
Capítulo 259
O Estalajadeiro
A batalha que se seguiu deixou Lex incomummtente. As defesas do acampamento, embora recém-construídas, pareciam impenetráveis, o que significava que não havia ameaça real para Lex. Mas ao mesmo tempo, ele não podia simplesmente relaxar ou distraidamente focar em outra coisa, pois se as defesas fosse insuficientes, ele precisaria se proteger.
Ele não podia participar de defesa contra o ataque porque, na sinceridade, era fraco demais para fazer alguma diferença significativa. Nem mesmo conseguia acompanhar a luta de perto, pois se chegasse muito perto, se tornaria vulnerável às ondas de choque da batalha, podendo até atrapalhar seus aliados.
No final, passou várias horas apenas… esperando que algo acontecesse. No fim das contas, a batalha terminou com o acampamento conseguindo defender-se com sucesso. Depois, Ptolemy foi ao bosque com alguns guardas e, embora não tenha revelado o que fez, garantiu ao acampamento que não haveria mais ataques daquele tipo enquanto ele estivesse ausente.
Com essa garantia, começou o verdadeiro propósito da expedição. Toda a região era desconhecida, com pouquíssimo conhecimento do que quer que fosse. Os cartógrafos construíram uma torre de observação própria, de onde usavam telescópios e outros dispositivos para mapear o terreno ao redor, além de tentar descobrir a melhor direção para prosseguir na expedição.
Outros começaram a estudar a fisiologia das cobras, pois eram os primeiros seres vivos com os quais tinham entrado em contato, além das árvores. Aliás, ao conviverem com as várias pequenas grupiações, Lex aprendeu que aquelas não eram árvores de bordo-de-Maple — na verdade, eram uma espécie ainda desconhecida, cuja casca resistia muito bem ao fogo, mas as folhas eram altamente inflamáveis.
Já tinham começado a estudar a seiva e as raízes das árvores que cortaram, propondo novos usos para elas. Outras equipes analisavam a composição do solo e minerais, enquanto algumas estudavam os fluxos de energia espiritual na região.
O acampamento realmente tinha ganhado vida, o que evidenciava claramente que Lex não tinha nada para fazer. Bem, oficialmente ele não tinha, já que Ptolemy não se incomodava com ele. Não oficialmente, por outro lado, Lex tinha muito o que fazer.
Essa expedição tinha só começado e provavelmente iria durar meses ou até anos, mas Lex tinha um tempo limitado com eles, pois estava passando por uma provação. Ou seja, nas próximas semanas, Lex precisava acessar pelo menos uma das minas de pedra espiritual enterradas — sem alertar ninguém.
O problema é que Karom não lhe entregou um mapa da localização exata; na verdade, só passou características ou pontos de referência do local próximo. Para ajudá-lo também a cumprir sua própria agenda, Karom forneceu uma maneira de Lex escapar da supervisão de Goli, mas isso nada fazia para esconder Lex das feras.
Nos dias seguintes, pequenos grupos de caça e exploração saíam várias vezes ao dia, e Lex acompanhava pelo menos um desses grupos diariamente. Ele mostrou ser capaz de garantir sua própria segurança, então ninguém se opunha, sem falar que todos, mais ou menos, sabiam que Lex deveria ter alguma responsabilidade na defesa — então, aceitavam isso como parte de seu papel.
Além disso, mesmo nos dias em que Lex não ia explorar, ele aproveitava para entrevistar os patrulheiros ou guardas que saíam, para aprofundar seu entendimento do terreno e dos hábitos da fauna local.
Ele confirmava suas análises com os zoólogos da expedição, para evitar especulações infundadas.
Na realidade, Lex estava criando seu próprio mapa e planejando como conquistaria as pedras espirituais. Para os integrantes da expedição, parecia que Lex levava seu trabalho a sério e se empenhava para evitar mais ataques inesperados.
Alguns Notaram que, mesmo antes da primeira emboscada, Lex parecia ter percebido algum perigo e tentou alertar Ptolemy. A atenção extra, claro, vinha dos rumores a respeito dele. Isolados da sociedade, o único passatempo dos integrantes da expedição era fofocar.
É claro que havia muitas outras histórias sendo fofocadas, com Ptolemy como figura central. Mas, por causa de tantos rumores sobre Lex misturados a outras histórias, as pessoas acabaram esquecendo que aquilo tudo eram apenas rumores, não fatos.
Obviamente, nada daquilo tinha relação alguma com Lex. Depois de uma semana de reconhecimento e pesquisa, ele estava pronto para partir sozinho do acampamento e realmente começar a procurar as minas. Mas tinha um único problema.
"Por que você vai sair só?" perguntou o estudante que cuidava do portão. Não era uma interrogação formal, já que todos mais ou menos já se conheciam, mas ele ainda assim precisava perguntar.
"Para fazer uma reconhecimento pessoal. Tem alguns lugares que é muito mais fácil explorar sozinho."
"Tem certeza? Não que eu duvide de você ou algo assim, mas, se der problema… pode ser difícil sobreviver sozinho."
"Não se preocupe, tomei precauções adequadas."
"Ainda assim… acho melhor avisar o Ptolemy, só para garantir."
"Claro," respondeu Lex, soltando um suspiro de cansaço. Considerando que estavam vivendo tão próximos, Lex não esperava esconder de quem quer que fosse que ia sair sozinho. Ele apenas queria mais uma abordagem de 'desculpas ao invés de permissão'. Não queria se complicar tendo que explicar suas ações para Ptolemy.
Ptolemy, por sua vez, também não gostou do fato de Lex estar tão ativo. Se Lex fosse só um garoto preguiçoso e mimado, se encaixaria melhor na sua narrativa de que ele era alguém que só tinha tudo na mão, sem conquistar nada. Mesmo sabendo que devia investigar como Lex tinha detectado a emboscada, sua parcialidade já o tinha impedido até ali.
Sua estratégia de lidar com Lex tinha sido de deixar passar, esquecer dele. Mas, quando o próprio Lex tomava a iniciativa e partia para a exploração sozinho, não tinha jeito de ignorar.
"Você não é patrulheiro, e não temos missões de reconhecimento que exijam sair sozinho. O que exatamente quer fazer? Não temos mão de obra suficiente para desperdiçar em uma missão de resgate, se você se meter em confusão."
"Então, não faça," respondeu Lex, colocando os olhos no teto. "Achava que você não se importava com o que eu fazia, desde que não atrapalhasse você. E estou até deixando de atrapalhar, então por que se importar?"
"Faça o que quiser," respondeu Ptolemy. "Só não diga que vou gastar minha equipe para te tirar dessa se alguma coisa der errado."
Lex achou alívio ao saber que Ptolemy não tentaria impedir sua saída, mas também sentiu mais pressão, já que sabia que, se as coisas dessem errado, não teria volta ou resgate garantido.