O Estalajadeiro

Capítulo 304

O Estalajadeiro

O silêncio tomou conta da sala enquanto todos absorviam a notícia. Era extremamente raro humanos terem a oportunidade de ver algo da sociedade das raças de Cristal, quanto mais algo tão bem protegido quanto um abrigo adormecido. Considerando que esse reino menor permanecia desocupado há incontáveis anos, ele mal podia imaginar a idade dessas pessoas—ah, quero dizer, desses Cristais?

Ele não conseguia imaginar quão antigos esses indivíduos eram.

Mas o nível de segurança de repente fez sentido. Não era brincadeira uma formação de proteção continuar operando sem supervisão por tantos anos, quanto mais a projeção que os "acolhia" assim que entravam.

Agora que já se sabia que se tratava de um abrigo adormecido, a próxima questão era: e agora? As implicações dessa descoberta eram monumentais, mas, independentemente disso, eles não podiam permitir que esses seres despertassem antes que Cwenhild assumisse o controle daquele reino.

Lex não queria fazer suposições sobre se seriam amigáveis ou não, já que nem mesmo conseguia explicar aos Cristais o motivo pelo qual esse reino tinha sido abandonado caso eles acordassem. Seria completamente compreensível que presumissem o pior ao ver intrusos assim que despertassem.

"Você acha que os outros pontos de alta energia também são abrigos adormecidos?" Lex perguntou, após o silêncio ter se prolongado bastante. Patrick tinha descoberto dois outros locais com alta concentração de energia que ainda não visitaram.

"Difícil de dizer. Não faria sentido ter vários abrigos por perto. Enfim, vamos lá. Essa parede de vidro deve ser a última barreira do abrigo e não deve ser fácil de penetrar. Vai impedir que qualquer outro tente acordá-los, mas não podemos perder tempo."

A voz de Cwenhild era firme, sem revelar emoções além de uma calma serena, mas por dentro ela quase desmaiava. O valor daquele reino tinha de repente superado tudo o que poderiam imaginar, e enquanto ela conseguisse conquistar esse reino antes que os Cristais despertassem, até poderia negociar certos termos com sua própria mãe.

"O que você acha que é, dormir por anos a fio?" Lex perguntou enquanto eles se apressavam rumo ao próximo ponto.

"A consciência deles entra em um sonho artificial compartilhado por todos no abrigo adormecido," Jade 1 respondeu de forma resumida. "Eles precisam manter esse estado para estimular seu espírito, já que estão apenas dormindo, não mortos. Ainda assim, no sonho, o tempo passa muito mais devagar do que na vida real. Um dia no sonho pode equivaler a um ano."

"Legal," Lex comentou, fazendo uma anotação mental da ideia. Talvez pudesse fazer algo assim na hospedaria para hóspedes que usam quartos por períodos prolongados.

Apesar de ninguém dizer nada a respeito, a velocidade com que o grupo se movia denunciava uma sensação de urgência que os dominava.

O segundo local em que chegaram parecia algum tipo de templo. Incontáveis estudantes já preenchiam a área, todos explorando a grandiosa estrutura em pequenos grupos ou sozinhos.

Lex e seu grupo nem lhes deram atenção e seguiram direto, com Patrick guiando-os ao destino. Se alguém tentasse pará-los ou, pior, roubá-los… Lex havia aprendido a lição e não tentava mais ser o mocinho, o que significava que o mínimo que cada um deles levava era várias ossadas quebradas.

Profundamente subterrâneo, após explorar por algumas horas, finalmente chegaram a uma câmara extremamente bem protegida. Formações, projeções e guardas automatizados protegiam o local, mas sua força havia diminuído muito ao longo do tempo e, após algum esforço, eles conseguiram romper as defesas.

Por um momento, parecia que tinham realmente encontrado o que buscavam. A sala estava cheia de tesouros de verdade. Moedas de Cristal, armas, roupas, livros, tokens, talismãs e mais, tudo preenchia o espaço. Por mais tentador que fosse, foi uma coroa flutuante de ouro e cristal que chamou a atenção de todos.

Porém, após examiná-la, Cwenhild revelou que ela não era o que buscavam. Assim, por mais que fosse fisicamente doloroso, o grupo deixou todo aquele tesouro para trás e seguiu rumo ao próximo objetivo. Carregar aquilo só os atrasaria, e o reino era mais valioso do que essa mesmice de riquezas — o único item que levaram foi a coroa.

Eles não sabiam exatamente o que era ou o que fazia, mas sabiam que era algo significativo e que não os pesava.

O terceiro e último ponto nessas ruínas acabou sendo uma cratera. Um buraco profundo, escuro, rasgando diretamente por um prédio, e o solo jorrava energia espiritual violentamente. Eles nem conseguiam se aproximar, pois até Lex começou a sangrar de forma espontânea ao chegar perto, quanto mais os demais.

Lex nem conseguia absorver essa energia espiritual abundante, pois ela não era neutra e tinha uma natureza altamente destrutiva. Seja qual fosse a origem ou causa, estava além do que conseguiam suportar. Com isso, só lhes restava uma opção: seguir em direção às montanhas.

