O Estalajadeiro

Capítulo 351

O Estalajadeiro

Em pé no telhado, diversos pensamentos passavam por sua cabeça. Pensava nos seus inquilinos, nas pessoas da cidade, na família Noel, no assassino, na escuridão... e, principalmente, nele próprio.

Uma sensação muito sutil mexia no seu interior, algo muito mais suave do que qualquer alerta que já tivera recebido de seus instintos. Não conseguia identificar exatamente o que era, e, na verdade, era tão leve que só agora percebeu que vinha se intensificando há algum tempo.

Ele fechou os olhos e tentou se concentrar. Sentia o vento frio atravessando seu corpo, ouvia-o sussurrando no ouvido como um amigo próximo. Sentia peso. Não só o peso de seu corpo, mas também da responsabilidade.

Ele tinha consigo a habilidade de proteger toda a cidade, caso desejasse, mas, ao fazer isso, colocaria um alvo enorme nas costas. Talvez, durante a escuridão, ninguém o atacasse, ou talvez fosse alvo de alguns poucos gananciosos. Ele não se preocupava com isso. Sua preocupação eram os imortais que poderiam ficar curiosos se os mistérios em volta da taverna parecessem um pouco demais.

Com a sua formação impressionante e a quantidade de MP que possuía, tinha certeza de que poderia sobreviver a um imortal vindo à taverna. Mas, se mais de um aparecesse, ou se usassem algum método além de seu entendimento, ficaria vulnerável. Era melhor não chamar atenção deles.

Porém, isso mais ou menos condenava a cidade a cuidar de si mesma. Uma decisão difícil, mas, felizmente, não precisava ser tomada imediatamente. Ainda não sabia o que tinha causado o problema com a formação, e talvez pudesse consertar. Além disso, havia muitas variáveis nesse tempo incerto, das quais ele tinha que levar em conta.

Após algum tempo de reflexão, decidiu encarar as coisas conforme fossem surgindo. Por ora, não faria nada demais. Mas uma coisa era certa: não pretendia dar um único passo para fora da taverna.

A sensação no seu interior... era como se tivesse, acidentalmente, invadido o território de um predador. Os sinais estavam ao seu redor. Mas ele não sabia se era o alvo. Além disso, não era apenas perigo que percebeu. Era algo... mais. Algo além do seu entendimento que o atraía.

Ia além do escopo de tesouro ou algo valioso. Era como... um pedaço de sua alma que ele não sabia que estava faltando.

Era confuso demais para compreender de fato. Então, decidiu se preparar para o pior.

Após tomar essa decisão, rapidamente voltou ao salão principal, onde os hóspedes estavam reunidos perto das janelas e começavam a ficar em pânico.

"Senhoras e senhores," sua voz alta, porém calma, ecoou pelo salão, capturando a atenção de todos. "Antes de mais nada, quero garantir que, enquanto estiverem dentro desta taverna, vocês estão completamente seguros."

Ele parou por um momento enquanto continuava descendo as escadas, seus movimentos marcados por uma aparente falta de pressa ou preocupação. Parecia que fazia uma caminhada casual dentro de sua própria casa... o que, de certa forma, era verdade.

"Não sei exatamente por que as luzes se apagaram, mas tenho certeza de que o problema será resolvido em breve. Mesmo que não seja, mais uma vez, quero lembrá-los de que a taverna é segura e temos reservas de comida suficientes para alimentar todos por um longo, longo tempo."

"Neste momento, é muito importante que todos mantenham a maior calma possível. Comam alguma coisa, tomem umas bebidas, relaxem, ouçam música, tirem uma soneca, façam o que quiserem. Mas, por favor, não entrem em pânico."

Naquele instante, a postura relaxada que Lex cultivava como dono da taverna desapareceu, dando lugar à sua verdadeira essência de Mestre de Estalagem. Ele permanecia calmo e autoritário, transmitindo segurança enquanto assumia o controle da situação. Enquanto estivessem dentro de sua taverna, durante esse período de emergência, deveriam seguir suas ordens.

Enquanto alguns hóspedes se acalmavam um pouco e começavam a discutir entre si o que poderia ter acontecido, alguns se aproximaram com perguntas. Com base em sua postura, muitos supunham que ele teria alguma informação sobre o ocorrido, mas, infelizmente, ele não tinha. Pelo menos por enquanto. A sala de rumores poderia dar-lhe algumas ideias, mas isso teria que esperar.

