
Capítulo 339
O Estalajadeiro
Lex William cresceu com três irmãs, mas, surpreendentemente, nunca na vida sentiu que precisava protegê-las. Viajou pelo mundo com sua família, então tinha plena consciência de que na maioria dos países, irmãos são culturalmente ensinados a proteger as suas irmãs.
Mesmo nos países onde isso não é algo comum, por mero afeto fraterno, irmãos e irmãs cuidam uns dos outros.
No entanto, apesar de toda essa compreensão, ele nunca se sentiu estranho por não sentir a necessidade de ser protetor com suas irmãs. Há uma razão bem simples para isso. Sua irmã mais velha, Belle, era uma verdadeira louca. Não só era fria e agressiva, como fazia questão de ser o mais implacável possível. Para completar, ela não tinha um pingo de medo e não se deixava intimidar de jeito nenhum.
Desde criança, Lex se lembrava claramente de que Belle não hesitava em repreender nem os próprios pais, se achasse que eles estavam em erro.
Por outro lado, apesar de se apresentar para o mundo como uma robô sem emoções, era bem evidente que ela se importava com seus irmãos mais novos. Na vida toda dele, Lex nunca teve a oportunidade de enfrentar um valentão, quanto mais de ser vítima de bullying, porque Belle sempre esteve lá.
Seus pais eram um pouco excêntricos, mas assim que Belle percebia que eles estavam interferindo na educação ou no crescimento normal dos irmãos, ela colocava ordem na situação. De certa forma, ela era a responsável por toda a família.
Por isso, Lex passou toda a vida sem sentir uma responsabilidade forte de proteger as mulheres ao seu redor. Isso não significava que ele deixaria que elas sofressem se enfrentassem perigo, mas apenas que essa ideia nunca lhe passou pela cabeça.
Porém, no momento em que viu Nani sendo puxada para os braços de um estranho, algo dentro de sua mente estalou. Ele vinha lidando com o estresse e a pressão de estar preso em um reino diferente, longe de casa e de todos que conhecia bem, mas isso não quer dizer que não sentisse tudo isso. Além disso, menos de um ano atrás, ele era apenas um homem comum, vivendo uma vida comum.
Nunca enfrentou perigo mortal, nunca foi caçado por animais, nunca queima-lá vivo por lava, nunca teve sua mente, corpo e alma atacados por monstros viscosos.
De modo geral, ele lidou bem com o estresse das mudanças. Mas, claramente, esse estresse tinha se acumulado em algum lugar dentro de Lex e, agora, de repente, uma onda de raiva rompeu a barreira que ele havia criado dentro de si e começou a destruir todas as suas inibições.
Lex apertou o punho, não para socar, mas para controlar a formação na taverna. Já tinha planejado que, se enfrentasse algum problema, colocaria o infrator em uma sala criada pela formação espacial, aprisionando-o. Em sua mente, ele planejava criar uma sala pequena, invisível, para isolar a pessoa do resto.
Porém, ao agir por raiva, ele ultrapassou os limites do que entendia sobre como a formação funcionava.
Quem disse que a "sala" invisível que ele criava usando a formação espacial tinha que ser cúbica ou retangular? Instantaneamente, ele criou várias salas, exatamente no formato dessas "pessoas importantes", e as prendeu lá.
De repente, elas perceberam que não conseguiam se mover nem um pouco, sentiam algo comprimindo seus corpos, como uma prisão, mas não conseguiam ver o que era. Permanecerem paradas, obrigadas a serem tão imóveis quanto estátuas, era algo muito diferente, e todos na sala logo perceberam que algo havia acontecido, mas não conseguiam entender o que era.
Sem prestar atenção em nada, Lex caminhou até Nani e a ajudou a sair dos braços daquele homem.
"Você está bem agora," ele disse com uma voz quente e tranquilizadora. "Tudo acabou. Está tudo bem." Ele verificou suas mãos para ver se ela tinha algum hematoma e, felizmente, ela não se ferira. Sorte para os presentes que ficaram imóveis.
A garota, que tinha sofrido mais com o susto de ter sido puxada do que propriamente com o medo, logo se acalmou. Lex reagiu rápido demais, tanto que ela nem percebeu que alguém a pegou antes que ele a puxasse para longe.
Suas duas irmãs, que ouviram o grito, também vieram correndo para o hall para investigar, mas Nani parecia estar bem.
"Desculpe por não ter impedido o homem antes," Lex disse sinceramente. "Estava distraído, isso não vai mais acontecer."
"Ah, não é nada," Nani respondeu com risada, ajustando-se quando finalmente se acalmou. "A gente não estaria nessa profissão se não desse conta de um pouco de confusão."
Embora dissesse que estava bem, ela rapidamente pegou a bandeja caída e recuou para a cozinha. Mesmo alguém cego já perceberia que alguns convidados no hall estavam… anormalmente parados. Apesar das expressões permanecem congeladas — uma consequência da força da formação —, seus olhos se mexiam de um lado para o outro, com medo e confusão.
Lex assentiu e voltou sua atenção para a "elite da sociedade". Para ser sincero, ele estava extremamente irritado com eles. Não apenas porque tinham agredido Nani e insultado a ele, junto com todos os demais, mas também por terem destruído sua tentativa de fazer a taverna parecer um lugar comum.
Quando algo rompe em Lex, não é uma fúria cega, embora a raiva esteja evidente. Era como se suas inibições se quebrassem. Ele vinha se segurando, evitando mostrar todas as cartas, pois sabia que revelar tudo aumentaria o risco à sua vida, especialmente fora do interior da taberna.
Mas agora, com a taverna nas mãos e as funções do sistema podendo ajudá-lo novamente, ele sentia que não havia mais necessidade de se reprimir tanto.
Lex apertou ainda mais o punho, e a "sala" que aprisionava os infratores se apertou um pouco mais, comprimindo seus corpos. Não era letal nem perigoso, mas certamente desconfortável.