Ainda havia outras ruínas que poderiam explorar, mas estavam fora do caminho, e parecia provável que tudo o que Cwinheld precisava para reivindicar o reino estivesse no ponto mais energético do local. Que pena: atravessar a montanha não seria tarefa rápida.

Mesmo sem interrupções, levaria horas apenas para chegar às montanhas. Para cruzá-las e chegar ao que quer que estivesse causando aquele brilho… levaria um bom tempo — para dizer o mínimo.

Sem perder tempo, imediatamente começaram sua jornada, seguindo a rota mais direta. Sua presença imponente e a sensação de urgência fizeram a maioria das pessoas se afastar, sejam humanos ou bestas, mas alguns ainda tentaram ficar no caminho, por ego ou ganância. Mas, com o grupo deixando para trás qualquer resistência, ninguém conseguiu detê-los por muito tempo.

Ness, especialmente, apreciava encontros violentos de força total e seguia na esperança de mais deles.

Como a única fonte de luz no reino era aquele brilho atrás das montanhas, era difícil marcar o tempo, mas Lex sentia que tinha se passado meia manhã até chegarem aos sopés das montanhas. Ali fizeram uma parada, aproveitando para comer, beber água e tirar um cochilo curto. Uma hora depois, retomaram a marcha.

Lex esperava que cruzar as montanhas fosse perigoso, pois estavam cada vez mais perto da parte mais energética do reino. Mas, surpreendentemente, a jornada foi ainda mais tranquila. Nem sequer viram outro ser vivo na região, o que ajudava a manter a velocidade do deslocamento, mas o silêncio inquietante mantinha o grupo em alerta.

Em determinado momento, ao atravessarem um vale especialmente íngreme, o som de seus passos ecoava por quilômetros, e nem mesmo um pássaro adormecido foi perturbado. As montanhas estavam tão silenciosas e imóveis quanto um morto antes de sua chegada, e, com o tempo, as cimeiras começaram a pesar sobre eles.

Uma pressão desconhecida preenchia o ar e começava a sufocá-los. Cruzar as montanhas sem obstáculos de alguma forma ficou mais cansativo do que a jornada anterior. Depois de parecer um dia inteiro desde que entraram nas montanhas, fizeram sua segunda parada. Dessa vez, descansaram de verdade, pois estavam mentalmente exaustos.

Ficar com a guarda alta durante um dia inteiro era mais exaustivo do que lutar de verdade.

Enquanto o grupo alternava entre dormir, Lex se sentava num canto com o cenho franzido. Uma sensação estranha de déjà-vu o atingia. Normalmente, isso não era suficiente para preocupá-lo, pois o sentimento passava. Mas era exatamente isso — o sentimento NÃO passava, e ia ficando mais forte enquanto atravessavam as montanhas.

Por mais que tentasse, ele não conseguia descobrir o que causava essa sensação. No final, decidiu focar na Hospedaria. Talvez demorasse mais um dia até chegarem ao destino, e não fazia sentido perder tempo com pensamentos bobos enquanto isso.

*****

Planeta Desconhecido, Reino de Origem

Um grupo de homens com aspecto raivoso e ansioso reunidos em círculo, com os olhos fixos em um jovem e em um xamã que sentava de frente para ele. O xamã estava queimando algum tipo de papel com uma chama rosa, a fumaça era vermelha como sangue e a cinza caía como areia amarela. Seus olhos estavam fechados, parecendo estar em transe.

Apesar de toda a concentração na presença do xamã, ninguém percebeu quando as pontas de seus cabelos começaram a brilhar em vermelho e, logo depois, a queimar-se. A princípio, alguém poderia ter confundido a cena, achando que a atenção do grupo estava em outro lugar, mas mesmo quando os cabelos dele passaram de simplesmente brilhantes para estar em chamas, ninguém percebeu.

Só quando as chamas tocaram seu couro cabeludo, e o xamã gritou e soltou o papel incendiado, que o grupo deu-se conta do que tinha acontecido. Como um truque de mágica, assim que o xamã deixou cair o papel, a chama desapareceu. Mesmo nesse breve instante em que o fogo tocou seu couro cabeludo, toda a carne que havia ali foi queimada até virar cinza.

O xamã caiu, perdendo a consciência, mas o grupo, ao invés de ajudá-lo, cercou o jovem para garantir que ele estivesse bem.

Fisicamente, ele estava bem, mas sua frustração o consumia por dentro.

"Lixo! Roedores! Fraudes! Não acertam uma! Encontrem alguém melhor, e dessa vez, que não seja uma farsa! Preciso rastrear minha alma gêmea antes que Lady Cosmos acabe, ou nunca mais vou consegui-la!"

O jovem tentava descobrir a localização de uma das participantes do show Lady Cosmos, mas como podia ser tão fácil invadir os segredos do Hospedaria Midnight? Assim como ele, incontáveis outros pelo universo também souberam do show, pois sua fama explodiu!

E, como ele, muitos outros não se intimidaram com o prestígio que a Hospedaria podia ter e tentaram descobrir quem eram seus hóspedes ou desvendar seus segredos. Por ora, apenas os xamãs e profetas que tentavam desvendar os mistérios da Hospedaria sofreram sua retaliação. Por enquanto.

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