O Estalajadeiro

Capítulo 313

O Estalajadeiro

Levar quase oito horas para que o veneno fosse eliminado do corpo de Lex. Ele ainda não estava completamente recuperado no momento em que terminou, mas já se encontrava em condições de sair da câmara para realizar outras tarefas. Durante essa expedição anterior, embora tivesse uma espada, ele não chegou a usá-la nem uma vez.

Ele tinha praticado um pouco com ela, mas, na realidade, ainda não era habilidoso o suficiente para utilizá-la com destreza.

Ora, ele era cultivador há menos de um ano — ou um pouco mais; já tinha perdido a noção do tempo —, mas tinha se ocupado tanto nesse período que algo como treinar de forma metódica e sistemática era impossível. Melhorou com a sua arma de fogo, mas apenas porque seus sentidos ampliados facilitavam seu uso. O tempo dedicado ao treino era minúsculo.

Portanto, por ora pelo menos, carregar uma arma dessas não era viável para ele. Talvez futuramente, quando tivesse tempo para treinar, voltasse a se dedicar a isso. Agora, porém, decidiu simplificar ainda mais.

Dirigiu-se até o armeiro com quem já tinha trabalhado anteriormente, usando sua nova riqueza para comprar um par de luvas pretas. Além de protegerem suas mãos de forma básica, as luvas ofereciam uma série de benefícios devido às suas encantamentos.

As luvas conduziam energia espiritual, o que evitava que interferissem na ativação de seus encantamentos, enquanto outra magia estabilizava suas mãos e dedos, auxiliando na precisão ao desenhar caracteres.

Também possuíam uma habilidade de onda de choque simples, porém poderosa. Lex podia armazenar energia espiritual nelas e ativá-las ao atingir algo, causando uma explosão de ondas de choque.

Ele também comprou uma nova armadura e equipamentos. Já não acreditava mais na ideia de que esses itens o serviriam por muito tempo, preferindo adquirir itens com benefícios mais imediatos, ao invés de algo que pudesse durar anos. Afinal, era comum ele perder ou quebrar seus equipamentos. Ainda não superava a perda do seu Monóculo Fino.

Com isso, ele voltou para junto de Cwenhild. Durante sua recuperação, ela tinha enviado o relatório de seu sucesso, assim como os inúmeros Cristais adormecidos em seu novo reino. Até mesmo o administrador da academia ficou surpreso com as notícias. Uma investigação já estava em andamento, e isso provavelmente se transformaria em uma vantagem negociável para a academia com a raça dos Cristais.

Ganhar a simpatia deles não era tarefa fácil, e, por isso, certamente fariam bom uso dessa oportunidade.

Assim, uma vez que seu reino fosse totalmente explorado e a extensão de sua situação compreendida, Cwenhild seria devidamente recompensada. A entrada no núcleo da academia quase que garantida para ela neste momento.

Claro, ela também enviou secretamente informações sobre esse evento para sua mãe. Quem sabe, talvez isso a incentivasse a retornar à academia — algo que Cwenhild até gostaria. Afinal, há certas coisas que só consegue fazer na presença da mãe. As ambições de Cwenhild não eram menores que as da própria mãe.

Porém, tudo isso não tinha relação com Lex. O que ele buscava era algo completamente diferente.

— Esta é a lista de reinos menores com indicações apenas na Faixa de Fundação — disse Cwenhild, entregando a Lex uma lista. — Um relatório detalhado do que está acontecendo lá dentro é difícil de obter, já que atualmente a única fonte de informações são os estudantes que saíram. Há, no entanto, um que acho que se encaixa bem nos seus critérios, embora eu esteja um pouco na dúvida.

— Tem as maiores chances de que ninguém tenha descoberto onde está o ponto focal, porque o reino está dominado por Duendes. E, quando digo dominado, estou sendo modesta. Decerto, dezenas de milhares de duendes ocupam esse reino, todos pertencentes a várias clãs beligerantes que, presumo, geralmente lutam entre si, mas assim que os estudantes apareceram, atacaram eles imediatamente.

Já houve dezenas de vítimas confirmadas, com centenas de estudantes desaparecidos — presumivelmente mortos ou presos. Há uma batalha enorme acontecendo há várias horas entre estudantes e milhares de duendes. É, de longe, o reino mais caótico até agora.

— Ah, que notícia terrível, tantos estudantes inocentes sofrendo. Acho que é minha responsabilidade ir lá e acabar com o sofrimento deles, tomando o reino e expulsando-os das prisões onde os duendes os mantêm.

Cwenhild o olhou com expressão impassível, como se não estivesse impressionada com sua piada.

Lex riu e disse:— Não se preocupe, esteja com um comprador pronto para mim quando eu voltar. Tem certeza de que não há relatos de Kravens no reino? Ou de outras criaturas da Faixa Dourada?

— Não, aquele Kraven foi uma anomalia que a própria academia está investigando. Isso não deveria acontecer. Quanto a outras criaturas na Faixa Dourada, é totalmente possível. Em questões assim, desde que as desvantagens não sejam avassaladoras, a academia não interfere. Mas Lex, você tem certeza de que quer fazer isso sozinho? Já viu como foi difícil conquistar um reino?

