitadas, mas manteve essa possibilidade na cabeça.
Apesar de estarem tão próximos, o grupo não perdeu a paciência algum momento, e seguiu seu ritmo. Demorou quase uma hora até que finalmente chegaram à taverna.
Assim como os dois primeiros guerreiros, o grupo foi duramente impactado pelo contraste entre o ambiente dentro da taverna e o que estavam acostumados. Mas, diferentemente do primeiro grupo, eles não se tornaram arrogantes demais ao chegar nesse local cheio de civis. Bandidos como eles tinham uma compreensão mais profunda do jeito do mundo.
No campo de morte que Babylon se tornou, apenas uma força repugnante e esmagadora permitia que alguém vivesse com certo conforto.
Lex já havia preparado comida para todos, e ao verem as tigelas de sopa fumegantes sendo colocadas à sua frente, esses homens rudes, que gostavam de uma boa briga, tinham nos olhos uma expressão de pura admiração e gratidão, e se sentaram para saborear sua primeira refeição em dias!
No entanto, Mario não se dirigiu à comida e, em vez disso, sentou-se no bar, seus olhos fundos fixos no horizonte. Pediu uma dose de bebida forte com um gesto e a bebeu de uma só vez, como um homem sedento que enxuga a água da garganta.
— Sua turma é menor do que eu esperava — disse Lex, aproximando-se dele. Homens como Mario não precisam de palavras de consolo ou de palavras de conforto. Na verdade, tratar esses caras com delicadeza ou com cuidado demais pode até ofendê-los.
Nessa situação, o melhor é ser direto sobre o que se quer saber.
— Foi aquele maldito assassino — falou Mario, com a voz rouca. Ele bebeu mais um gole e começou a servir mais uma dose para si mesmo.
— Ele nos conduziu como gado em direção à luz, só para nos eliminar um por um. Nem eu consegui alcançá-lo. Ele é astuto demais para esconder-se nas sombras, e faz as pessoas desaparecerem, só para que seus corpos reapareçam pouco tempo depois.
— Você acha que ele teve algo a ver com a falha na formação de luz?
— Acho que não. Apesar de ser muito traiçoeiro e inteligente, ele não é forte o suficiente. A formação é reforçada por guardas altamente treinados. Para invadir tudo aquilo, pelo menos um cultivador em estágio inicial precisaria romper as defesas — e, se ele fosse tão forte assim, não estaria eliminando os mais fracos desse jeito. Ele daria o próximo alvo em mim. O que ele tem feito, na verdade, é não focar em mim, mas apontar para as pessoas que estão bem diante dos meus olhos.
Existe uma diferença pequena, mas importante.
Lex não precisou perguntar para entender a diferença. Uma significava que o assassino era forte o bastante para desafiar Mario; a outra, que ele sabia que não poderia enfrentar Mario pessoalmente, mas era hábil ou louco o suficiente para provocá-lo.
Ele questionou se Mario sabia o que estava acontecendo no restante da cidade, mas o próprio Mario não tinha essa informação. Ele permaneceu perto de seu território até perceber que o assassino iria eliminá-los um a um, a menos que partissem.
Uma coisa que despertou a curiosidade de Lex era que, de alguma forma, o assassino tinha uma maneira de não ser alvo dos monstros na escuridão. Enquanto todos lutavam por suas vidas, ele passava pelo breu como um navio em águas calmas.
Mario não falou mais nada por enquanto, mas a chegada de novos hóspedes rapidamente chamou a atenção de todos. Sem muito o que fazer, conversaram, trocaram histórias, e um novo medo começou a espalhar-se entre os que estavam na taverna: de que Mario e seu grupo tivessem levado o assassino direto até lá. Mas nada disso aconteceu. A taverna continuava tão segura quanto sempre.
Enquanto Big Ben e Betty estavam apenas felizes por estarem vivos e seguros, os trigêmeos, junto com os padeiros, tiveram várias crises de pânico menores. Todos tinham familiares na escuridão, mas sabiam que nada poderiam fazer para procurá-los.
A pequena faísca de animação proporcionada pelos novos hóspedes logo se apagou, pois os dias voltaram à sua rotina monótona de antes. Lex tinha de alguma forma conseguido mais colchões e mantimentos, e abriu a sala secreta embaixo do balcão para que a taverna não ficasse ainda mais lotada.