Ele foi até Roland, que, apesar da pouca idade, parecia manter a compostura. Ou, pelo menos, era isso que mostrava na frente. Lex percebeu de imediato que o garoto estava apenas fingindo, para que seus amigos se sentissem mais tranquilos.

"Vão se sentar na sala privada de sempre," disse Lex. "Vou mandar comida para vocês, é por minha conta, então não se preocupem. Recomendo fortemente que não saiam na calada da noite. Pelo que entendo, leva apenas alguns minutos para que alguns monstros mais fracos se formem durante a escuridão."

Roland hesitou, mas acabou concordando. Não era tão evidente para quem não prestasse atenção, mas ele, na verdade, tinha muito orgulho. Detestava depender de favores, e sempre preferiu confiar somente em si mesmo. Mesmo agora, tinha dificuldade em aceitar a ajuda de Lex, e, se não fosse pelos amigos ao seu lado, teria sido ainda mais difícil.

Enviando as crianças embora, Lex convocou todos os seus empregados e trabalhadores temporários para a cozinha.

"Sei que todos devem estar preocupados com suas famílias e amigos lá fora," disse, olhando para os trigêmeos. "E não impedirei quem quiser sair, mas recomendo que fiquem aqui na taverna. O prefeito provavelmente já está procurando uma solução, e as coisas podem melhorar logo. Mas, se não melhorarem, ficar aqui é a melhor saída."

Hena e as outras crianças mimadas estavam pálidas, e, de tanto pânico, tinham dificuldade até de pensar claramente. Queriam apenas voltar para a segurança de suas casas, mas, ao mesmo tempo, estavam com medo demais de atravessar a escuridão.

Lex, no entanto, não se importava muito com elas. Pode parecer duro, mas, apesar de seu novo sentimento de proteção emergente, ele só se limitava a seus funcionários e hóspedes. Não iria expulsá-los para que se virassem por conta própria, mas não ofereceria misericórdia ou compaixão.

Depois que as trigêmeas, mesmo em seu estado de agitação extrema, decidiram ficar na taverna, Lex prosseguiu.

"Não sabemos quanto tempo isso vai durar, mas acredito que é melhor nos prepararmos para o pior. Sigam-me."

Ele os conduziu a um canto remoto da cozinha, moveu uma mesa e revelou uma escada no chão.

Decidiu usar o sistema e criou algumas salas subterrâneas secretas, fingindo que sempre estiveram lá. Um conjunto de salas secretas, acessível pela cozinha, seria para seus empregados morarem. Criou outra com uma entrada secreta logo no salão principal, escondida atrás do bar.

Não eram grandes, mas podiam acomodar algumas pessoas, caso a situação evoluísse para que precisassem de refúgio.

Abriu a escada e desceu as escadas estreitas, revelando um corredor com cinco quartos pequenos.

Designou um para Big Ben e Betty, e os trigêmeos dividiram outro. Roan e Rick, que anteriormente moravam no quintal, também ficarão com um quarto cada, para manter as aparências.

Depois que todos se familiarizaram com os quartos, retornaram ao térreo e continuaram com suas tarefas. Betty começou a cozinhar, pois logo seria hora do almoço e comer ajudaria a distrair as pessoas temporariamente.

Lex enviou Big Ben até a padaria dos vizinhos para chamar Dino e sua esposa. Como a rua parecia estar vazia, de pessoas e monstros, levou apenas alguns minutos.

O padeiro e sua esposa aceitaram o convite e logo estiveram lá. Como vizinhos, naturalmente, ouviram falar da especialidade da taverna, e ficaram com medo de permanecer na própria padaria. Curiosamente, nenhum dos outros lojistas da rua veio até lá. Lex não se incomodou em estender o convite também, pois não queria que Big Ben fosse longe demais.

Depois de meia hora, tempo suficiente para fazer algumas pequenas preparações e passar instruções, Lex não tinha mais o que fazer. Agora, só restava esperar. Esperar e torcer para ver as luzes acenderem ou a guarda da cidade patrulhar as ruas.

Infelizmente, a primeira pessoa que Lex viu na rua não era um guarda, e sim um corpo jogado para fora de um prédio. O som alto do corpo batendo na parede chamou a atenção de todos, na hora exata em que um longo, ossudo... coisa saiu de uma casa.

Parecia mais uma obra de arte abstrata do que uma criatura. Mas isso não impediu que seu uivo rachasse inúmeras janelas na rua do padeiro.

O uivo foi seguido de gritos.

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