— Não se preocupe. Mesmo que eu não consiga esse, tenho certeza de que consigo pelo menos um. Quanto a ir sozinho, acho que é o melhor. Ninguém vai esperar ou buscar por uma pessoa sozinha tomando um reino. Além do mais, se eu não precisar ficar avisando os outros o tempo todo sobre o perigo, e só precisar cuidar de mim mesmo, vou ser muito mais rápido.

Cwenhild não insistiu. Ela não acreditava em ficar chata demais, e mostrar preocupação com seu bem-estar uma única vez já era algo incomum nela normalmente. Além disso, a proposta de negócios de Lex — capturar reinos e, ao invés de reportar à academia, vendê-los para estudantes que buscam o núcleo — era algo extremamente… lucrativo. Uma loucura, para ser honesto.

Quem valorizaria dinheiro mais do que alcançar o núcleo da academia? Lex, aparentemente. Se for por isso, ele parecia considerar isso uma mera inconveniência a evitar.

Ela balançou a cabeça e sinalizou para um de seus atendentes. Um administrador da academia entrou na sala e, sabendo qual reino era, abriu um portal para Lex até lá. Ao escolher passar pelos portais dos reinos na residência de Cwenhild ao invés das entradas públicas, eles podiam esconder melhor seus movimentos.

Afinal, se a academia registrasse a conquista de um reino sob o nome de Lex, o valor de vendê-lo diminuiria drasticamente.

Lex já tinha bastante experiência ao passar por um portal, e aceitou isso com naturalidade. Estava ansioso pelos dias que vinham pela frente. Planejava visitar reinos menores em busca de reservas de energia, mas agora tinha a chance de ganhar o dobro.

Assim que chegou ao reino menor, no entanto, um enorme martelo do tamanho de uma porta de carro o acertou diretamente na cara. A velocidade foi tanta que ele nem conseguiu sentir, quanto mais desviar.

Seu corpo foi arremessado pelo impacto, mas a confusão durou só um momento, e ele se recompôs antes mesmo de tocar o chão. Nem precisou olhar ao redor para perceber que havia chegado exatamente no meio de uma batalha gigantesca.

Lex bateu de cara com alguns duendes e, embora a força do impacto tivesse destruído alguns, ele rapidamente se levantou para observar o campo de batalha. Centenas de estudantes lutavam contra milhares de duendes, além de trolls.

Lex já conhecia essas duas raças, pois estudara sobre elas em suas aulas. Duendes e trolls eram criaturas humanóides, mas com tamanhos bastante diferentes. Os duendes tinham cerca de 90 centímetros — ou seja, pouco mais de três pés —, e eram criaturas selvagens, com inteligência básica. Eram, porém, imprevisíveis e portadores de várias doenças.

Os trolls tinham entre 2,4 a 3,7 metros de altura e eram ainda mais burros, o que facilitava sua manipulação pelos duendes. Tinha uma imunidade parcial à energia espiritual e uma força física impressionante.

Mesmo assim, os estudantes da academia não eram frágeis e a desvantagem numérica não os assustava.

Contudo, a batalha era uma confusão caótica, com cada lado fazendo o que achava melhor, o que só aumentava o caos.

Porém, Lex não dava atenção a isso. Dominando e esquivando-se habilmente de todos os ataques, esfregou o nariz, que tinha suportado o impacto do martelo, e esperou a orientação da Flor de Lótus sobre quaisquer reservas de energia próximas.

Ele não se decepcionou: assim que recebeu uma direção, usou Heart's Marathon para acelerar sua velocidade e saiu correndo. O que tinha aprendido ajudando Cwenhild era que, enquanto só enfrentasse inimigos da Faixa de Fundação, pouco tinha a temer. Essa confiança o incentivava a tentar conquistar múltiplos reinos. Agora, precisava pôr suas habilidades à prova.


Reino de Origem, Fronteira de Batalha Galáctica Pendal

O porta-aviões de comando de Ragnar não mudava de rota enquanto atravessava asteróides maiores que a Terra, embora começasse a diminuir a velocidade. Outras seis unidades semelhantes estavam posicionadas na fronteira desse campo de batalha; uma região vazia, sem estrelas, muito menos sistemas planetários. Apenas um campo infinito de rochas e desolação se estendia até onde a vista alcançava, sem qualquer sinal do que esse espaço fora um dia.

Essa seria a primeira vez, em muito tempo, que Ragnar enfrentaria um inimigo além dos demônios. Mas, assim como uma guerra que tinha que combater, este também era. Porém, diferente do conflito humano contra os demônios, que era pessoal, esse campo de batalha era uma obrigação, desde que seguissem os acordos de Henali.

Em outro ponto do porta-aviões, um cansado Alexander olhava para o espaço. O antigo astro dourado do destino agora era apenas um soldado exausto. Mas, escondido profundamente em seus olhos, havia um fogo que brilhava mais forte que as estrelas. Enquanto estivesse vivo, o universo não tinha o vencido.

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