Sete dias se passaram assim e, justo quando todos — especialmente as crianças — estavam prestes a enlouquecer, outro grupo foi visto vindo em direção à taverna.
Era um grupo muito maior que o de Mario, mas, ao chegar, estavam em condições muito piores. Essa turma era liderada por um dos nobres e pelos pais de um dos “funcionários extras” que Lex ajudava na taverna.
Como era de se esperar, a história deles era bem parecida com a de Mario. Sobreviviam, na corda bamba, em uma das zonas de segurança que surgiram ao redor da cidade, até que um dia o assassino apareceu e começou a eliminá-los um por um.
Por desespero, saíram para a escuridão, mas a grande tocha de luz não era o destino inicial deles. Parecia que tinham sido forçados pelo assassino a seguir por esse caminho, pois quando tentavam ir para qualquer outro lado, as mortes aumentavam.
Lex recebeu essa notícia com surpreendente tranquilidade. Fazia sentido. Ele já sentia que algo vinha se acumulando desde o momento em que as luzes falharam.
Quatro dias depois, apareceu outro homem. Ele caminhava sozinho na escuridão, as criaturas morrendo ao seu redor. Era outro nobre, incapaz de salvar sequer uma pessoa. Era maior parte dos monstros quem matou todos que ele tentou proteger, e os poucos sobreviventes tinham sido eliminados pelo assassino. No dia seguinte, chegaram os outros três nobres, novamente sozinhos.
Até aquele momento, a taverna já estava lotada, até mesmo com o armazenamento secreto embaixo. O clima era sombrio. Parecia que eram os últimos sobreviventes da cidade, pois ninguém sabia o que tinha acontecido com o prefeito e os guardas.
Mesmo com cerca de 100 pessoas reunidas na taverna, parecia o lugar mais solitário do mundo. Viviam em uma pequena ilha de segurança, cercados por um abismo faminto.
Pelo menos, até Dino e Betty começarem a inventar comidas diferentes e perguntarem a todos qual era a preferida deles. Com o fornecimento infinito de ingredientes que Rick, de algum modo, tinha sempre disponível, as refeições na taverna se tornaram os momentos mais aguardados do dia.
As pessoas faziam apostas e jogavam adivinhações sobre qual seria o cardápio do dia. A música nunca parava, e Lex fornecia uma variedade infinita de ideias de jogos de tabuleiro para entreter todo mundo.
Parecia que havia um festival acontecendo ali dentro. Isso porque, certa dia, Lex teve uma revelação. Se o humor de todos estava sendo artificialmente perturbado por algum meio, por que não fazer o mesmo?
Ele comprou formações que bloqueavam qualquer interferência externa nas emoções e outra que fazia uma leve melhora na mente.
Era tudo o que precisava, pois as inúmeras crianças presentes imediatamente ficaram alegres, entretendo todos os convidados. Criaram suas próprias peças e performances.
No fundo, ninguém esqueceu que estavam em uma situação desesperadora. Mas, ao mesmo tempo, nada podiam fazer a respeito, então decidiram se entregar às pequenas alegrias que conseguiam sentir.
Sem que eles soubessem, nos últimos três dias, o assassino esteve do lado de fora da taverna, escondido da luz que iluminava a rua. Ele estava observando.
Seu plano de reunir todos os alvos de alto valor em um só lugar foi um sucesso. O que ele não esperava era que seu sistema falhasse ao não conseguir fornecer um caminho seguro para infiltrar-se na taverna. Então, nos últimos dias, ele usou sua visão de raio-X para observar cuidadosamente o local e seus moradores.
Havia coisas demais acontecendo ali que não conseguiam ser explicadas, então o assassino simplesmente não tentou. Seu foco total era encontrar uma forma de infiltração.
No final, quando não conseguiu fazer isso sozinho, teve que confiar em uma recompensa de missão que vinha acumulando para matar o prefeito.
— Sistema, prepare a Bolha da Morte. Alvo: a pessoa de maior valor naquele prédio.
De repente, Lex, que estava ocupado cultivando em seu quarto, desapareceu.