O Estalajadeiro

Capítulo 350

O Estalajadeiro

Lex ficou extremamente satisfeito com a recepção de seus convidados na sala de banheira de hidromassagem. Eles só acordaram por volta das 14 horas do dia seguinte e, ao saírem para o hall, estavam extremamente revigorados. E com muita fome.

Estavam tão energéticos que não tiveram dificuldade em cuidar das crianças e, pela primeira vez, sentaram-se em algumas mesas como uma família civilizada, conversando e rindo juntos.

Betty trabalhava intensamente na cozinha, certificando-se de que nunca lhes faltasse comida, enquanto seus ajudantes desordeiros também se esforçavam ao máximo, fazendo o que podiam. Surpreendentemente, porém, os trigêmeos ainda não tinham aparecido para trabalhar.

Considerando seu comportamento disciplinado até então, Lex ficou um pouco preocupado com a ausência deles e enviou o Big Ben para investigar. Já fazia um bom tempo que ele tinha saído, e logo deveria retornar. Enquanto isso, Lex recostou-se na cadeira e ouviu o novo músico que havia contratado temporariamente.

Sua performance e popularidade determinariam se Lex manteria ou não, mas, até então, ele e sua sanfona tinham feito uma apresentação magnífica.

Algum tempo depois, Big Ben voltou trazendo as três meninas, mas as expressões em seus rostos alertavam sobre notícias graves. Lex rapidamente se levantou, verificou se as garotas estavam bem antes de perguntar o que tinha acontecido.

"Os vizinhos deles foram assassinados", disse Big Ben com tom grave. "Quase todos eles. Foi o serial killer. Os corpos foram descobertos na noite passada, por acaso. Os oficiais suspeitaram da família deles, já que estavam ilesos no meio de tudo aquilo, e os prenderam. Mas toda a família trabalha, então todos tinham álibis e tiveram que ser libertados."

O cabelo de Lex se arrepelou ao imaginar descobrir que todos os seus vizinhos haviam sido mortos em suas próprias casas. Era realmente horrível, especialmente quando se pensava que poderia facilmente ter sido eles, ao invés dos vizinhos, os mortos.

"Onde está sua família? Eles têm algum lugar para ficar? Se não, tragam-nos para a taverna e vamos pensar em alguma solução."

"Estão no abrigo da cidade, junto com Dino e sua esposa. Moraram aqui perto também, e estão com medo de voltar."

Lex hesitou por um instante, mas então concordou com a cabeça. Não sabia exatamente como era o abrigo da cidade, mas ao menos seria mais seguro, pois estava sob supervisão da prefeitura. Reafirmou às garotas que poderiam trazer a família para a taverna, se precisassem, e ofereceu que descansassem um pouco. Porém, as garotas recusaram, dizendo que estavam bem e queriam trabalhar.

Elas fizeram o possível para parecer normais, mas qualquer um podia perceber a ausência da alegria habitual que carregavam consigo.

Lex também ficou perturbado com a situação. Tinha tratado o serial killer com descaso, pois tinha a certeza de que logo ou mais cedo ele ou ela seriam capturados. Mas a situação estava ficando gravemente pior, e os oficiais pareciam incapazes de lidar com ela. A segurança aqui era pior do que imaginava.

Mandou alguém procurar e chamar o Roland. Queria mesmo saber o que as notícias tinham a dizer sobre os assassinatos descobertos. Tudo isso acontecia de forma contrária ao senso comum. Ainda podia aceitar que essa região, considerada uma das mais ricas do reino, não exibisse ostentação alguma. Podia atribuir isso à excelente administração da família Noel.

Mas se a administração e o controle da Noel sobre a região fossem tão bons, por que tantos assassinatos aconteciam sem impedimento? Ainda mais quando os próprios irmãos Noel passavam pela cidade também.

A menos que a própria família Noel estivesse por trás dos assassinatos, por qualquer motivo. Seja qual for o caso, Lex começou a ficar com uma sensação ruim. Precisava se preparar caso a situação piorasse.


Cidade de Babilônia, 800 metros abaixo do solo

O assassino limpava o sangue da lâmina, seu corpo tremendo enquanto saboreava suas vítimas. Ele se encontrava atualmente nas câmaras subterrâneas que abrigavam a formação que envolvia Babilônia. Mesmo que alguém soubesse das supostas "fraquezas" da formação, não era tão simples alcançá-la. Fraqueza era apenas um termo relativo, pois nenhum gasto tinha sido poupado.

Afinal, as vidas de todos os moradores da cidade dependiam dessa formação.

Prover luz à cidade era apenas uma das muitas funções da formação, que também incluía uma função de reunião espiritual de baixo nível, uma barreira para bloquear a cidade e outras.

Com a importância da formação, dá para imaginar o quão difícil seria chegar até ela, mas o assassino caminhou despreocupadamente pelo corredor.

"Sistema, quantos pontos preciso para obter algo que possa anular essa formação?" perguntou uma voz surpreendentemente charmosa e enérgica.

"Nenhum ponto necessário. O hospedeiro já recebeu uma recompensa por uma missão anterior que pode tanto aprimorar quanto anular a formação."

"Que sorte," respondeu o assassino, exibindo um sorriso bonito. "Realmente, que sorte."

Seu sistema não comentou sua observação, então o único som remanescente era o de passos firmes ecoando pelas câmaras, deixando um rastro de pegadas ensanguentadas.


"Experimente isso, chama-se chocolate quente. É perfeito para dias frios," disse Lex ao deslizar uma caneca pelo balcão para Roland. O jovem comerciante nunca saía sem sua turma, e desta vez a turma era maior do que na última vez, composta por mais 15 crianças.

Não havia jeito, pois mesmo que a cidade fosse bem iluminada, mesmo na escuridão, eram crianças. Elas encontrariam mil desculpas para esconder o medo da escuridão, pois, embora tivessem passado por períodos de trevas várias vezes na vida, sem incidentes, o medo de monstros escondidos na escuridão sempre se fazia presente.

"Não posso. Estou apertado no orçamento. Tempos difíceis sempre prejudicam os negócios."

Lex deu de ombros e tomou um gole da caneca. Sentia vontade de oferecer aquilo de graça, mas tinha percebido, durante suas meditações diárias, que estava ficando cada vez mais à vontade em dar coisas de graça. Era um hábito que precisava controlar, para que não contaminasse outras áreas da sua vida.

"Quando você acha que vai receber as últimas notícias?" perguntou Lex, limpando o creme de chantili do lábio superior.

"Como eu disse, os tempos difíceis atrasam as atualizações. Eles só recompilam as notícias uma vez por semana, ao invés de diariamente, porque na verdade pouco acontece nos tempos sombrios. Você vai ter que esperar mais três dias."

"Então, só entrega na taverna quando estiver pronto. Considere-me um cliente fixo, vou até pegar algumas para meus inquilinos, então traga umas."

"Sem problema. Pode deixar comigo. Mas, hoje, não vim conversar sobre isso. Tenho uma proposta de negócios para você. Você já se cansou de correr por aí, fazendo recados na cidade? De mandar alguém a cada entrega, mensagem ou busca?

De perder tempo precioso com tarefas banais? Pois, com nosso serviço de recados, por uma assinatura de apenas 2 moedas de prata por semana…”

Lex ouvia a proposta de Roland com diversão, até que um arrepio percorreu seu corpo e seus instintos se ativaram. Mas a sensação de perigo desapareceu bem rápido, como veio. Lex ficou momentaneamente confuso, sem entender ao certo o que seus instintos estavam tentando avisar, até perceber que o salão estava um pouco mais escuro.

Que coisa estranha, nenhuma das luzes do salão havia apagado. O que poderia… ele olhou pela janela e viu a Rua dos Batedores. Estava escuro.

Alguma luz ainda refletia na rua, vinda das janelas dos edifícios, mas os postes de iluminação que mantinham a cidade tão iluminada quanto a Times Square tinham se apagado.

Ignorando Roland, que não tinha percebido nada e continuava com sua apresentação, Lex rapidamente foi até a janela e olhou lá fora.

Todas as luzes da rua, instaladas pela cidade, haviam se apagado, sobrando apenas as que os moradores usavam em suas casas. Mesmo isso não duraria muito, pois eventualmente as pessoas ficariam sem mais pedras espirituais para manter as luzes acesas continuamente.

Roland e alguns presentes no salão também perceberam o comportamento estranho de Lex e olharam para fora, tentando descobrir o que tinha acontecido. A primeira suspeita de todos foi outro assassinato, então não notaram imediatamente a escuridão, enquanto buscavam corpos. Mas, logo, começaram a perceber a anormalidade.

Porém, nesse momento, Lex já tinha desaparecido. Rapidamente, subiu as escadas e foi até o terraço do telhado para ter uma boa visão da cidade. Infelizmente, a situação era exatamente como esperava. Uma camada de escuridão cobria Babilônia, com leves luzes cintilando na noite como vaga-lumes ao longe.

Lex suspirou enquanto sua mente começava a correr. Ele tinha que tomar uma decisão.

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